Economia
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5 anos após desabamento, o que mudou nas fábricas de Bangladesh?

Em abril de 2013, o edifício Rana Plaza desabou na capital de Bangladesh, causando a morte de mais mil pessoas, em grande parte funcionários de confecções

 (Jeff Holt/Bloomberg)

(Jeff Holt/Bloomberg)

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João Pedro Caleiro

2 de maio de 2018, 18h05

São Paulo - No dia 24 de abril de 2013, o edifício Rana Plaza desabou em Daca, capital de Bangladesh, causando a morte de 1.134 pessoas e ferindo outras 2.500.

A maioria eram trabalhadores de confecções que forneciam para grandes marcas globais do varejo como H&M, Walmart e Gap.

5 anos depois, a produção têxtil no país sofreu mudanças importantes mas insuficientes, de acordo com dois relatórios recentes de universidades americanas.

Eles apontam uma melhora principalmente na segurança dos prédios, resultado de dois grandes acordos internacionais voluntários assinados depois da tragédia, sob forte pressão, por marcas e varejistas.

As coalizões foram batizadas de 'Aliança', dominado por marcas americanas, e de 'Acordo', com foco europeu e dois extras importantes: incluiu sindicatos e prevê punições para violações.

Os dois movimentos inspecionaram 2.800 fábricas em Bangladesh nos últimos anos e a taxa de resolução dos problemas foi de 84% no Acordo e 89% na Aliança. Quase nenhuma fábrica tinha saída de emergência incêndio, por exemplo.

Mas o relatório do Centro Stern da Universidade de Nova York (NYU) aponta dois problemas remanescentes: há muitas fábricas monitoradas pelo governo, que tem menor grau de controle, e outras que por fazerem serviços de apoio e não lidarem diretamente com marcas internacionais fogem do escopo das iniciativas.

O relatório estima um custo extra de US$ 1,2 bilhão para resolver estas omissões em um modelo de "responsabilidade partilhada" entre governo e marcas.

A Aliança acaba em 2018 e o Acordo deve ser prorrogado até 2021, com previsão de que a responsabilidade pela segurança seja delegada para o governo local; o medo é que ele faça vista grossa para violações.

O Centro para os Direitos dos Trabalhadores Globais da Universidade Estadual da Pensilvânia aponta em seu relatório que outra área de melhora neste período, ainda que modesta, foi na organização dos trabalhadores.

A pressão internacional após a tragédia contribuiu para a aprovação de leis mais amigáveis à sindicalização em um país conhecido por barrar mobilizações trabalhistas.

Entre meados de 2013 e o final de 2014, cerca de 228 novos sindicatos foram registrados no país. No entanto, houve aumento na rejeição do governo a novos registros além de mais relatos de violações de direitos.

Algo similar aconteceu com os salários. Em dezembro de 2013, o salário mínimo foi quase dobrado mas depois nunca mais subiu - e em fevereiro de 2018, já valia menos em dólar do que na época do desastre.

Segundo o relatório, Bangladesh tem hoje o menor salário mínimo (63 dólares por mês) e o menor salário efetivo (14% do considerado necessário) entre todos os grandes países exportadores de têxteis do planeta.

"Os ganhos foram severamente limitados no que se refere a salários, horas extras e intensidade de trabalho", diz o relatório da Universidade de Pensilvânia.

Dinâmica

Bangladesh é o segundo maior produtor de têxteis do planeta, depois da China. O país exportou US$ 28 bilhões em roupas em 2016, o equivalente a 80% das suas exportações. Cerca de 64% vão para a Europa e 18% para os EUA.

A indústria emprega 5 milhões de pessoas e ajuda a reduzir as taxas de pobreza. A esperança é que assim como aconteceu na China, o uso de mão-de-obra barata como vantagem competitiva eventualmente traga salários mais altos, outras indústrias, inovação e desenvolvimento econômico.

Por enquanto, o que se vê é um cenário em que poucas grandes marcas globais negociam com muitos potenciais fornecedores, dentro e fora do país. O desequilíbrio no poder de barganha leva a uma pressão por preços menores e margens mais apertadas.

As marcas pagam menos hoje do que em 2013 para comprar roupas de Bangladesh - e as quedas nos preços de algodão e mudanças cambiais explicam apenas uma pequena parte disso.

Além disso, o modelo de "fast fashion", com necessidade de cada vez mais coleções chegando mais rápido ao mercado, encurta o prazo dos fornecedores, gerando ainda mais pressão.

O dilema principal segue sem resposta: é esperado que grandes empresas garantam a segurança de seus fornecedores e paguem salários que sustentem suas famílias. Ao mesmo tempo, devem enfrentar a competição buscando sempre o menor custo para sustentar preços baixos.

Uma ideia interessante foi proposta no ano passado em um relatório do Boston Consulting Group em parceria com a Global Fashion Agenda, uma organização de moda focada em sustentabilidade.

Mais da metade do valor de uma camiseta produzida em Bangladesh e vendida em Berlim é agregado na etapa final, com imposto e margem do varejo, de acordo com um estudo do Fórum Econômico Mundial com a consultoria Accenture.

Isso significa que qualquer aumento do salário na base, por menor que seja, acaba sendo multiplicado várias vezes na ponta, se tornando proibitivo.

A ideia nova é que as empresas pressionem os fornecedores para aumentar o salário dos trabalhadores, mas que incluam este custo extra diretamente no preço final.

Os consumidores desta forma saberiam que estão pagando a mais para beneficiar diretamente quem mais precisa, e não para aumentar as margens das grandes empresas.

Para que isto seja factível, precisaria que todas as empresas se unissem e concordassem em mudar a forma como funcionam e contabilizam seus custos. A reação ao desastre do Rana Plaza mostra que isso é difícil, mas não impossível.