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"Falta um sonho ao país", afirma o economista Gustavo Franco

Estrategista-chefe da gestora Rio Bravo comemora a aprovação da PEC do Teto dos gastos, mas diz que o Brasil precisa ir além
 (Claudio Gatti)
(Claudio Gatti)
Por Lucas AmorimPublicado em 14/12/2016 13:45 | Última atualização em 14/12/2016 13:45Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Entrevista publicada originalmente em EXAME Hoje, app disponível na App Store e no Google Play.

O economista Gustavo Franco, estrategista-chefe da gestora Rio Bravo, conhece como poucos a importância de boas estratégias econômicas em momentos de crise como o atual. Entre 1993 e 1999, foi secretário de política econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Banco Central, onde ajudou a formular o Plano Real e a conter uma hiperinflação que chegava a 2.500% ao ano. Agora, Franco comemora a aprovação da PEC do Teto dos gastos, confirmada nessa terça-feira, mas diz que o Brasil precisa ir além. “O sonho precisa ser mais bem definido – e divulgado”, diz. Franco concedeu a seguinte entrevista a EXAME Hoje.

A aprovação da PEC do Teto é uma vitória do governo?
É, mas é preciso ir além. Minha referência é 1993, quando houve um modelo bem sucedido de relação da área política com a área econômica num ambiente parecido. Lá, o Itamar Franco trouxe o Fernando Henrique após alguns soluços e ele conseguiu cativar a sociedade. Ali, o sonho era vencer a inflação e aproveitar todos os horizontes que se abririam. Mas não foi fácil. Até a aprovação da URV [a moeda de transição para o Plano Real] ir pra rua, ninguém acreditava que daria certo. Lá, primeiro conquistamos a opinião econômica bem informada. A partir daí, a economia adquiriu uma dinâmica própria, afastada da turbulência política. É o que falta acontecer.

O que precisa ser feito?
A equipe econômica de hoje é muito boa, mas precisa se assumir como um ativo decisivo para o governo. O teto dos gastos está para o governo Temer como a DRU [Desvinculação de Receitas da União] estava para o Itamar. São marcos importantes, mas só isso. Teto e Previdência não são a bala de prata do governo, como muita gente pensa. São só questões constitucionais, mas estão longe de ser a política econômica na prática. Onde estão, por exemplo, as propostas para atacar o aparelhamento das agências reguladoras?

O problema está na falta de uma estratégia econômica, ou na comunicação falha?
Nas duas coisas. A vendagem não tem sido boa. O problema que nos levou a aprovar a PEC do Teto é o mesmo da corrupção – mal uso do dinheiro público. As medidas de saneamento precisam ser encaradas como a décima primeira medida de combate à corrupção. As medidas fiscais, no fim das contas, respondem às mesmas demandas feitas pelas ruas, não são uma agenda de maldade. São anti-privilégios, anti-estado parasita. Mas precisam ser vendidas como tal. E o Meirelles [ministro da Fazenda] é quem tem essa responsabilidade. O sonho precisa ser mais bem definido – e divulgado.

O discurso de que o governo tinha tempo limitado e, portanto, precisava definir prioridades, não é adequado?
O governo precisa ser ambicioso, tem que se esforçar para salvar o Brasil e definir um rumo para o país. Não existe ser presidente pela metade. Não é uma ponte: o governo é esse. A falta de um plano já está, há três semanas, sendo cobrada pelo mercado. A desilusão veio muito rapidamente.

Pelo visto o senhor está pessimista com 2017...
Estou tentando ficar neutro, mas tenho dificuldades. O que me frustra é que a cada 10 anos lutamos a mesma batalha – pelo equilíbrio dos gastos, pela sustentabilidade fiscal. A boa notícia é que a cada novo ciclo há avanços. Em 2017, o foco vai ser na previdência, e o governo vai precisar entrar de corpo inteiro na vendagem do sonho. Pode ser que funcione. O importante é afastar os projetos econômicos dos distúrbios políticos.

Mas nos ciclos anteriores não havia o encalço da Lava-Jato.
A Lava-Jato só está entrando no noticiário econômico porque não há boas notícias para divulgar. As investigações têm que ficar restritas às páginas políticas e policiais. O que precisamos entender é que a Lava-Jato é para sempre, é um novo padrão de moralidade na política. Como será o ambiente político sem toda essa corrupção com a qual nos acostumamos é uma novidade muito interessante a se observar a partir de 2018.