Economia
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Conta de luz não terá taxa extra até o fim do ano, prevê ONS

Órgão que opera o sistema elétrico diz que menos térmicas serão acionadas e que reservatórios de Sudeste e Centro-Oeste 'estão no melhor nível desde 2012'

Conta de Luz: Hoje, está em vigor a bandeira Escassez Hídrica, que acrescenta custo de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora consumidos (Brunorbs/Getty Images)

Conta de Luz: Hoje, está em vigor a bandeira Escassez Hídrica, que acrescenta custo de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora consumidos (Brunorbs/Getty Images)

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Agência O Globo

12 de abril de 2022, 10h22

A expectativa é que o Brasil tenha bandeira tarifária verde, sem cobrança extra na conta de luz, até o fim deste ano. A avaliação é do diretor-presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Carlos Ciocchi.

Hoje, está em vigor a bandeira Escassez Hídrica, que acrescenta custo de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora consumidos.

Essa taxa foi criada no ano passado para compensar os custos maiores das usinas térmicas que tiveram de entrar em operação devido aos baixos volumes dos reservatórios das hidrelétricas. Além de mais poluente, a energia térmica é mais cara.

A bandeira ficaria vigente até 31 de abril, mas o presidente Jair Bolsonaro anunciou na semana passada que ela terminaria em 16 de abril e que seria substituída pela bandeira verde. No entanto, especialistas dizem que, sem a sobretaxa, o alívio na conta de luz será menor que o prometido por Bolsonaro e não deve durar muito.

Em coletiva de imprensa virtual, Ciocchi disse que não há expectativa de acionar as usinas termelétricas fora da ordem do mérito até o fim de 2022.

Térmicas apenas em setembro e outubro

Segundo ele, serão despachados quatro mil megawatts de térmicas que são inflexíveis e despachadas na base (ou seja, dentro da ordem de mérito). Na média do ano, serão entre 5 mil e 6 mil megawatts de térmicas.

Ano passado, foram 20 mil megawatts de térmicas em alguns momentos, lembrou ele.

— Estamos no melhor nível de reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste desde 2012. No Norte e Nordeste, os níveis estão quase em 100%. No Sul, as usinas estão se recuperando. A expectativa é não ter bandeira até o fim do ano. Só vamos ter o despacho dentro da ordem do mérito. Alguma coisa vamos precisar só em setembro e outubro e, mesmo assim, dentro da ordem só mérito — disse Ciocchi.

Os reservatórios do Sudeste/Centro-oeste representam 70% de toda a capacidade de armazenamento do país. Segundo ele, será poupada água em alguns reservatórios ao longo do ano nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste por conta da entrada em operação das térmicas a partir de maio deste ano com o leilão emergencial que foi feito ano passado.

— Vamos respeitar os contratos que são de três anos. E conseguindo reter água nos reservatórios vamos dar maior resistência ao setor elétrico.

Ao destacar que, embora o país vai entre no período seco mês que vem, o ONS espera uma situação mais confortável do ponto de vista dos reservatórios, mas disse que não compensa acionar ainda mais as térmicas por conta do preço para poupar ainda mais água dos reservatórios.

— Será um custo alto para a sociedade acionar mais as térmicas. Caso venha uma chuva muito alta, será necessário verter água.

Especialistas alertam para riscos

Clarice Ferraz, diretora do Instituto Ilumina, vê com ressalvas a previsão do ONS de que vai manter bandeira verde ao longo de todo ano de 2022. Segundo ela, não há como garantir que não haverá necessidade de despachar as usinas foram da ordem do mérito (quando são acionadas as mais caras como as movidas a óleo diesel). Segundo ela, há grandes chances de a previsão ter motivos políticos.

— A gente teve um pouco mais de alívio com as térmicas inflexíveis, mas se tivermos uma seca maior não será suficiente. Nesse caso, como seria feito? Um novo empréstimo para manter a a bandeira verde artificialmente? O ONS não tem como garantir que vai manter a bandeira verde o ano todo.

Segundo Clarice, apesar da indefinição de padrão do clima, a cada ano, na média, o clima se torna mãos quente e mais seco.

— O sistema é estressado nessas duas pontas, com menos água e maior demanda.

Eduardo Faria, sócio diretor da Mercurio Trading, uma das empresas da Mercurio Partners, com o fim do despacho térmico fora da ordem de mérito, a tendência é que a energia gerada seja de fato mais barata, diminuindo a necessidade de bandeiras mais caras.

— Porém, em compensação, a utilização da água sem a incorporação de critérios mais rigorosos para preservação dos níveis dos reservatórios pode levar a uma necessidade de térmicas no futuro. Em breve entraremos no período seco, e apesar de termos um armazenamento de água confortável, é preciso utilizar os reservatórios de forma racional para não chegarmos ao fim do período seco dependendo de um bom período úmido.

Apesar da cautela, o especialista diz que a redução da necessidade de usinas térmicas é nítida. Ele citou o caso de Sobradinho, por exemplo, que atingiu 100% do volume útil esse mês. O subsistema Sul, entretanto, ainda está se recuperando, com um pouco mais de 50% do armazenamento.