De mil reais a um milhão em menos de seis anos

Um milhão de reais não é mais aquilo que costumava ser no passado, mas é um valor que ainda mexe com a imaginação de muitos brasileiros. Alguns argumentam que a palavra “milionário” perdeu seu significado, pois um milhão de reais hoje em dia mal compram um bom apartamento em uma grande capital brasileira, mas esse número um seguido de um monte de zeros ainda faz parte dos sonhos da maioria […] Leia mais
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Você e o Dinheiro

Publicado em 28/11/2011 às 10:01.

Última atualização em 24/02/2017 às 09:43.

Um milhão de reais não é mais aquilo que costumava ser no passado, mas é um valor que ainda mexe com a imaginação de muitos brasileiros. Alguns argumentam que a palavra “milionário” perdeu seu significado, pois um milhão de reais hoje em dia mal compram um bom apartamento em uma grande capital brasileira, mas esse número um seguido de um monte de zeros ainda faz parte dos sonhos da maioria das pessoas como um ideal de vitória e sucesso financeiro.

Uma prova desse fascínio é a quantidade de livros e sites de finanças pessoais e “autoajuda financeira” que exploram a ideia de “como conquistar o primeiro milhão”. Cada um tem a sua fórmula mágica. Alguns se propõem a conseguir isso em vinte, trinta anos… alguns dizem que é possível chegar lá em menos tempo, fazendo aportes mais ousados no meio do caminho.

Pois vou mostrar agora como chegar a um milhão de reais partindo de apenas mil reais, em pouco mais de cinco anos e meio (mais especificamente em 68 meses), e sem fazer aporte algum durante o processo! Apenas fique sentadinho por cinco anos e meio e veja a mágica acontecer!

Meu método para chegar ao primeiro milhão é infalível, mas… bem, esqueci de mencionar um detalhe importante: você vai chegar ao milhão, só que “ao contrário”. Vamos partir de um valor devedor de mil reais e vamos chegar a um milhão também devedor. Afinal de contas, um sinalzinho de mais ou de menos à esquerda do “número um” é apenas um detalhezinho insignificante, não é mesmo? O que importa é que vamos chegar ao milhão!

Vamos então à receita do milhão! Pegue seu cartão de crédito e faça umas comprinhas por aí no valor de mil reais. Quando chegar a fatura, simplesmente não pague. Faça de conta que não é com você e deixe rolar.

Segundo a última pesquisa de juros divulgada pela ANEFAC (de setembro de 2011), a taxa média do rotativo do cartão de crédito no Brasil é de 10,69% ao mês (ou 238,30% ao ano). Só para fins de comparação, nos EUA a taxa do rotativo de um cartão de crédito está por volta de 16% ao ano (esses americanos não estão com nada mesmo…). Agora simplesmente observe a magia da capitalização composta em ação e, voilà, em sessenta e oito meses você terá seu milhão (em dívidas)!

Você já pode sair pela sua vizinhança dizendo para todo mundo que conquistou o primeiro milhão mas, após falar, não se esqueça de virar a cabeça para o lado discretamente e sussurrar baixinho: “em dívidas”.

No entanto, existem alguns obstáculos que podem atrapalhar o “plano do milhão”. Um deles seria se resolvessem cobrar sua dívida judicialmente no meio do caminho (mas esses caras são chatos mesmo!) ou, pior que isso, sua dívida poderia prescrever antes de chegar lá! (mas isso dá para resolver se você começar com um saldo devedor um pouco maior…).

Para finalizar, quero deixar claro aqui que o meu mirabolante “plano do milhão” tem como objetivo mostrar o que uma pequena dívida sem controle pode virar. E, no país onde as pessoas não sabem o que são juros (sabem apenas o que são “parcelinhas que cabem no bolso”), dívidas saem do controle com frequência muito maior do que imaginamos.

Absolutamente, não acho que o cartão de crédito seja um vilão, mas como a taxa dele é a mais alta do mercado, ele acabou virando a “vítima” de ocasião para o efeito que eu queria demonstrar (é, na verdade eu é que fui o vilão do cartão, e não o contrário). Ele é uma excelente ferramenta financeira (eu mesmo tenho quatro e não vivo sem), mas ele não é a ferramenta adequada para dívidas do dia a dia. O rotativo do cartão deve ser considerado um “recurso de emergência” para situações muito específicas, e não uma muleta para quem resolveu transformar o “estar endividado” em estilo de vida.