Próximo governo terá de fazer ajuste de R$ 250 bi para não subir impostos

O Brasil tem ainda neste ano dois desafios amplos: trajetória de alta de juros nos EUA com inflação recorde no mundo e ano eleitoral, lembraram economistas em painel da CEO Conference
 (BTG Pactual/Divulgação)
(BTG Pactual/Divulgação)
Por Da RedaçãoPublicado em 23/02/2022 17:43 | Última atualização em 25/02/2022 12:03Tempo de Leitura: 4 min de leitura

O Brasil precisará de um ajuste de cerca de 2,5% do PIB para que a dívida pública inicie trajetória de queda, afirma Mansueto Almeida, economista-chefe do banco BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro.

O economista falou nesta quarta-feira, 23, em participação na CEO Conference, evento organizado pelo BTG Pactual (do mesmo grupo que controla a EXAME), em painel ao lado de Eduardo Loyo, sócio do BTG Pactual, e Tiago Berriel, estrategista-chefe do banco.

"Sendo muito claro: o próximo governo terá de fazer um ajuste de R$ 250 bilhões", diz Mansueto. "Não se faz um ajuste dessa magnitude em um ano. Vamos precisar de um próximo governo — seja quem for — que tenha convicção de que vai ter quatro anos de austeridade."

O recorde de arrecadação em duas décadas visto em 2021, puxado por preços altos de combustível e energia elétrica, foi boa notícia para as contas públicas. No entanto, a tendência é que parte dessa folga adquirida leve a aumento de gastos em estados e municípios, que não precisam cumprir metas fiscais.

Na União, o cálculo é que, se não forem aprovadas novas desonerações (o que se discute no caso dos combustíveis), o déficit primário deste ano tende a ficar na casa dos R$ 45 a R$ 50 bilhões, ou 0,5% do PIB, diz Mansueto.

Sem um ajuste no próximo governo, o risco é que aumentar a carga tributária para custear redução de pobreza prejudique o crescimento das empresas, disseram os economistas presentes.

O Brasil é um país em desenvolvimento com carga tributária de país rico", diz o economista. A carga do Brasil é 33% do PIB, 10 pontos acima da média da América Latina e similar à da Inglaterra.

Um caminho seriam mudanças em isenções hoje garantidas a alguns setores. "O próximo governo talvez consiga mexer no regime especial de tributação, arrecadar um pouco mais. Mas não vamos nos enganar, é uma agenda difícil", conclui Mansueto.

Crescimento para 2022

Para este ano, a projeção do BTG Pactual é de crescimento perto de zero do PIB, embora possam ocorrer surpresas como demanda reprimida em serviços ou na frente da indústria, que sofreu com falta de componentes na pandemia.

Pelas expectativas até agora, pode haver uma variação entre -0,5% e 1% no crescimento do PIB de 2022, apontam os economistas.

"Podemos ter surpresas pontuais, tanto no fiscal quanto em demanda e produção reprimida", diz Berriel. "Mas a hipótese é que temos um bom motivo para acreditar numa desaceleração elevada."

Um dos principais motivos é o aumento da taxa de juro empregado para conter a inflação, e Mansueto aponta que isso não significa que o Brasil "perdeu a capacidade de crescer".

O Banco Central vive agora um desafio de "fim de ciclo", após uma trajetória de oito aumentos da taxa Selic, hoje a 10,75% e projeções para acima de 12% no fim do ano.

Apesar das altas, as pressões inflacionárias seguem altas. O IPCA-15, prévia da inflação oficial divulgada nesta quarta-feira, mostrou alta de 0,99% em janeiro, e as projeções para este ano, que começaram janeiro a IPCA anual em 5%, já pioram.

Eduardo Loyo, sócio do BTG Pactual, aponta que não enxerga "nada de paradoxal" em relação às altas da inflação mesmo após o aperto de juros do BC, pois os resultados tendem a não ser imediatos.

"Não dá para ficar exigindo do BC que ele só desacelere ou encerre um ciclo de alta de juros num momento em que ele já comece a colher os resultados do aperto monetário", diz. "Principalmente quando se está lidando com pressões inflacionárias que resultam de uma coleção de choques, que aconteceram ao mesmo tempo — e que levam um tempo para ser digeridos", completa Loyo, mas afirma que, nesta trajetória, surpresas podem aparecer, e cabe ao BC reestruturar o plano nestes casos.

Os analistas afirmam que é positivo o fato de o plano de ação do BC estar sendo apresentado com alguma transparência — com a possibilidade de aperto de juros em pelo menos mais duas reuniões, e depois disso, alguma desaceleração.

O Brasil tem ainda neste ano dois desafios amplos: trajetória de alta de juros prevista nos Estados Unidos para conter a inflação recorde no mundo, e ano eleitoral, com eleições presidenciais em outubro.

"Final do ciclo [de aperto monetário] é sempre muito difícil, e [acontece] num ambiente em que temos muitas incertezas", diz Berriel. O estrategista avalia, no entanto, que o cenário nos Estados Unidos e as expectativas para a eleição, por ora, não tem tido muito impacto até o momento, mas que há um grau de volatilidade esperado com o ano eleitoral.