Ex-ministros: meio ambiente definirá PIB do Brasil nos próximos 20 anos

País tem seis meses para decidir se fará parte da nova economia, diz grupo que reúne Armínio Fraga, Henrique Meirelles, Ilan Goldfajn e Joaquim Levy

A política ambiental deixou de ser apenas um problema que empresários e economistas devem considerar em suas estratégias de negócios e seus planos econômicos. A maneira como governos e sociedades tratam o meio ambiente, a partir de agora, definirá o papel dos países na economia global. Por isso, o Brasil tem escolhas a serem feitas, nos próximos 6 meses, que terão impacto no desenvolvimento do País pelos próximos 20 anos. 

Essa foi a principal mensagem passada pelo grupo de ex-ministros e ex-presidentes do Banco Central (BC) reunido para defender a economia de baixo carbono no País. Entre eles estão os ex-ministros da Fazenda Henrique Meirelles, Joaquim Levy, Maílson da Nóbrega, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Zélia Cardoso de Melo; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; e os ex-presidentes do BC Alexandre Tombini, Armínio Fraga, Gustavo Loyola e Ilan Goldfajn (veja abaixo a lista completa).

A transição para uma economia de baixo carbono é inevitável. “Essa é a direção atual da economia mundial”, afirma Rubens Ricupero, outro ministro da Fazenda no grupo. “Se o Brasil não caminhar junto, reduzirá sua história. Corremos o risco de chegar atrasados em todos os ciclos de revolução industrial”. 

Entrar para a economia de baixo carbono é a escolha certa neste momento, embora as políticas econômica e ambiental atuais não estejam alinhadas com essa tendência global. “Estamos fazendo uma bobagem”, disse Armínio Fraga, ao comentar sobre a atuação Ministério do Meio Ambiente. “O alarme foi soado, mas não está sendo escutado”. 

Há um falso dilema entre desenvolvimento econômico e proteção ao meio ambiente, na visão de Gustavo Loyola. “Fomos levados a acreditar nisso, mas é uma falácia”, afirma o ex-presidente do BC e do BNDES. “É mesma coisa com o isolamento social na pandemia. Sempre foi possível proteger a vida das pessoas e, ao mesmo tempo, a economia”. Para Loyola, há um papel a ser desempenhado pelo BNDES nessa transição, que é o de fomentar a inovação e os empreendimentos sustentáveis. 

Antes, porém, é preciso acabar com os subsídios para as atividades de alto carbono, essencialmente os combustíveis fósseis, e zerar de uma vez o desmatamento na Amazônia, no Cerrado, na Mata Atlântica e em qualquer outro bioma. “Não fosse o desmatamento, teríamos uma pegada de carbono muito baixa”, disse Joaquim Levy. “Isso traria competitividade à nossa indústria”. 

O alerta é feito em um contexto geopolítico global de disputas e definições estratégicas. No mundo desenvolvido, a Europa vem adotando com mais ênfase ações de transição para a economia de baixo carbono. Ricupero chama atenção para o Green Deal Europeu, um conjunto de medidas anunciado no mês passado que prevê, entre outras coisas, uma taxa de carbono na fronteira. Ou seja, produtos de países com emissores terão de pagar imposto para entrar num dos mercados mais atrativos. “Nossa soja vai ficar mais cara se não agirmos”, disse o ex-ministro. 

Mesmo considerando o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, declaradamente anti-ambiental, a autonomia garantida pela constituição americana aos governos locais faz com que Estados como a Califórnia, cujo PIB é maior que o do Brasil, adotem padrões europeus de proteção ambiental. Já a China investe pesado na descarbonização da sua economia e hoje é líder global em geração de energia limpa. 

Descuido com clima pode sair mais caro que pandemia 

Hoje pela manhã, os ex-ministros divulgaram um apelo para que as diretrizes para a retomada econômica levem em consideração aspectos ambientais e sociais, sob a pena de um possível apagão dos investimentos estrangeiros no Brasil. 

Essa é a direção atual da economia mundial. Se o Brasil não caminhar junto, reduzirá sua história. Corremos o risco de chegar atrasados em todos os ciclos de revolução industrial

Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda

“Convergirmos em torno de uma agenda que nos possibilite retomar as atividades econômicas e, simultaneamente, construir uma economia mais resiliente ao lidar com os riscos climáticos e suas implicações para o Brasil. Dependendo do cenário climático que iremos encontrar, os custos de descuidar de eventos climáticos com repercussões sistêmicas poderão ser bem maiores do que os da atual pandemia”, escreveram.

Eles listaram quatro pontos essenciais para que o país insira o meio ambiente na sua política econômica: alcançar a economia de baixo carbono, zerar o desmatamento na Amazônia e no Cerrado, aumentar a resiliência climática, Impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias (veja a carta na íntegra no fim do texto).

Os potenciais efeitos calamitosos que a mudança do clima pode causar à estabilidade financeira, ressaltam, já têm levado bancos centrais e mercados financeiros a internalizar os riscos climáticos em suas análises macroeconômicas. A tendência está cada vez mais enraizada no funcionamento dos mercados de capitais.

Pressão internacional

O apelo se soma ao de empresários e investidores que pediram recentemente ações para barrar o desmatamento na Amazônia.

Há duas semanas, 29 instituições financeiras que gerenciam mais de 3,7 trilhões de dólares em ativos enviaram uma carta a nove embaixadas brasileiras dizendo que o Brasil precisa frear as queimadas, sob risco de alimentar “uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou fornecer serviços financeiros ao Brasil.”

“Nós precisamos desse capital estrangeiro e ele tem ido embora”, afirma Gustavo Pimentel, diretor da Sitawi, especializada em investimentos de impacto. “No momento em que o governo fala sobre um plano de investimentos em infraestrutura em parceria com a iniciativa privada, não pode enviar mensagens trocadas.”

Em reação aos apelos, nesta segunda-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse durante evento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que o Brasil deve avançar em iniciativas para preservar o meio ambiente, mas voltou a criticar “falsas narrativas”

“Se há excessos e há erros, corrigiremos. Não aceitaremos o desmatamento ilegal, a exploração ilegal de recursos”. Até então, Guedes vinha evitando admitir que há melhorias a serem feitas na área ambiental, culpando críticas internas e interesses protecionistas.

Em junho, o desmatamento na Amazônia bateu recorde, segundo números do sistema Deter do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Sensação de Déjà vu

Desde o seu início, o governo Bolsonaro recebe críticas da comunidade internacional pela forma que trata a questão do meio ambiente. Outro dado que depõe contra o país lá fora é relacionado a saneamento básico, já que metade dos brasileiros não tem água potável e esgoto em casa.

Além de afastar investidores, o cenário aumenta o risco de represálias de países importadores, diz o diplomata Marcílio Moreira, ex-ministro da Fazenda durante o governo Collor, a Exame:

“De modo que não basta mudar a narrativa, precisa mudar a maneira desleixada como esse tema é transmitido, tanto em termos de desmatamento como de tratamento de esgoto”, diz.

No início dos anos 90, num momento em que um dos grandes ativos do Brasil era sua recente democratização, Moreira ajudou a convencer a comunidade internacional de que o país seria a melhor opção para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, ainda em gestação pelas Nações Unidas.

O Brasil foi escolhido e recebeu os principais líderes globais no que ficou conhecido como Rio-92. Era a primeira vez que meio ambiente e desenvolvimento eram discutidos juntos pelas autoridades locais.

“Até então, esses dois assuntos eram um pouco contraditórios na prática, porque para fazer o desenvolvimento acontecer, era preciso desmatar, pensava-se. Um exemplo é a zona franca de Manaus, cujo entorno passou por um processo de degradação”, diz Moreira.

O Rio-92 só foi possível, segundo ele, depois de um trabalho de anos de convencimento do qual ele passara a participar em 1986, como embaixador nos Estados Unidos:

“Quando cheguei em Washington, éramos considerados caloteiros, porque não pagamos a dívida externa, genocidas, pois matávamos índios, incendiários, por queimar florestas e ainda por cima machistas, porque, na década de 80 houve vários casos de homens que mataram suas companheiras (o que hoje é chamado de feminicídio), eram julgados e absolvidos com o argumento de que haviam usado defesa legítima da honra”, conta.

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