Economia

Mesmo após pandemia, América Latina não consegue reverter dívidas públicas

Levantamento com dados do FMI mostra que 16 dos 21 países da região têm dívida maior que no pré-Covid

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 08h22.

A maior parte dos países da América Latina e do Caribe ainda não conseguiu reverter o aumento da dívida pública registrado durante a pandemia.

Um levantamento do GLOBO com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que, entre os 21 países membros do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), 16 mantêm hoje uma relação dívida bruta/PIB superior à observada antes da crise sanitária. Apenas quatro países apresentam endividamento abaixo de 50% do PIB.

Segundo Marco Oviedo, estrategista da XP, a pandemia deixou um legado fiscal mais amplo do que o crescimento do estoque da dívida. De acordo com ele, o problema envolve também o custo do endividamento, pressionado por juros globais mais altos e maior incerteza sobre sua trajetória.

"Não é só o nível da dívida, mas o custo do serviço, dado o aumento das taxas globais de juros e a maior volatilidade do cenário macroeconômico", afirmou.

Brasil aparece entre os quadros fiscais mais delicados da região

O Brasil está entre os casos mais complexos da América Latina. Pela metodologia do FMI, a dívida bruta brasileira está próxima de 90% do PIB e deve continuar crescendo ao longo dos próximos anos, com projeção de estabilização em torno de 98% do PIB ao fim da década.

"A fotografia fiscal do Brasil é de fato ruim, uma das piores da região. A Argentina tem um nível de dívida parecido, mas apresenta um discurso mais consistente de ajuste fiscal e redução do endividamento. Colômbia e Uruguai têm resultados primários negativos, mas partem de níveis de dívida bem mais baixos", avalia Andrea Damico, da consultoria Buysidebrazil.

Apesar da melhora recente dos indicadores argentinos sob o governo de Javier Milei, Oviedo pondera que o quadro da Argentina segue frágil. Para ele, ainda há dúvidas sobre a permanência do ajuste fiscal, diante do histórico do país e da ausência de regras fiscais sólidas.

Além disso, o acesso limitado aos mercados de capitais e a composição da dívida aumentam os riscos. Parte relevante dos passivos argentinos está denominada em moeda estrangeira ou indexada à inflação e ao câmbio, o que amplia a vulnerabilidade fiscal.

"Uma dívida de 80% do PIB não é igual a outra de 80% do PIB. Importa se ela é doméstica, de longo prazo e em moeda local, ou se é dolarizada, indexada e concentrada no setor público", explica o estrategista da XP.

Colômbia, Chile, México e Peru: cenários distintos

Outro ponto de atenção é a Colômbia, onde a adoção de uma política fiscal mais expansionista desorganizou o déficit público. Segundo Oviedo, a estabilização da dívida exigirá uma mudança relevante de rumo, cuja credibilidade será decisiva para o mercado.

No Chile, o cenário é considerado mais equilibrado. Embora o país também enfrente desafios fiscais, o arcabouço institucional é visto como uma âncora relevante para a política econômica, o que sustenta expectativas de maior previsibilidade no médio prazo.

Já no México, avaliação do Itaú Unibanco aponta que a dívida pública se encontra em um patamar desconfortável, mas ainda não crítico, com ajustes em curso principalmente via aumento de arrecadação. No Peru, o processo de consolidação fiscal é favorecido pela alta dos preços dos metais, que sustenta as receitas públicas.

*Com informações do O Globo

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