Crise preocupa BC mais que a inflação

Na ata do Copom, Comitê afirma que o cenário atual para importantes economias emergentes está mais desafiador do que se antecipava

São Paulo – A ata do Copom (Comitê de Política Monetária), divulgada hoje (confira íntegra na terceira página), mostra porque a última decisão de corte da taxa básica de juros não foi unânime. De um lado, cinco membros priorizaram a preocupação com a crise e o ritmo de crescimento perante a inflação. Para os três membros restantes, a inflação pesou mais no derrotado voto pela manutenção da Selic em 7,50%. 

Para a maioria dos membros do comitê, o cenário previsto para a inflação ainda apresentava espaço para um novo corte. O argumento do grupo é que “restavam incertezas quanto à velocidade de recuperação da atividade, em grande parte, decorrência das perspectivas de que o período de fragilidade da economia global seja mais prolongado do que se antecipava, com repercussões desinflacionárias sobre a economia doméstica”. Para esses cinco membros, as recentes pressões de preços decorrem, principalmente, de choques de oferta, internos e externos, que tendem a reverter no médio prazo.

A minoria que votou pela manutenção da taxa (Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo e Sidnei Corrêa Marques) defendeu que a recuperação da atividade tende a ser sustentada pelos incentivos monetários, fiscais e de crédito já introduzidos na economia. Para esses três membros, eventualmente, pressões de demanda e de custos poderão pesar sobre a inflação. Na visão deles, o cenário para a inflação não recomendava um ajuste adicional nas condições monetárias.

“Não chegam a ser visões antagônicas”, afirmou Silvio Campos Neto, analista da área de macroeconomia da Tendências Consultoria. Para três membros, os estímulos concedidos já são suficientes para gerar recuperação econômica. Os outro cinco entendem que caberia mais um ajuste por conta de incertezas no ritmo de recuperação e pela questão externa – e a inflação teria crescido pelo choque de oferta. “Ambos concordam que era apenas mais um ajuste”, disse o analista para quem ficou claro que novos cortes não devem ocorrer tão cedo. A projeção da Tendências Consultoria é que a taxa básica de juros mantenha-se em 7,25% até o final de 2013, no mínimo, podendo continuar estável em 2014.

Na ata, o Comitê também afirma que o cenário atual para importantes economias emergentes está mais desafiador do que se esperava. Assim como na ata da reunião de agosto, o Copom afirmou que a economia global enfrenta período de incerteza acima da usual. Agora, o Comitê vê que, “apesar do ambiente de riscos elevados, a volatilidade e a aversão ao risco diminuíram, desde a última reunião do Copom, em parte influenciadas por ações não convencionais de política monetária em importantes economias maduras”. 

Inflação

O comitê voltou a dizer, assim como na ata da reunião de agosto, que apesar de o cenário internacional ter manifestado viés inflacionário no curto prazo, ele se mostra desinflacionário no médio prazo. Novamente, o Copom reafirmou na ata sua visão de que “a inflação acumulada em doze meses tende a se deslocar na direção da trajetória de metas, ainda que de forma não linear”.


“Hoje o BC tem muitos objetivos na sua mesa e não só a inflação”, afirmou Campos Neto, lembrando que, como a ata afirma, a queda nas tarifas de energia vai ajudar a impedir o risco de rompimento do teto da meta para a inflação (6,5%) em 2013. 

A inflação medida pela variação mensal do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou para 0,57% em setembro (de 0,41% em agosto). Dessa forma, a inflação acumulada em doze meses alcançou 5,28% ante 7,31% em setembro de 2011, de acordo com a ata. 

Desde a última reunião do Copom, a mediana das projeções coletadas pelo Departamento de Relacionamento com Investidores e Estudos Especiais (Gerin) para a variação do IPCA em 2012 elevou-se de 5,19% para 5,42%. Para 2013, a mediana das projeções de inflação reduziu-se de 5,50% para 5,44%. O Comitê destaca que, em grande parte, o recuo na projeção para 2013 se deve à redução estimada nas tarifas de energia elétrica.

PIB

A taxa de crescimento do PIB acumulada em quatro trimestres recuou de 1,9% para 1,2%, segundo dados do IBGE citados na ata. Para o Comitê, a queda ratifica a visão de que a economia tem crescido abaixo do seu potencial. Para o grupo, a demanda doméstica, impulsionada pela expansão moderada do crédito, bem como pelo crescimento do emprego e da renda, tem sido o principal fator de sustentação da atividade.

Em relação à política fiscal, o Copom considera a geração de superávit primário em torno de 3,10% do PIB em 2012. Na ata da reunião de agosto, a previsão era essa, mas “sem ajustes”. “Ou o governo cuida das contas públicas ou não poderá cortar mais os juros”, disse Campos Neto.

Dessa vez, o comitê considerou que iniciativas recentes apontam o balanço do setor público se deslocando de uma posição de neutralidade para expansionista – perspectiva diferente da última reunião, cuja ata mostra que o Comitê ponderava que iniciativas recentes apontavam para um cenário de neutralidade do balanço do setor público.

Novos cortes

Para o analista de macroeconomia da Tendências Consultoria, essa ata não teve muita novidade em relação ao texto da semana passada. “O maior destaque é que esse foi o último corte do ciclo atual, ficou bem claro”, disse. 


O boletim afirma que “A estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta, ainda que de forma não linear”.

Confira a ata da 170ª reunião do Copom na íntegra:

170 Reuniãohttp://www.scribd.com/embeds/110410422/content?start_page=1&view_mode=scroll&access_key=key-3eqc3obz58a847rj3n6

Suporte a Exame, por favor desabilite seu Adblock.