Fernando Haddad: “Se a oposição quiser bater bumbo disso, be my guest” ((Diogo Zacarias/MF)/Divulgação)
Repórter
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 12h25.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a economia deixou de ser o fator central na definição dos resultados eleitorais e não deve, sozinha, decidir as próximas eleições presidenciais, no Brasil e no exterior.
A avaliação foi feita em entrevista ao UOL, na qual o ministro também fez um balanço de sua gestão e comentou o debate político e fiscal no país.
"Fico muito feliz de ser lembrado como o único ministro dos últimos 30 anos que taxou bets, offshores, dividendos", disse Haddad, ao ser perguntado sobre o apelido 'Taxad'.
O ministro afirmou ver com naturalidade as críticas da oposição às medidas aprovadas durante sua gestão que ampliaram a tributação sobre setores de alta renda. Segundo ele, a oposição está correta ao afirmar que sua gestão aprovou medidas que atingem bancos, bets e bilionários, os chamados “BBB”.
Para Haddad, se o tema for explorado politicamente, não há problema. “Se a oposição quiser bater bumbo disso, be my guest”, afirmou,
Haddad reconheceu que a situação econômica continua entre as preocupações da população, mas disse que ela não tem sido decisiva nas disputas políticas recentes. “A economia no mundo inteiro está sendo um elemento muito importante, mas não necessariamente decisivo para ganhar ou perder uma eleição”, afirmou.
Segundo o ministro, pesquisas de opinião indicam uma mudança no ranking das principais angústias dos eleitores. Ele citou a última pesquisa Datafolha, na qual apenas 11% dos entrevistados apontaram a economia como o principal problema do país. Outros temas, como segurança pública, ganharam espaço.
"Não acredito que a economia vá derrotar o governo, pode ser que não eleja; economia é importante mas não tem sido decisiva", disse.
Para ele, o cenário de polarização intensifica esse movimento. “A fase de extremismos deixa as pessoas suscetíveis à notícia do dia; isso deixa os candidatos inflamados”, afirmou.
O ministro também avaliou que grupos de extrema-direita conseguem apoio sem necessariamente se apoiar em propostas econômicas. Segundo Haddad, há uma estratégia de mobilização baseada em temas que não dialogam diretamente com o cotidiano das pessoas.
Questionado sobre uma eventual candidatura ao governo de São Paulo, Haddad afirmou que já deixou claro que não pretende disputar o cargo. Segundo ele, o tema foi tratado em conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas sem definições.
“Já disse que não pretendia me candidatar, conversei com Lula, nossa relação transborda a relação política”, afirmou. Haddad disse ainda que levou suas ponderações ao presidente e que o assunto será aprofundado em novas conversas, até que se chegue a um consenso.
Ao fazer um balanço de sua atuação no Ministério da Fazenda, Haddad afirmou que o resultado do trabalho ficou muito próximo do plano apresentado a Lula ainda em 2022, antes de assumir o cargo. Segundo ele, o convite só foi aceito após a concordância do presidente com as diretrizes propostas.
Haddad disse que, apesar de vitórias e derrotas ao longo do caminho, o que foi implementado correspondeu ao que ele avaliava ser possível.
No campo fiscal, Haddad destacou a redução do déficit primário nos últimos dois anos. Segundo o ministro, o déficit do ano passado, considerando todas as exceções, foi de 0,47% do Produto Interno Bruto (PIB), o que representaria uma redução de cerca de 70% do déficit primário no período.
Ele afirmou que o debate sobre a dívida pública precisa ser feito com base em dados e não em percepções. Para Haddad, o principal problema da dívida está relacionado ao juro real, e não ao déficit, que, segundo ele, está em trajetória de queda.
“Falta honestidade com números nas críticas do mercado sobre o governo ter aumentado a dívida pública”, disse. “Uma coisa é a percepção, a ideologia, a visão de mundo; outra coisa muito diferente são os números”, completou.
O ministro afirmou estar disposto a debater o tema publicamente. Segundo ele, está disponível para conversar com qualquer ex-ministro da Fazenda sobre as contas públicas, de qualquer período, para discutir os dados de forma objetiva.
Haddad também citou indicadores sociais ao avaliar os resultados da política econômica. Segundo ele, um dos parâmetros que costuma observar é o poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica.
De acordo com o ministro, houve recuperação do salário mínimo nos últimos anos, movimento que ele associa a medidas aprovadas pelo governo. Haddad afirmou ainda que diversas leis foram aprovadas nos últimos três anos com foco em beneficiar os trabalhadores, reforçando a agenda social da atual gestão.
Haddad afirmou ainda que o principal desafio do Brasil hoje é definir uma agenda clara de desenvolvimento diante da nova configuração da geopolítica internacional.
Segundo o ministro, esse debate exige visão estratégica sobre o papel do país no mundo, algo que, em sua avaliação, falta aos adversários políticos [do presidente Lula].
Para ele, parte da oposição não acompanha as transformações globais e apresenta propostas limitadas, centradas em privatizações e no congelamento do salário mínimo, sem capacidade de responder aos desafios internacionais colocados ao Brasil.
Nesse contexto, Haddad disse ver no presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma atuação mais alinhada com o cenário global.
Segundo o ministro, Lula tem buscado ampliar a inserção internacional do país por meio do fortalecimento do multilateralismo, como na aproximação com a União Europeia, e não quer o Brasil “anexado” a um único bloco.
Haddad acrescentou que o presidente Lula tem buscado uma atuação ativa nesse novo cenário internacional, inclusive no diálogo com os Estados Unidos.
Segundo o ministro, Lula tem proposto ao presidente Donald Trump parcerias que sejam benéficas para os dois países, com abertura para negociações voltadas à integração de cadeias produtivas e a projetos conjuntos em áreas como tecnologia, biocombustíveis e terras raras.