Economia: Brasil precisa de um ajuste fiscal de R$ 400 bilhões em 2027 para estabilizar o patamar da dívida (Javier Ghersi/Getty Images)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 17h32.
A economia brasileira deve seguir em ritmo de desaceleração em 2026, mas riscos como o cenário da economia nos Estados Unidos, a piora da percepção fiscal pelo mercado em um ano eleitoral e a inevitável necessidade de ajuste fiscal para 2027 podem agravar o resultado.
A maioria das projeções aponta para um crescimento econômico entre 1,5% e 1,8% no próximo ano. Para 2025, a estimativa é de alta de 2,3%. O dado consolidado será divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para a inflação, analistas e instituições financeiras projetam um IPCA próximo de 4% em 2026 , abaixo do teto da meta, que é de 4,5%. A meta perseguida pelo Banco Central é de 3%.
Em relação à Selic, a expectativa do mercado é que o ciclo de queda de juros comece nesse primeiro semestre. A estimativa é que a taxa de juros cairá de 15% para até 12,25% no fim deste ano.
"O Banco Central vem praticando uma política fiscal contracionista intensa para compensar enormes impulsos fiscais que aconteceram nos primeiros dois anos do terceiro mandato do presidente Lula", afirma Samuel Pessôa, economista e pesquisador associado do FGV Ibre e do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME).
Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), os gastos federais aumentaram R$ 344 bilhões entre 2023 e o fim de 2025, alcançando R$ 2,4 trilhões no ano passado.
Em relatórios de dezembro, a IFI e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avaliaram que a política de gastos do governo Lula é insustentável.
"Nesse terceiro mandato de Lula, a dívida pública vai crescer 10% do PIB, com um crescimento médio de 2,5%. A grande preocupação é o fiscal", diz Pêssoa.
Para ele, o maior risco à economia em 2026 é interno, ligado ao desequilíbrio fiscal estrutural e aos sinais que serão dados durante as eleições.
"Existe a possibilidade de uma disputa eleitoral agressiva como a de 2014. Esse tom pode sinalizar uma deterioração fiscal ainda maior para o próximo mandato", afirma.
O economista alerta que esse cenário pode gerar fuga de capitais e forte desvalorização do real, com impacto direto na inflação.
"Se o real se desvaloriza muito, inicia-se um processo inflacionário. A inflação não será de 4,2%, mas pode chegar a 5,5%. Com desvalorização de 10%, o IPCA pode atingir até 6% ou mais", afirma.
Com o alto comprometimento financeiro das famílias e os juros elevados afetando pequenas e médias empresas, Pêssoa acredita em uma possível reversão cíclica mais intensa, com um risco de recessão econômica.
"Podemos entrar em uma recessão mais profunda com inflação. Uma recessão com preços subindo. Esse é o cenário de risco que enxergo hoje", diz.
Outro ponto de atenção vem dos Estados Unidos. Segundo Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, os efeitos da política externa do ex-presidente Donald Trump, como a guerra tarifária, devem impactar a economia americana e, por tabela, o Brasil.
"Os Estados Unidos vivem um cenário de desaceleração. Com as ações de Trump, a atividade econômica vai se ressentir. É uma economia que trará risco para todos", afirma.
Uma desaceleração mais intensa da economia americana pode afetar diretamente as exportações brasileiras, por exemplo, já que os EUA são o segundo maior parceiro comercial do país, e, em um cenário de ritmo econômico lento, diminuiriam o ritmo de importação.
Vale pondera que China e Europa, também em ritmo fraco, não devem representar riscos maiores ao Brasil.
Diversas instituições financeiras estimam que o Brasil precisará de um ajuste fiscal de 3% a 4% do PIB — algo em torno de R$ 400 bilhões — que precisaria ser feito a partir de 2027.
Esse cenário já preocupa 2026, com a dívida pública podendo alcançar 84% do PIB até o fim do ano, segundo Vale.
"É uma dívida elevada, cara, com déficit alto. Para fazê-la cair, seria necessário gerar um superávit primário que não será trivial", diz.
Na visão do economista da MB Associados, o cenário fiscal já está deteriorado pelos gastos já realizados, uma vez que o espaço para novas medidas do governo Lula se esgotou.
O economista aponta que os principais estímulos já foram adotados: isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, aumento do salário mínimo, vale gás e isenção na conta de luz para a população de baixa renda, entre outros.
"O governo tem pouca margem para grandes mudanças neste ano, tanto pelo espaço legislativo quanto pelas ações já adotadas em 2025", diz.
Na mesma linha, Pêssoa lembra que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2022, conseguiu aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição que criou espaço fiscal para ampliar gastos em ano eleitoral. Isso só foi possível, segundo ele, pelo apoio que Bolsonaro mantinha no Congresso.
"Bolsonaro aprovou uma PEC. Não consigo ver Lula fazendo o mesmo este ano. Ele não tem maioria no Congresso. Por isso, o pacote da reeleição já foi entregue. Não espero novas medidas", diz.