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À espera do espetaculo

Para as montadoras de automóveis e os fabricantes de produtos eletrônicos de consumo, o mais urgente é vencer a ociosidade

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Da Redação

Publicado em 9 de outubro de 2008, 10h23.

Há setores da economia brasileira em que a retomada do crescimento não requer investimentos. São áreas da indústria nas quais, antes de mais nada, urge ocupar uma capacidade de produção que está às moscas há anos. Em dois setores, o automobilístico e o de eletroeletrônicos de consumo, a história é quase a mesma: depois de um pico de vendas no início do Plano Real, as empresas assistiram a uma derrocada praticamente contínua da demanda.

No caso da indústria automobilística, a situação foi se tornando drástica porque, ao mesmo tempo que as vendas decaíram, o mercado ganhou mais competidores -- como as marcas Renault, Citroën, Peugeot, Toyota e Honda -- e foram inauguradas fábricas projetadas na euforia dos bons tempos. O setor investiu quase 20 bilhões de dólares desde meados da década de 90. A capacidade instalada nas 17 montadoras do país alcança 3,2 milhões de veículos por ano, mas as vendas em 2003 não devem superar 1,8 milhão de unidades, sendo 500 000 destinadas à exportação. "Há montadoras demais para um mercado nessas condições", diz Antonio Maciel Neto, presidente da Ford. A sensação de aperto alimenta boatos de que uma das recém-chegadas está para desistir de operar no Brasil.

Em razão do descompasso, as montadoras apertaram o cinto e suspenderam os investimentos. A matriz da alemã Volkswagen preferiu entregar a produção da quinta geração do Golf ao México. O novo Audi A3 também não será produzido na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná. Em vez de novos Golf e Audi A3, a fábrica paranaense se dedicará à montagem do Tupi, nome provisório do compacto que será lançado até o fim do ano. A francesa Renault, cujo prejuízo no Brasil foi de 430 milhões de dólares em 2003, anunciou a desistência do projeto de produzir um novo carro mundial em sua fábrica do Paraná.

A única possibilidade de novo investimento, atualmente sob análise, é a ampliação da fábrica da GM em Gravataí, no Rio Grande do Sul, para fabricar um novo modelo, o que exigiria injeção de 200 milhões de dólares. Mas a GM ainda não decidiu se produzirá mesmo o novo carro no Brasil, no México ou na China. A redução temporária do IPI de algumas categorias de automóveis, anunciada

pelo governo no início de agosto, não muda substancialmente o quadro do setor. Segundo Ricardo Carvalho, presidente da Anfavea, a associação dos fabricantes de veículos, o alívio no imposto pode servir de ponte até o que de fato fará diferença: uma melhora na situação econômica, com juros mais baixos e mais crédito na praça, pois 70% das vendas dependem de financiamento.

Que conseqüência o encolhimento do mercado pode produzir sobre o futuro? Um levantamento feito pela consultoria A.T. Kearney indica que o número de modelos produzidos no Brasil pelas quatro maiores montadoras -- Fiat, VW, GM e Ford -- deve diminuir dos atuais 50 para 40 até 2007. O desenvolvimento de um carro custa de 100 milhões a 300 milhões de dólares -- dinheiro que nenhuma montadora está disposta a bancar agora. "A tendência é apostar em fábricas de um só produto para ganhar escala e ter condição de competir no mercado global", diz Corrado Capellano, da A.T. Kearney.

É um cenário que também tem riscos. China e Índia estão despontando como novos pólos fornecedores de automóveis para países emergentes. Apesar de mais atrasados que o Brasil tecnologicamente, esses países têm duas vantagens: mercado interno em expansão e mão-de-obra mais barata que a brasileira, o que diminui o custo final do produto. Segundo um estudo da consultoria Roland Berger, enquanto no Brasil o carro mais barato custa 4 700 dólares, na China o valor cai para 4 100 e na Índia para 3 900.

No setor de eletroeletrônicos de consumo, existem linhas de montagem trabalhando com a perspectiva de finalizar um volume de produtos inferior à metade do alcançado em 1996. É o que acontece com os televisores: as empresas instaladas no Brasil têm capacidade para fabricar anualmente mais de 10 milhões de aparelhos, mas não deverão chegar a 4,2 milhões em 2003. "Portanto, não há razão para investir em expansão", diz Afonso Hennel, presidente da Semp Toshiba, uma das líderes nas vendas de aparelhos de TV. "Os investimentos que ocorrem são apenas para manter a capacidade."

O quadro é semelhante na chamada linha branca, de produtos como geladeiras, fogões e lavadoras. Nesse segmento, a ociosidade média é de 40%. "Se tiver espetáculo do crescimento, vamos assistir de camarote", diz Paulo Periquito, presidente da Multibrás, dona das marcas Brastemp e Consul. "Um cenário econômico que possibilite dois anos de crescimento pode vir porque o mercado absorve com facilidade."

NADA DO QUE FOI
SERA
As vendas de veículos e de televisores no país ficarão este
ano muito longe dos melhores resultados históricos (em milhões de unidades)
TVs em cores
1996 8,5
2003 4,2*
Automóveis
1997 1,9
2003 1,3*
*Previsão
Fontes: Eletros, Anfavea, empresas TVs em cores