Como economizar ganhando pouco? Veja o que diz Nath Finanças

Num momento em que o cartão de crédito tem sido usado para compra de itens básicos, Nathália Rodrigues e especialista do banco PAN dão dicas para poupar
Nath Finanças: um dos erros das pessoas é achar que o cartão de crédito seja um complemento da renda (Leo Aversa/Exame)
Nath Finanças: um dos erros das pessoas é achar que o cartão de crédito seja um complemento da renda (Leo Aversa/Exame)
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Da RedaçãoPublicado em 05/10/2022 às 07:00.

Economizar, ainda que ganhando pouco. Será que dá? Mais de 80% da população brasileira está classificada dentro das classes CDE, sendo que metade desse grupo está na faixa mais vulnerável – classes D e E. 

Isso significa que a renda mensal média dos lares brasileiros é composta da seguinte forma: na classe C, a renda domiciliar mensal fica entre R$ 2,9 mil e R$ 7,1 mil, o que equivale a algo entre 2 e 5 salários mínimos, enquanto a classe DE tem renda domiciliar mensal de até R$ 2,9 mil – até dois salários mínimos, portanto.

Bancarização no Brasil

Uma nova pesquisa, feita pela Opinion Box e Nathália Rodrigues, do canal Nath Finanças, especialista em educação financeira para a população de renda mais baixa, quis entender como estão as finanças dessa parcela da sociedade brasileira. 

Foram mais de 2.000 pessoas entrevistadas em maio deste ano. O resultado mostra que a bancarização é relevante:

  • 76% têm cartão de crédito
  • 74% têm conta corrente
  • 70% têm cartão de débito
  • 55% têm conta poupança
  • 31% têm conta de investimentos

Compras parceladas são uma realidade

Entre os pesquisados que têm cartão de crédito, 90% têm compras parceladas no cartão atualmente, e 19% afirmam pagar mais de seis parcelamentos ao mesmo tempo.

“Os dados da pesquisa mostram que as pessoas estão usando o cartão de crédito para se alimentar e fazer compras básicas, para complementar a renda, fazer o supermercado”, explica Nathália.

Por conta da falta de renda, diz ela, a maioria não tem usado para consumos considerados ‘luxo’. E não é culpa da falta de educação financeira. “A justificativa é que a pessoa usou o cartão por uma questão básica de sobrevivência da casa e da moradia, pois o salário não está dando conta.”

A especialista comenta que um erro bastante comum que se observa no hábito financeiro das pessoas é elas acreditarem que o cartão seja um complemento de sua renda. “Isso não é verdade e, inclusive, o cartão ainda é o grande vilão do endividamento dos brasileiros”, diz. “Contudo, o uso do cartão de crédito não é

prejudicial, desde que você consiga identificar quais são os gastos fixos e variáveis e alinhar com a sua renda básica.”

Como usar bem o cartão de crédito

A recomendação dela é parcelar compras de bens duráveis ou produtos que

estejam acima do orçamento da pessoa, o que impossibilita o pagamento à vista. “Uma forma simples e direta de avaliar se as parcelas de uma compra cabem no bolso, bem como se o limite do seu cartão está inserido na sua realidade, é se perguntar se você poderá pagar a fatura completa no mês seguinte”, ensina. “Se a resposta for não, é melhor ficar atento às escolhas de compra. A quantidade de parcelas também é chave: opte por, no máximo, três ou quatro vezes.”

Como economizar ganhando pouco?

Para Nathália, ao contrário do que se pensa, é possível sim uma pessoa economizar mesmo ganhando pouco. “É preciso alinhar seu planejamento financeiro à sua realidade”, diz. “O hábito de anotar suas despesas, colocá-las num papel ou planilha e perceber quais são seus gastos fixos, que são aqueles que todos os meses são iguais, e os variáveis, que alternam o valor de acordo com o mês, mostra onde existem gastos que podem ser diminuídos.”

Mas é preciso lembrar que esse planejamento é individual e não há regra em como começar, pode ser R$ 10, R$ 20 ou R$ 30. O importante, diz ela, é começar.

“Para você saber quanto deve guardar, você precisa saber quanto você ganha”, afirma Marcio Sidnei Savio, superintende de produtos digitais do banco PAN. E isso já gera uma confusão, explica o especialista.

Se você ganha um salário mínimo, imagina que vai entrar R$ 1.212 em seu bolso. O erro já está aí, pois esse é seu salário bruto. O que você recebe, de fato, em sua conta é chamado salário líquido, e para chegar a esse valor deve-se fazer a seguinte conta: salário bruto + acréscimos - descontos = salário líquido.

“Descontos e acréscimos podem variar, mas seguem alguns exemplos de desconto: faltas, horas de atraso, impostos, adiantamentos etc. Os acréscimos são horas extras, férias, décimo terceiro etc”, explica Savio.

Além de saber exatamente o quanto se ganha, o especialista do banco PAN diz que é preciso saber controlar os gastos. Veja algumas dicas dele e de Nathalia para economizar, mesmo ganhando pouco.

1. Identifique quais são os gastos fixos e variáveis

Os fixos são aqueles que vêm todo o mês, como aluguel, condomínio, financiamento, contas de energia, água e gás.

Os gastos variáveis dependem do consumo, como por exemplo restaurantes, atividades de lazer ou até uma despesa de emergência.

“A partir disso, você consegue identificar melhor o que pode ser eliminado durante o mês, e também faz a gente perceber como a situação da economia do país afeta o nosso orçamento”, diz Nathália. “Pessoas da minha comunidade no Twitter têm mostrado fotos de suas planilhas e o aumento dos gastos são assustadores por conta da inflação.”

Savio recomenda relacionar os valores mensais de gastos fixos e fazer uma soma. “Verifique se o valor gasto mensalmente é maior ou menor que o seu salário líquido. Se o resultado da soma for um valor maior que o seu salário, você precisa economizar. A forma mais comum é cortar gastos desnecessários.”

2. Anotar todos, absolutamente todos os gastos variáveis

“Esse controle é fundamental para que os gastos diários não saiam do controle”, alerta Savio. A recomendação aqui é substituir, por exemplo, diversão paga, como cinema, teatros e shoppings, que podem reter uma parcela relevante da renda mensal, por programações gratuitas, como as que acontecem em locais como o Sesc ou parques públicos. 

Além disso, ao sair de casa, tenha sempre em mão os alimentos ou bebidas que deseja consumir ao longo do dia. Evite opções de comida de rua, alerta Savio. “A comida de casa é mais saudável e mais em conta. Logo você vai perceber que os pequenos gastos do dia a dia são os grandes vilões dos gastos desnecessários.”

3. Tenha sempre algum dinheiro guardado

Essa dica é importante não só para realizar os seus sonhos futuros, mas também para evitar gastos desnecessários com alguma emergência. “Uma telha quebrada, um entupimento de cano ou doença inesperada, pode te levar a fazer empréstimos não programados”, diz Savio.

4. Evite as compras parceladas

Fuja também de financiamentos como juros altos, exceto em compras de extrema necessidade. Se você pretende comprar um tênis ou camiseta procure guardar o dinheiro e comprar à vista. “Quando você paga o valor integralmente na hora, normalmente consegue descontos de 5% a 10% nos valores de vitrine”, ensina o especialista do banco PAN.

5. Entenda e reconheça que está endividado(a) e que precisa controlar o orçamento

O primeiro passo para quitar as dívidas, diz Nathália, é listar e analisar as taxas de juros, as parcelas e o valor inicial e final de cada um. Depois dessa análise das suas contas, é importante buscar quitar as dívidas que possuem uma taxa alta de juros, porque elas abocanham a maior parte de um orçamento pessoal.

Para auxiliar na quitação dessas dívidas, existem empresas especializadas em crédito ou feirões que oferecem negociação de pendências financeiras. 

“Outra dica que sempre menciono é sobre negociar com bancos: não vá pessoalmente, ligue. Pelo telefone, é possível negociar até 100% da sua dívida”, afirma Nathália.

Muitas vezes, o brasileiro não aprende educação financeira em momentos de abundância, mas na escassez, e esse processo é doloroso e difícil, pontua a dona do canal Nath Finanças.

“O salário mínimo brasileiro está abaixo do que deveria ser e pedir por salário digno é um compromisso que deve ser de todos nós”, defende. “É também urgente falar sobre educação financeira com toda a população, respeitando as condições socioeconômicas de cada um, sua realidade e como isso pode ser aplicado de forma efetiva e perene. Sem organização financeira podemos ficar em uma situação muito pior de endividamento.

“Seguindo as dicas acima você conseguirá alcançar o objetivo que é guardar dinheiro e viver de bem com as suas finanças”, garante Savio.