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A mente que apoia o totalitarismo

A Imaginação Totalitária
Autor: Francisco Razzo. Editora: Record. 336 páginas.

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Joel Pinheiro da Fonseca

Em tempos de crescente polarização ideológica, quando todo mundo sente a mais plena convicção de suas crenças, A Imaginação Totalitária, primeiro livro do filósofo Francisco Razzo, surge como um alerta bem-vindo. Razzo pertence à nova leva de autores de direita do mercado editorial brasileiro. Mas isso não faz com que se deixe levar pela superficialidade ou por slogans. Mais do que defender uma posição política, ele desconstrói a crença na política como maneira de salvar a sociedade.

A primeira preocupação de Razzo é deixar claro o que seu livro não é. Ele não é, em primeiro lugar, um tratado de filosofia política convencional. Sua preocupação não é descrever formas de governo, estabelecer a estrutura de um governo totalitário ou indicar as instituições necessárias para que esse tipo particularmente destrutivo de organização política não surja. Não é, tampouco, um estudo histórico. Não veremos, nessas páginas, a narrativa de como nações como Alemanha, Itália ou Rússia abandonaram suas formas anteriores de governo e tornaram-se palco de regimes totalitários.

O objeto do livro é ao mesmo tempo mais próximo e mais elusivo: qual o tipo de configuração mental que permite o surgimento e a manutenção do totalitarismo? A pergunta não é descabida. Se considerarmos que as instituições humanas são o produto das mentes dos cidadãos, e que o Estado totalitário é uma forma particularmente extremada e violenta de arranjo político, importa saber qual é o tipo de psicologia que subjaz sua existência. Com uma vasta gama de autores, incluindo pensadores pouco usuais na filosofia brasileira, como William James, Isaiah Berlin e Henri Bergson, o livro se coloca no campo da fenomenologia, ora descrevendo, ora reproduzindo o que é a imaginação totalitária e quais suas consequências na esfera social.

E no que diz respeito a um elemento psíquico fundamental para que um regime totalitário possa vingar, Razzo parece estar coberto de razão: a adesão total a uma verdade considerada inquestionável, óbvia e boa para todos. O indivíduo tomado por essa certeza não terá limites na sua tentativa de impor no mundo real seu modelo idealizado de bem comum. E, para que ele chegue a esse estado, é preciso que considere possuir um entendimento bastante completo sobre a realidade humana e social. Não há espaço para relativizações, para a possibilidade de estar errado ou para nenhum tipo de transcendência sincera, que coloque um limite às suas aspirações. Quando chega a esse ponto, o indivíduo devota todas as suas esperanças na política – que é a instância que pode efetivamente instaurar sua visão perfeita de mundo –, e eliminar todos aqueles que se opõem a seu projeto será um passo lógico e inevitável.

O livro adota um ponto de vista saudavelmente não-racionalista, o que é um problema em muitas obras de filosofia política. Muitos livros supõem que o ser humano seja um agente racional, que suas crenças sejam guiadas por evidências e seu posicionamento político pelos melhores argumentos disponíveis. E não é que a racionalidade não tenha papel nenhum na vida humana, mas parece bastante claro que, sobretudo na esfera da política, outras variáveis falam mais alto: mitos, espírito de manada, forças primais que continuam a operar sob a fina camada de racionalidade que captura nossa atenção. Aqui, não. Razzo tem claro que a concepção filosófica do indivíduo é determinada por seus temperamentos, e que o imaginário tem um papel mais determinante nas forças políticas que regem a sociedade do que “o ordenamento prudente da razão”.

Há, contudo, uma segunda linha argumentativa, paralela à principal. Por vezes, próprio temperamento de Razzo irrompe e nos empurra uma visão de mundo particular. As condições psicológicas para a emergência do totalitarismo são abertas o bastante para permitir que esse mesmo tipo de fenômeno se dê em visões de mundo muito diferentes. Na esquerda ou na direita, ocidental ou oriental, cientificista ou místico, o totalitarismo é antes uma forma mental que pode moldar diversos conteúdos. Essa percepção é o ponto forte do livro. Ela é, contudo, enfraquecida pela defesa insistente que Razzo faz de que certas crenças estão imunes à tentação totalitária – mais especificamente a religião cristã.

Ainda no início do livro, Razzo relata um caso pessoal que evidentemente deixou marcas profundas no autor. Ainda jovem e ateu, com pretensões de se tornar um grande cético e cientista – como é normal em tantos adolescentes – ele recomendou a um amigo desesperado que a namorada dele fizesse o aborto de uma gravidez indesejada. Para o autor, ele estaria aí sendo vítima da imaginação totalitária, ao passo que, mais velho, com uma visão cristã do mundo e aberto à imperfeição humana, já a superou.

A discussão do aborto aparece como uma mudança de assunto indevida, logo no início da obra. E ficamos sem saber: a defesa do aborto é necessariamente totalitária? Então mesmo o ethos liberal do mundo contemporâneo, marcado por um certo relativismo e postura de deixar cada um viver de acordo com suas preferências, inclusive na sexualidade e na reprodução, seria uma forma de totalitarismo? Se o conceito tiver alguma valia, isso sem dúvida não procede. Vale lembrar também que ditaduras verdadeiramente totalitárias como a de Ceausescu, na Romênia, proibiam o aborto, submetendo todas as mulheres ao imperativo da reprodução pelo bem da pátria. Enfim, é um ponto menor do livro, mas que reflete essa tendência de Razzo em confundir a estrutura formal que ele tão bem descreve e analisa com conteúdos particulares aos quais ele se apega (em particular, o cristianismo conservador como um antídoto ao totalitarismo), e nesse caso o resultado é menos feliz.

A história não nos deixa mentir: o cristianismo é um meio tão propício ao ímpeto totalitário descrito por Razzo como qualquer outra crença. Tanto quanto, diga-se de passagem, o cientificismo positivista que ele toma – de maneira algo inverossímil – como o grande protótipo do totalitarismo moderno. Em alguns momentos, sucumbe à tentação de adjetivar negativamente aquelas crenças ou posicionamentos cuja maldade lhe parece evidente mas que ele não é capaz de mostrar ao leitor imparcial. Nesses momentos, mais do que qualquer expressão madura de ceticismo cientificista ou de humanismo individualista, o interlocutor de Razzo parece ser sua versão adolescente da qual ele hoje se distancia tanto.

Temos, em suma, um ensaio enriquecedor sobre um tipo de mentalidade que julgamos ter banido para sempre, mas que sempre pode voltar sob novos disfarces. Seja na militância da esquerda identitária ou na da direita conservadora, a tendência de ter na política a grande esperança de redenção da humanidade não deve nos encontrar despreparados.

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