Investimento com maior retorno hoje é a vacina, diz presidente do Banrisul

Morosidade da vacinação pode levar a gastos ainda maiores com auxílio emergencial, o que agravaria o risco de dominância fiscal que o país já sofre

Após mais de dois meses da aplicação da primeira dose da vacina contra o coronavírus no Brasil, o país não vacinou nem 3% da população com a segunda dose do imunizante. Somado a isso, a ausência de um auxílio emergencial que permite às pessoas ficarem em casa e a falta de coordenação nacional na implementação de medidas restritivas fez os casos de covid-19 dispararem no país - que hoje deve bater a marca de 300 mil mortos pela doença.

Para o ex-diretor de crédito, finanças e internacional do Banco Nacional de Desenvolvimento, Cláudio Coutinho, dada essa situação calamitosa, o melhor investimento possível no Brasil, com a maior taxa de retorno, são as vacinas.

"Só as vacinas vão restaurar a economia, as contas públicas, catapultar o PIB, retomar a confiança... Se não acontecer, vamos precisar de mais dinheiro para socorros emergenciais, o que deteriora o nosso cenário fiscal. O governo deveria pensar em vacina antes de qualquer coisa", disse o economista, que atualmente dirige o Banrisul, em entrevista à Exame.

Coutinho acredita que, caso não acelere a vacinação e continue em uma trajetória de alta da dívida e da inflação, o Brasil corre um sério risco de entrar em dominância fiscal - quando a política monetária perde força como instrumento de controle da inflação.

"Em relação a esse desajuste, o BC já estava um pouco atrás da curva, inclusive já deveria ter subido os juros antes", disse o economista, avaliando como "acertado" o início do ciclo altista iniciado pelo Copom na última semana. "O BC ainda tem capacidade de manter a rédea se realmente fizer uma politica de aumento de juros. Ainda é possível reancorar, sim. Ainda há autoridade para isso."

Destacando o cenário internacional de juros muito baixo ou negativo, Coutinho lembra que atualmente existe um excesso de capital pouco remunerado pelo mundo afora, e que o Brasil poderia atrair esses investimentos com uma combinação de abertura da economia e demonstração de responsabilidade fiscal e segurança jurídica. "Temos que liderar o crescimento pela infraestrutura", disse ele.

Confira a entrevista completa abaixo:

EXAME: Em janeiro o Secretário do Tesouro, Mansueto, disse que o RS poderia aderir ao RRF sem a privatização do Banrisul, porque as reformas aprovadas já foram suficientes. O Banrisul está oficialmente fora do radar de privatizações?

Cláudio Coutinho: O governo do RS fez um grande trabalho de reestruturação das contas públicas, uma reforma da previdência, uma reforma administrativa, além de um complemento da reforma previdenciária que alcança os militares... Isso fez com que a folha de pagamento, atrasada há 57 meses, voltasse a ser pagada em dia. Portanto, a decisão de retirar a exigência de privatização do Banrisul faz sentido. Mas a decisão de privatizar ou não é do estado, dos deputados e ou do governador. Está na constituição estadual do RS que, para privatizar o banco, precisa de um plebiscito. No início havia uma postura clara de não privatização, hoje a postura é um pouco diferente, e depende muito da assembleia.

Diferente como? Por quê?

Agora é diferente no sentido de que antes se cobrava uma iniciativa do governador para privatizar. E hoje, se existir uma iniciativa, vai partir da assembleia, que tem competência sobre isso. Poderá estar no radar se a constituição for alterada.

Em Brasília, houve sinalizações em relação à privatização dos Correios e da Eletrobrás, mas há muita desconfiança se esses processos vão andar, de fato. Qual sua visão sobre a agenda de privatizações do governo Bolsonaro?

Eu fui diretor das áreas Financeira, de Crédito e Internacional do BNDES entre 2016 e 2017. Nesse ano, recebemos o então presidente da Eletrobras, e ele já tinha um plano de privatização. Cinco anos se passaram, estamos em 2021 e eu acho desanimador que um projeto que já estava desenhado... Cinco anos depois você ainda está me perguntando isso. Mostra o quanto estamos longe de ter uma determinação de fazer isso andar. Só de existir essa discussão significa que não é para valer.

Como você enxerga a recente alta da taxa Selic, que deve continuar subindo, e os impactos na inflação e no câmbio?

Estamos em um momento muito delicado e arriscado, no limiar de perder a ancoragem das expectativas. Por isso eu acho acertado que o BC tenha referendado as sinalizações do mercado, para reancorar as expectativas. Mas, para além disso, estamos em uma situação de risco de dominância fiscal, que é quando a politica monetária perde o efeito - aí você sobe os juros e dispara a inflação, ou abaixa os juros e joga lenha na inflação. Em relação a esse desajuste, o BC já estava um pouco atrás da curva, inclusive já deveria ter subido os juros antes.

O BC ainda tem capacidade de reverter esse processo?

Do meu ponto de vista, o BC ainda tem capacidade de manter a rédea se realmente fizer uma politica de aumento de juros. Sem isso e com uma execução fiscal ruim, ao final do ano já podemos ter uma situação em que o mercado ignore a politica monetária e não queira ficar sensível à taxa de juros. Mas ainda é possível reancorar, sim. Ainda há autoridade para isso.

Para além de juros, câmbio e inflação, a vacinação é a principal variável econômica desse ano. Você arrisca uma projeção?

O melhor investimento hoje, que vai render mais para o Brasil, são as vacinas. É ela que vai restaurar a economia, as contas públicas, catapultar o PIB, retomar a confiança... Se não acontecer, vamos precisar de mais dinheiro para socorros emergenciais, o que deteriora o nosso cenário fiscal. O governo deveria pensar em vacina antes de qualquer coisa. E os números não são altos em termos macroeconômicos. 400 milhões de doses a 10 dólares totalizam, são 4 bilhões de dólares, ou 22 bilhões de reais [o equivalente à metade do que foi gasto com a nova rodada do auxílio emergencial]. Isso não é dinheiro grande para um país. Sem o investimento nas vacinas, o governo vai ter que gastar muito mais em auxilio emergencial.

A nova rodada do auxílio emergencial tem valores bem menores que no ano passado, e deve durar menos tempo. Qual a sua avaliação do programa?

No ano passado, de certa forma, o Brasil errou na medida. Em algumas cidades do nordeste houve crescimento real de renda, o que mostra que o auxílio foi um pouco além do necessário para restituir a renda perdida. Isso até explica porque o PIB caiu menos que nossos pares pelo mundo. Porque foi um programa emergencial muito robusto. Poderíamos ter feito algo menor e guardado mais bala para esse ano. Talvez aprendeu-se a lição e agora estamos fazendo algo mais modesto. Mas não podemos continuar com déficits nominais tão grandes, sob pena que chegar à dominância fiscal. Precisamos de parcimônia, pois não se pode perder de vista a solvência fiscal de médio prazo. Isso seria péssimo para todos.

Nessa discussão do auxílio e do teto, fala-se muito sobre a relação dívida X PIB. A dívida, dado a pandemia, só aumenta, enquanto o PIB não anima muito. Como você acha que podemos evoluir dessa situação?

Não tem outro jeito se não a abertura ao mercado. Privatizar, mostrar responsabilidade fiscal, chamar o setor privado para investir infraestrutura... Dinheiro não falta no mundo. Temos excesso de capitais sendo remunerados a taxas negativas... Temos que liderar o crescimento pela infraestrutura. Mas com muito respeito a contratos, muita segurança jurídica. E aí episódios como encampação da linha amarela, a decisão do Fachin que revoga um entendimento de 5 anos... O investidor fica sem saber como funciona o jogo. Se tiver esse combo de abertura, responsabilidade e segurança jurídica, o investimento vem. Em 2016, cheguei a participar de reuniões do BNDES com mais de trinta estrangeiros querendo saber como investir no Brasil.

Na sua avaliação, como a volta do Lula ao jogo político interfere na economia?

Eu não tenho a menor preocupação em relação ao Lula. Minha preocupação nesse episódio é a insegurança jurídica. Tínhamos várias decisões em um sentido, e agora tem outro. Como explica isso para o investidor estrangeiro? Essa é a minha preocupação. Mesmo porque o Lula fez um governo totalmente market friendly, sem ser hostil ao capital em momento algum.


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