Cenário agrícola negativo em 2009 pode pressionar inflação em 2010

Produtores rurais temem que queda dos preços em dólar desestimule o plantio no próximo ano, reduzindo a oferta de alimentos

O impacto da crise financeira internacional sobre a agricultura brasileira pode trazer conseqüências até 2010, quando o país corre o risco de sofrer uma inflação dos alimentos. No cenário mais pessimista traçado pelos produtores rurais, os preços em dólar das commodities agrícolas podem cair em 2009, puxados pela desaceleração dos países emergentes. Isso anularia parte dos ganhos trazidos pela disparada do dólar, levando os agricultores a reduzirem a área plantada na safra 2009/2010 - aquela plantada no segundo semestre, para ser colhida no início de 2010. Com menos tecnologia e menos hectares cultivados, a oferta de alimentos seria menor e pressionaria a inflação.

"A safra de grãos pode levar uma pancada em 2009, e o problema seria transferido para 2010 como inflação de alimentos", afirmou o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, em encontro do Conselho Superior de Agricultura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Cosag/FIESP), do qual é presidente. Como os grãos sustentam uma grande cadeia agroindustrial, que vai de ração animal a óleos vegetais, um incremento de preços teria um grande potencial de repercussão econômica, segundo os produtores.

A queda da produção de grãos talvez seja percebida já na safra 2008/2009 - a que está sendo plantada agora, para ser colhida no início do ano que vem -, embora em proporções amenas. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, estima que a safra de grãos pode somar 142 milhões de toneladas, uma queda de 1,2% sobre a safra passada. Sinal da imprevisibilidade dos dias atuais, a Conab também afirma que, se as condições forem mais favoráveis, o Brasil pode bater um recorde, colhendo 144,55 milhões de toneladas de grãos, 0,5% superior à marca anterior, obtida no ano passado.

A freada mundial já derrubou o preço das commodities, mas, até agora, o estouro do dólar serviu como um amortecedor, reduzindo as perdas dos produtores rurais. Em 15 de janeiro, a saca de soja de 60 quilos era cotada, no Porto de Paranaguá (uma das praças de referência no Brasil para estimativa de preços) em 27,96 dólares. Em 15 de dezembro, o preço já estava 33,37% menor, em 18,63 dólares. No mesmo período, o valor em reais caiu apenas 9,42%, de 48,93 reais para 44,32 reais. Os dados são do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP).

Rodrigues afirma que seu cenário básico não é o de uma nova queda de preços, mas observa que uma desaceleração brusca de emergentes como a China e a Índia pode derrubar as cotações. "2009 só contamina 2010 se os preços continuarem caindo, descapitalizarem o setor e desincentivarem os produtores a plantar", disse. Para não correr esse risco, o ex-ministro defende o reajuste dos preços mínimos para as culturas garantidas pelo governo - como a de grãos. Criada em 1966, a Política de Garantia de Preço Mínimo (PGPM) apóia os produtores, por meio de vários mecanismos, e garante a compra de parte da safra por um valor previamente determinado, compensando uma parcela dos prejuízos em épocas de crise ou de cotação muito baixa dos produtos no mercado. Segundo Rodrigues, a tabela do governo precisaria ser reajustada de 15% a 35%, conforme o produto e a região plantadora.

Usinas em xeque
Outro setor que deve sentir o baque da crise é o de açúcar e álcool. Estimulados pela expansão da frota de carros flex no Brasil e pela adoção do etanol em outros países, os produtores investiram 19,8 bilhões de dólares na construção de usinas sucroalcooleiras entre 2005 e 2008. Outros 31,7 bilhões estão programados para o mesmo fim de 2009 a 2011. Seriam erguidas 35 usinas no ano que vem, 41 em 2010, e 19 em 2011. Mas o cenário sombrio já desperta dúvidas sobre a manutenção desses investimentos. Segundo o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, os projetos de 2009 devem ser concretizados. O problema é se as 60 plantas esperadas para os dois anos seguintes sairão do papel.

Para Jank, o entusiasmo com o etanol atraiu investidores sem experiência no setor, como fundos de hedge que, até poucos meses atrás, eram responsáveis por inundar os países emergentes com o excedente de liquidez que não conseguiam aplicar nas nações mais ricas. Esses investidores, que aportariam 12,6 bilhões de dólares do total previsto nos próximos três anos, talvez mudem de planos com a freada global. "Houve uma verdadeira euforia com a bioenergia, mas os investimentos destinados ao setor até 2011 não devem se concretizar totalmente', diz.

Jank afirma que a manutenção dos projetos dependerá da velocidade com que a economia mundial se recuperará. Além disso, apesar das linhas de financiamento para a produção, como as do BNDES, presidente da Unica observa que os juros na ponta tomadora ainda estão muito altos, o que desencoraja os produtores, sobretudo porque a crise pode se aprofundar no setor.

Atualmente, entre 10% e 15% das empresas do setor sofrem com problemas financeiros. Se o cenário piorar em 2009, essa percentagem pode alcançar 30%. Há 200 grupos atuando no setor de açúcar e álcool brasileiro, responsáveis por 358 plantas de produção. Ao contrário de outros ramos do agronegócio, o setor entra na crise com um passado recente de preços baixos, decorrente da expansão da capacidade produtiva. Nesse cenário, Jank acredita que há espaço para a consolidação de empresas. "Não vejo isso como algo ruim", diz.

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