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A disseminação do coronavírus pode apressar o fim da globalização?

Mesmo antes da chegada da doença, mudanças climáticas, falta de segurança e queixas sobre o comércio geravam preocupação

 (Manuel Silvestri/Reuters)

(Manuel Silvestri/Reuters)

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Steven Erlanger - c. 2020 New York Times News Service

6 de março de 2020, 14h31

Bruxelas – A globalização, a estranha ideia que encapsula nossa interconexão, já estava sob ataque de populistas, terroristas, guerreiros comerciais e ativistas climáticos, tendo se tornado um alvo fácil para muitas coisas que nos afligem.

Agora, chegou o coronavírus. Sua disseminação, dizem analistas e especialistas, pode ser um momento decisivo nos fervorosos debates sobre quanto o mundo poderia se integrar ou se separar.

Mesmo antes da chegada do vírus à Europa, as mudanças climáticas, as preocupações com a segurança e as queixas sobre o comércio injusto haviam intensificado as ansiedades sobre viagens aéreas globais e cadeias de suprimentos industriais globalizadas, além de terem reforçado as dúvidas sobre a confiabilidade da China como parceira.

O vírus já deu outro golpe na desaceleração das economias e encorajou os populistas a reviver os discursos – com tons de racismo e xenofobia – por controles mais rígidos de migrantes, turistas e até mesmo corporações multinacionais.

Entre todos os desafios à globalização, muitos deles políticos ou ideológicos, esse vírus pode ser diferente.

“Sempre nos esquecemos de que estamos à mercê da natureza, e, quando os episódios passam, nós nos esquecemos e continuamos. Mas esse vírus trouxe à tona todas essas questões sobre a interconectividade do mundo que estamos construindo. Viagens aéreas, cadeias globais de suprimentos – está tudo ligado”, disse Ivan Vejvoda, membro do Instituto de Ciências Humanas de Viena.

À medida que o vírus se espalha para a Europa e além, explicou Vejvoda, “isso torna a China um pouco mais frágil e nossa dependência dela como ‘a fábrica do mundo’ mais duvidosa”.

A rápida propagação do vírus vindo da Ásia é “mais uma gota d’água da globalização”, disse Robin Niblett, diretor da Chatham House, instituição de pesquisa em Londres.

As tensões políticas entre os Estados Unidos e a China em relação ao comércio, bem como as preocupações com as mudanças climáticas, já haviam levantado questões sobre o sentido e o custo do envio de peças de país para país e a probabilidade de impostos sobre o carbono nas fronteiras, observou ele.

Juntamente com o risco de uma cadeia de suprimentos vulnerável ao surgimento do próximo coronavírus, ou às vulnerabilidades de uma China cada vez mais autoritária, Niblett declarou: “Se você é uma empresa, tem de pensar duas vezes em se expor.”

Particularmente agora, com mais países usando sanções e interdependência econômica “como uma nova forma de diplomacia coercitiva, vamos ficando mais avessos ao risco da globalização”, afirmou ele.

A globalização da doença não é uma novidade, observou Guntram Wolff, diretor da Bruegel, instituição de pesquisa econômica em Bruxelas, citando as mortes maciças que se seguiram à chegada dos europeus às Américas, ou a peste, agora em parte celebrada pelo Carnaval de Veneza, que foi cancelado.

“O que é diferente é que, com o avião, as coisas podem se espalhar muito rápido”, disse ele. O impulso imediato é recuar e erguer barreiras. “Já vemos os números de voos caindo drasticamente.”

De certa forma, esse vírus ressalta o desequilíbrio na globalização. As cadeias de suprimentos do setor privado se tornaram muito eficazes. As viagens aéreas são abrangentes e intermináveis. Por isso, o setor privado está constantemente se movendo ao redor do mundo.

Mas qualquer tipo de resposta governamental coordenada é muitas vezes fraca e desorganizada – seja sobre mudanças climáticas, saúde ou comércio. E as tentativas de fortalecer os esforços públicos globalizados são atacadas por nacionalistas e populistas como violações à soberania.

Os governos também não podem fazer muito para restringir as cadeias de suprimentos, e poucos deles na Europa têm flexibilidade financeira para injetar dinheiro extra na economia.

Theresa Fallon, diretora do Centro de Estudos para a Rússia, a Europa e a Ásia, concordou que grande parte da resistência pode agora ser direcionada à China.

Ela voltou recentemente de Milão, onde as autoridades estão verificando a temperatura dos viajantes, os médicos são cuidadosos com as visitas ao consultório e os moradores estão visivelmente mantendo distância dos turistas chineses, relatou ela.

“O crescimento da China é uma história longa e positiva, mas tudo que sobe tem de descer”, disse ela, com o vírus surgindo como “uma espécie de cisne negro que mostra quão diferente o país é”.

Essa crise de confiança na China vai além da capacidade chinesa de lidar com o vírus, afirmou Simon Tilford, diretor do Forum New Economy, instituição de pesquisa em Berlim.

“A falta de confiança só reforçará uma tendência existente entre as empresas de reduzir sua dependência e risco”, disse ele.

Mas a disseminação do vírus para a Europa também terá um impacto significativo na política, provavelmente impulsionando a extrema-direita anti-imigrante e antiglobalização, comentou Tilford.

“Já vemos muita preocupação populista com os méritos da globalização, beneficiando multinacionais, a elite e os estrangeiros, não a população e as empresas locais”, disse ele.

Os políticos que insistem no controle de fronteiras e imigração serão ajudados, mesmo que o vírus cruze as fronteiras facilmente.

“Seu argumento será que o sistema atual representa não apenas ameaças econômicas, mas também de saúde e segurança, que são existenciais, e que não podemos nos dar ao luxo de nos abrirmos tanto apenas para agradar às grandes empresas”, afirmou Tilford.

“Esse argumento pode atrair eleitores que odeiam o racismo evidente, mas que temem a perda de controle e um sistema vulnerável a uma parte distante do mundo”, acrescentou.

O impacto racial do vírus que se espalha é delicado, todos concordam, mas existe.

“É sempre diferente quando acontece em seu próprio bairro, entre pessoas como você. Quando isso acontece na Dinamarca, Espanha ou Itália, você tem mais a sensação de que isso ocorre entre as pessoas que compartilham o mesmo estilo de vida – portanto você pode ver isso acontecendo com você”, disse Stefano Stefanini, ex-diplomata italiano.

“Mas o vírus também permite que as pessoas expressem uma hostilidade aos chineses que elas podem ter sentido, mas que relutavam em expressar. Já existe uma corrente de medo dos chineses na Europa e nos Estados Unidos, porque eles representam um desafio à hegemonia ocidental”, concluiu Tilford.