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Acesse a íntegra da entrevista exclusiva com o economista americano Jeffrey Sachs

Economista diz que as forças de mercado não são a solução para a pobreza e outros problemas fundamentais do mundo moderno

Um dos arautos do neoliberalismo nos anos 80, Jeffrey Sachs é hoje um dos mais veementes defensores da importância do Estado como motor do desenvolvimento. Engajado num trabalho das Nações Unidas para erradicar a pobreza no mundo -- o Projeto Milênio --, o economista americano falou a EXAME sobre o papel dos governos no século 21.

PORTAL EXAME - O senhor acredita que é possível erradicar a pobreza num futuro próximo?
Jeffrey Sachs - Sim, a pobreza extrema pode ser eliminada por volta do ano 2025 - em outras palavras, em nossa geração. Por pobreza extrema entendo o tipo de pobreza em que as pessoas estão lutando pela sobrevivência, em que estão subnutridas, não têm acesso a água potável segura ou a serviços de saúde básicos. São várias centenas de milhões na África, muitas centenas de milhões ainda na Ásia e, provavelmente, pouco menos de cem milhões na América Latina.

EXAME - É possível acabar com a pobreza sem a ajuda do Estado?
Sachs -
Não. A erradicação da pobreza extrema exige investimentos em saúde, educação e infra-estrutura. A iniciativa privada não irá colocar dinheiro nas áreas mais pobres do planeta, simplesmente porque não há mercado nesses lugares. Há hoje mais de 1 bilhão de pessoas na luta pela sobrevivência. Com ações bem programadas do Estado, podemos acabar com esse problema até 2025.

EXAME - Sua tese de que o Estado tem um papel fundamental no desenvolvimento não vai na contramão de tudo o que muitos economistas defendem?
Sachs - Vai contra um monte de tendências do pensamento mais recente, que dizem "tudo está nas reformas do mercado, tudo está nas privatizações". Eu não sinto que a questão é Estado grande versus Estado pequeno. Defendo gastos públicos eficientes em áreas importantes. É claro que em algumas áreas o setor privado vai ter um papel, mas geralmente ele não vai resolver as necessidades dos mais pobres, e boa parte da agenda de privatização de Washington negligenciou esse fato bastante básico. Veja o que ocorreu na África. Há uns 20 anos, o Banco Mundial dizia que a agricultura naquele continente não funcionava devido à intervenção do Estado. E o que foi feito? Acabaram com os subsídios a pequenos fazendeiros. Resultado: a situação ficou ainda pior.

EXAME - Os críticos dizem que os recursos se perdem no meio do caminho por causa da corrupção na máquina estatal, especialmente nos países pobres. Como é possível resolver esse problema?
Sachs - A primeira coisa que digo é que não deveríamos apenas culpar a corrupção como a causa da extrema pobreza, mesmo que essa seja a mensagem mais comum que vem de Washington hoje em dia. Acho que é apenas um diagnóstico falso, é tão fácil culpar os pobres, especialmente se você não sabe nada sobre eles. A corrupção existe, mas ela não é a principal causa da miséria. Essa idéia é conveniente para os Estados Unidos, pois exime o país e outras nações ricas da responsabilidade sobre o problema. A pobreza só vai ser erradicada com investimentos. O dinheiro tem de vir dos países ricos. E os Estados Unidos simplesmente não gostam de pagar nada para pessoas muito pobres.

EXAME - Mas os países ricos já não ajudam as nações mais pobres?
Sachs - A ajuda é irrisória. Os Estados Unidos enviam por ano 3 bilhões de dólares para a África. E têm uma economia que movimenta hoje 12 trilhões de dólares por ano. Em termos percentuais, a África recebe 3 cents de cada 100 dólares do PIB americano, ou algo próximo a, grosseiramente, dois dias do orçamento do Pentágono. É realmente algo terrível, um erro para a política externa dos Estados Unidos e uma tragédia para as pessoas que não conseguem a ajuda de que precisam. Os americanos não entendem que dão muito pouco.

EXAME - Quanto os Estados Unidos e outros países teriam de investir para erradicar a pobreza?
Sachs - O problema seria resolvido se as nações ricas investissem por ano entre 0,5% e 1% de seu PIB. Isso significaria algo como o dobro ou o triplo dos níveis atuais de auxílio.

EXAME - O Brasil estaria na relação de países beneficiados por esse tipo de ajuda?
Sachs - O Brasil tem muitos desafios, com uma incrível desigualdade de renda e desigualdade racial como parte disso, o que faz a sociedade ser tão dividida, como nos Estados Unidos. Os ricos não estão dispostos a investir nos pobres. Mas a economia brasileira é muito poderosa e moderna, quando comparada à dos países mais pobres. O Brasil realmente não precisa de ajuda da mesma forma que um país empobrecido. O auxílio internacional deveria ser canalizado para lugares como Haiti, Bolívia, Laos e Índia.

EXAME - Qual a sua avaliação sobre os programas de combate à pobreza do governo brasileiro?
Sachs - Houve um grande avanço nos últimos anos, sobretudo na área da educação. Esse processo começou com Fernando Henrique Cardoso e teve continuidade com o presidente Lula. É o rumo certo. Mas é preciso fazer muito mais. Um país que deseja passar de um nível de renda médio para um patamar mais alto deve investir pesadamente em sofisticação tecnológica. E isso só é possível quando há uma boa base educacional. A Coréia descobriu esse caminho nos anos 70. Por isso, é hoje um país muito mais rico que o Brasil. Uma das coisas que senti sobre o Bolsa Família, por exemplo, é que transferências a indivíduos podem ser boas, mas elas não pagam estradas, você sabe? Toda a filosofia desse Bolsa Família, ou do Progresa no México, o mesmo tipo de programa, são transferências para famílias individuais, para estimular responsabilidade individual. Mas isso não soluciona os problemas de bens públicos de comunidades muito pobres, estradas que não funcionam, a gestão hídrica, a irrigação que não é eficiente. Essas coisas tem de ser resolvidas. É preciso que haja investimento público no capital da comunidade, não apenas nos indivíduos.

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