Vale a pena contratar crédito para quitar as dívidas?

Empréstimo pessoal, consignado e até o empréstimo FGTS podem ser alternativas para saldar contas caras, como a do cartão de crédito. Entenda
Empréstimos pessoais e crédito consignado: pegar uma dessas duas linhas pode ser vantajoso para quitar o valor devido no cartão (boonchai wedmakawand/Getty Images)
Empréstimos pessoais e crédito consignado: pegar uma dessas duas linhas pode ser vantajoso para quitar o valor devido no cartão (boonchai wedmakawand/Getty Images)
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Da RedaçãoPublicado em 09/11/2022 às 07:30.

Para muitos brasileiros, a situação financeira não está fácil. O percentual de famílias inadimplentes no país, aquelas com contas atrasadas, atingiu o recorde de 30% em setembro, segundo os dados mais recentes divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Desde 2010, quando a análise começou a ser feita, é a primeira vez que o índice atinge essa marca.

Na comparação com setembro de 2021, a quantidade de famílias inadimplentes aumentou 4,5 pontos percentuais.

Além da inadimplência, a CNC mede também a quantidade de famílias com dívidas (em atraso ou não). Esse dado também bateu recorde em setembro, com 79,3% da amostra endividada. Em setembro de 2021 o índice era de 74%.

Como se livrar das dívidas?

Mais endividadas e com menor poder de compra, as famílias, por vezes, têm dificuldades de pagar todas as contas, e aí surge uma dúvida bastante comum: será que vale a pena contratar crédito para quitar dívidas?

Quem já atrasou contas e viu o nome ser negativado, também se questiona: existe empréstimo pessoal para negativado? EXAME foi em busca das respostas.

O primeiro passo para quem enfrenta problemas financeiros é não entrar em desespero, colocar os pés no chão, encarar a realidade e, é claro, se planejar para sair dessa situação de forma definitiva.

“Sempre costumo dizer que ter dívidas não é um problema e muitos me questionam, mas a verdade é que o maior problema é não conseguir arcar com esse compromisso, que é justamente o que acontece atualmente com milhões de brasileiros”, comenta Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN). “É preciso mudar o comportamento em relação ao uso do dinheiro para construir uma vida mais sustentável financeiramente, tratar o problema na raiz, evitando assim entrar num ciclo de endividamento.”

Vale a pena contratar um novo crédito bancário para quitar dívidas?

Quando esse novo empréstimo oferecer melhores condições, a resposta é sim. Dessa forma, o consumidor pode usar o novo empréstimo para pagar totalmente as dívidas mais caras que contraiu no passado.

Adagoberto Junior Felicio, gerente de crédito no banco PAN, explica que o consumidor deve avaliar se a contratação de um novo crédito possui condições melhores que a dívida atual. “Existem operações de crédito com condições mais baratas em comparação a dívidas mais caras, como cartão de crédito ou cheque especial”, exemplifica. Empréstimos pessoais e crédito consignado costumam ter juros menores do que aqueles cobrados no rotativo do cartão de crédito. Então, pode ser vantajoso pegar uma dessas duas linhas para quitar o valor devido no cartão. 

Uma outra opção interessante para quitar dívidas caras é o empréstimo FGTS, diz Felicio, que não compromete o orçamento mensal por ser uma operação de crédito com garantia vinculada à antecipação do saldo FGTS. 

Domingos, da Abefin, no entanto, alerta que trocar uma dívida pela outra nem sempre é a melhor alternativa. “É claro que o crédito consignado, por exemplo, oferece juros baixos em comparação ao cartão de crédito, cheque especial e financiamentos, já que o pagamento é retido diretamente do salário. Justamente por isso é preciso cautela, já que para quem já está com dificuldade em administrar as finanças, ter sua renda habitual reduzida pode desencadear novos endividamentos e problemas ainda maiores, virando uma bola de neve.”

Existe empréstimo pessoal para negativado?

A resposta é sim, existe empréstimo pessoal para negativado, mas nem sempre é fácil conseguir esse recurso e os juros podem ser maiores do que os cobrados em uma situação de “nome limpo”. 

Algumas instituições financeiras trabalham com a concessão de crédito para negativados, ou seja, para aquelas pessoas que têm restrição de crédito vinculada ao CPF, mas sempre fique atento para não cair em golpes. Um dos mais comuns é exigir um depósito inicial para liberar o dinheiro do empréstimo. Desconfie se isso acontecer com você!

Como manter as contas em dia?

Felicio, do banco PAN, comenta que se a contratação de um novo crédito, mais barato, tem como foco quitar dívidas antigas mais caras, a dica é manter um comprometimento com a própria renda, para não correr o risco de cair novamente na contratação de crédito mais caros, como os do cartão.

Domingos, da ABEFIN, recomenda colocar na ponta do lápis (ou em uma planilha) todas as dívidas que possuir, separando as que correspondem a serviços e produtos de necessidade básica, que não podem ser cortados (como água, energia elétrica, gás e aluguel) e as que têm juros mais altos (como cartão de crédito e cheque especial) - considerando essas como prioridade para pagamento. “Antes de sair se enrolando para pagar, faça um diagnóstico financeiro, para saber como pode diminuir as despesas mensais, fazendo sobrar dinheiro para pagar as dívidas em atraso”, diz.

Para que esse diagnóstico seja mais preciso, a dica de Domingos é anotar durante 30 dias todos os gastos que tiver, separando por tipo de despesa. Isso inclui gastos “pequenos”, que podem até ser considerado menos importantes, como gorjetas e guloseimas, porque no final do período será possível compreender de que forma, efetivamente, seu dinheiro está sendo gasto. “Reflita sobre os hábitos e comportamentos que o levaram a chegar nessa situação, assim saberá o que deve mudar e quais gastos irá reduzir ou eliminar”, diz o especialista.

Por fim, para não agravar a situação, antes de realizar qualquer compra, se faça algumas perguntas:

  • “Eu realmente preciso deste produto?”
  • “O que ele vai trazer de benefício para a minha vida?”
  • “Estou comprando por necessidade real ou movido por outro sentimento, como carência, baixa autoestima ou influência de terceiros?”

Ao fazer isso, diz Domingos, você terá uma grande surpresa sobre a quantidade de coisas adquiridas apenas por impulso.