OPINIÃO Como digerir o petróleo da Rússia

Em artigo, o economista Ricardo Hausmann, da Universidade Harvard, discute a necessidade de repensar radicalmente a geopolítica energética e a descarbonização para enfrentar a ameaça russa
Trabalhador na refinaria de petróleo Lukoil-Nizhegorodnefteorgsintez, operada pela OAO Lukoil, em Nizhny Novgorod, Rússia (Andrey Rudakov/Bloomberg)
Trabalhador na refinaria de petróleo Lukoil-Nizhegorodnefteorgsintez, operada pela OAO Lukoil, em Nizhny Novgorod, Rússia (Andrey Rudakov/Bloomberg)
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Da RedaçãoPublicado em 03/04/2022 às 12:30.

Por Ricardo Hausmann

CAMBRIDGE – Aconteceu uma coisa engraçada no caminho para o net zero. Enquanto os padrões ambientais, sociais e de governança estavam forçando as empresas petrolíferas a se desfazerem de combustíveis fósseis, e enquanto os Estados Unidos estavam apertando sua política de produção de petróleo e fechando o oleoduto Keystone XL proposto por motivos ambientais, a Rússia decidiu invadir a Ucrânia.

Os EUA e o Canadá rapidamente declararam um embargo ao petróleo russo, enquanto a União Europeia – que é mais dependente da energia russa – lutou para elaborar uma política coerente. Com os preços da energia subindo vertiginosamente, os governos ocidentais se concentraram em aumentar a oferta não-russa, inclusive reativando usinas de carvão europeias e expandindo a produção de petróleo e gás natural dos EUA.

Os cínicos poderiam argumentar que este é um caso agostiniano de “concede-me castidade e continência, mas não ainda”. Claramente, é necessário repensar mais  radicalmente a geopolítica energética e a descarbonização para enfrentar a ameaça russa.

A nova agressividade da Rússia foi possibilitada pelo boom do petróleo. A produção de petróleo do país caiu vertiginosamente após a dissolução da União Soviética em 1991, atingindo um nadir de 6.1 milhões de barris por dia em 1998 – cinco milhões a menos do que uma década antes. Mas a produção posteriormente se recuperou completamente, atingindo um recorde de 11.7 milhões de barris por dia em 2019.

O aumento da produção e os longos períodos de preços altos deram ao presidente Vladimir Putin os recursos para fortalecer o exército russo e abusar de sua dominância por aí. Por exemplo, a Rússia anexou a Crimeia em 2014, depois de uma década de altos preços do petróleo e aumento da participação de mercado, enchendo os cofres do Kremlin.

Fim da dependência

À luz da atual guerra de Putin contra a Ucrânia, a Europa anunciou planos para se livrar da energia russa. Mas, em grande medida, esta é uma missão de tolos. Como o mundo aprendeu durante o embargo de petróleo árabe de 1973, não importa realmente quem embarga quem em um mercado global integrado de energia. O que conta é quanto da oferta mundial de petróleo o agressor pode sustentar. Se essa participação for significativa, a energia ficará mais cara para todos.

Se a Rússia vai continuar agressiva e perigosa, a estratégia deveria ser reduzir ao máximo sua participação no mercado global de energia. Mas pode-se fazer isso? Quais países se beneficiariam de tal estratégia e, portanto, ajudariam a fazê-la acontecer? E o esforço pode ser compatível com as metas de descarbonização?

As respostas a essas perguntas podem ser um tanto surpreendentes. Certamente, a UE e o G7 obteriam benefícios de segurança ao ajudar a reduzir a participação da Rússia no mercado global de energia. Eles podem fazer isso restringindo o acesso da Rússia ao financiamento internacional e à tecnologia de produção de petróleo e impondo um imposto sobre a energia russa para limitar o acesso do país ao mercado.

Mas a OPEP também tem a ganhar com essa estratégia. Em dezembro de 2016, quando os preços do petróleo estavam baixos, a Rússia fez uma aliança com a OPEP para reduzir a produção e sustentar os preços em uma estrutura mais ampla conhecida como OPEP+. O acordo funcionou a favor da Rússia. Em 2019, a OPEP havia cortado a produção em 2.3 milhões de barris por dia (com a Arábia Saudita reduzindo a produção em 573.000 barris por dia), mas a Rússia aumentou a produção em 337.000 barris por dia.

Para a Opep, uma aliança com a Rússia não faz mais sentido. Em vez disso, a OPEP tem um incentivo para enfraquecer um importante concorrente que  abocanhou a participação de mercado de  seus membros nos últimos 25 anos. Afinal, a maior parte da produção da OPEP está em países com  grandes reservas. Se o mundo se descarbonizar, essas reservas permanecerão no subsolo após 2050. Assim, os produtores estão competindo para monetizar suas reservas em vez de deixá-las ociosas. Quanto mais a Rússia for restringida, mais petróleo os membros da OPEP poderão vender.

A mesma lógica vale para os EUA. O país é dotado de muitas reservas conhecidas de petróleo e gás, que têm um preço de equilíbrio inferior a US$ 60 por barril. Além disso, o gás natural nos EUA atualmente é negociado a cerca de US$ 5.50 por milhão de unidades térmicas britânicas – uma pequena fração dos preços na Europa, justificando grandes investimentos em trens de gás natural liquefeito para exportar a produção para a Europa e outros lugares.

Do ponto de vista ambiental, os projetos de petróleo e gás dos EUA têm a vantagem de serem rápidos de executar e encerrar. Um poço de petróleo bruto ou gás produz mais de 85% de sua capacidade nos primeiros dois anos, enquanto campos de petróleo tradicionais podem levar até uma década para se desenvolver e depois funcionar por décadas, até o período em que o mundo deveria estar se aproximando do net zero. Assim, uma explosão na produção de petróleo dos EUA com o objetivo de reduzir a participação da Rússia no mercado global não precisa durar muito.

Energia limpa

Finalmente, o movimento ambientalista pode juntar-se ao esforço. A descarbonização exige o corte da produção global de petróleo. O petróleo russo é mais pesado que a maioria dos petróleos da OPEP ou dos EUA, o que significa que gera mais dióxido de carbono por unidade de energia. Também é azedo, o que significa que contém muito enxofre, um desagradável contaminante.

Reduzir a produção de petróleo da Rússia pode, portanto, ser uma boa maneira de reduzir as emissões globais,  mantendo o mundo adequadamente abastecido com energia até que alternativas mais limpas sejam desenvolvidas.

A China provavelmente se oporá a essa estratégia. Mas em 2019, comprou apenas 2.4% de seu gás natural, 14% de seu carvão, 18.4% de seu petróleo bruto e 13.4% de seus produtos refinados da Rússia. Seguir uma agenda não cooperativa com seus principais fornecedores de energia não é, portanto, uma estratégia sem custos para a China. Além disso, resolver os problemas logísticos que restringem as exportações de energia da Rússia para a China será demorado e caro, proporcionando aos produtores russos apenas uma trégua parcial.

O mundo ficará melhor se a Rússia for atingida. A formação de uma coalizão internacional para fazer isso é facilitada pelo incentivo compartilhado para digerir o petróleo da Rússia. A Opep precisará reconsiderar seu relacionamento com a Rússia e com os países consumidores de petróleo, necessários para reduzir a produção russa. O G7 e o resto da UE também precisarão se engajar em novas ideias. Mas os incentivos podem ser alinhados. E o resultado pode ser um mundo mais seguro.

Ricardo Hausmann, ex-Ministro de Planejamento da Venezuela e ex-Economista-Chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento, é Professor da Escola de Governo John F. Kennedy de Harvard e Diretor do Laboratório de Crescimento de Harvard.

 Direitos Autorais: Project Syndicate, 2022. www.project-syndicate.org

Tradução de Anna Maria Dalle Luche