Governo registrou aumento de 22% em pedidos de seguro-desemprego em abril

Em meio à pandemia do novo coronavírus, nível de emprego caiu para o menor patamar para o mês desde 2008, aponta FGV
Fila de desempregados em São Paulo: o Ministério da Economia divulgou que recebeu 784 mil pedidos de seguro-desemprego em abril (Rovena Rosa//Agência Brasil)
Fila de desempregados em São Paulo: o Ministério da Economia divulgou que recebeu 784 mil pedidos de seguro-desemprego em abril (Rovena Rosa//Agência Brasil)
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Agência O Globo

Publicado em 11/05/2020 às 17:07.

Última atualização em 11/05/2020 às 17:08.

O Ministério da Economia divulgou nesta segunda-feira que recebeu 784 mil pedidos de seguro-desemprego em abril, um aumento de 22,1% em comparação com o mesmo mês de 2019, quando foram 613 mil pedidos. No acumulado do ano, já são 2,3 milhões de pedidos.

O número representa também um aumento de 39,4% em relação a março, quando houve 536.845 pedidos. Na época da divulgação, o governo estimava que o seguro-desemprego tinha 200 mil pedidos represados, de desempregados que ainda não tinham solicitado o benefício.

Nessa comparação, o Ministério afirmou que o aumento pode indicar "que a reabertura das unidades de atendimento e a retomada do atendimento presencial possibilitou que mais trabalhadores acessassem o benefício".

Nesta segunda-feira, o secretário de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos da Costa, afirmou que 6,2 milhões de pessoas aderiram à medida provisória que permite a redução de salário e a suspensão do contrato de trabalho.

A MP foi editada em 1º de abril para evitar demissões durante a crise. Os trabalhadores que forem prejudicados com corte de salário e suspensão do contrato receberão um complemento do seguro desemprego durante a adoção dos dois mecanismos. A redução de jornada e salário tem vigência de até três meses e de suspensão do contrato, de até dois meses.

Emprego no menor patamar desde 2008

Os efeitos da pandemia do novo coronavírus na economia brasileira devem chegar de modo mais rápido no emprego e na renda dos brasileiros, segundo dados divulgados pela FGV nesta segunda-feira. O Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp), que monitora os rumos do mercado de trabalho no Brasil, despencou de 82,6 pontos, em março, para 39,7 pontos, em abril. É o menor nível desde 2008, quando iniciou a série histórica da pesquisa.

O levantamento é feito com base em sondagens feitas com setores da indústria, comércio, serviço e consumidor, e busca antecipar os rumos do mercado de trabalho no país. Todos os setores avaliados tiveram queda expressiva em abril, segundo a FGV.

De acordo com Rodolpho Tobler, economista da FGV/Ibre, os impactos da pandemia do novo coronavírus se mostram cada vez mais fortes na economia brasileira. Isso pode significar duas coisas: que o nível de contratação está baixo ou que o número de dispensas está aumentando, ampliando o desemprego no país.

-É uma questão antecedente, de expectativa, mostra o aumento da incerteza de consumidores e empresários diante dos efeitos da pandemia no mercado de trabalho - explica Tobler - Os dados sugerem uma piora mais concentrada a partir de abril, já que em março começamos a ver uma piora das ocupações.

Há uma relação positiva entre os movimentos do IAEmp e dados do mercado formal brasileiro, registrados em pesquisas como o Caged, do Ministério da Economia, e Pnad Contínua, do IBGE. Por isso, é esperada uma piora relacionada ao emprego nas próximas divulgações da Pnad, prevista para ser publicada no próximo dia 29.

Em março, os efeitos da pandemia já começaram a aparecer no mercado de trabalho, mesmo com um pequeno pedaço da amostra referente aos dias já sob políticas de isolamento social. A população ocupada terminou o trimestre encerrado em março com a maior retração desde 2012, início da série da pesquisa.

Para os próximos meses, a tendência é de uma estabilização do indicador de mercado de trabalho em patamares baixos, uma vez que, segundo Tobler, inexistem sinais de recuperação e a possibilidade de retomada não será na mesma velocidade da queda. As mudanças no perfil de consumo também devem prejudicar a melhora do indicador.

- O consumo não vai voltar tão rápido, haverá cautela das pessoas. Elas vão deixar de viajar, deixar de ir em locais aglomerados e não vão compensar esse gasto em outro momento. Esses setores terão impacto negativos na retomada - ressalta.

‘Apagão estatístico’

Os dados do IAEmp, da FGV, servem para mapear uma tendência do que está acontecendo no mercado de trabalho. Economistas e entidades representativas do setor produtivo vem enfrentando dificuldades para prever o impacto da crise no mercado de trabalho e no consumo das famílias e planejar ações contra a crise. Para alguns especialistas, o país vive um "apagão estatístico."

Desde janeiro, o Ministério da Economia não divulga os dados do Caged, que monitora os vínculos formais do mercado de trabalho em todos os municípios do país. A Pnad Contínua, nos moldes antigos, tem divulgação incerta para abril, diante do baixo nível de resposta obtido pelos entrevistadores do IBGE.

Já os dados de seguro desemprego, divulgados no fim de abril pela equipe econômica, estão subestimados, como o próprio governo admitiu ao apresentá-los.

Na tentativa de evitar um “apagão estatístico” e dar respostas mais rápidas durante a pandemia, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) precisou recorrer a empresas privadas para levantar os efeitos da pandemia no setor.

Outras possibilidades, como a elaboração de um indicador mensal de emprego a partir dos microdados da Pnad, também estão em estudo por economistas e institutos de pesquisa.

Na última semana, o IBGE lançou a Pnad Covid, versão telefônica da Pnad Contínua, pesquisa que analisa as condições do mercado de trabalho. Cerca de 193 mil domicílios irão responder questões de saúde e sobre prática de home office, os motivos que impediram a busca por emprego e os rendimentos obtidos pelas famílias.

A ideia é que dados semanais sejam divulgados nos próximos dias, a fim de retratar de modo mais ágil a realidade da economia brasileira.

- Essa pesquisa nasce da necessidade de obter informações mais rápidas sobre o impacto da pandemia no mercado de trabalho e na saúde - explica Maria Lúcia Vieira, coordenadora da Pnad Covid.