Estrago econômico do coronavírus deve ser menor do que da gripe espanhola

Com as medidas preventivas implementadas pelo Congresso e alguns governadores, nem de longe o Brasil terá uma “geração perdida”
Metrô: recomendação de organizações da saúde é para que se evite aglomerações (Amanda Perobelli/Reuters)
Metrô: recomendação de organizações da saúde é para que se evite aglomerações (Amanda Perobelli/Reuters)
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Sérgio Praça

Publicado em 27/03/2020 às 16:25.

Última atualização em 27/03/2020 às 20:42.

“Sua geração é perdida”, disse Gertrude Stein para Ernest Hemingway, em francês, em uma tarde dos anos vinte do século XX em Paris. Aos 18 anos, Hemingway havia sido enfermeiro na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Jornalista e escritor, mudou-se para a França para escrever em paz. Ao chegar em casa, Hemingway comentou com a esposa: “Gertrude é legal, mas às vezes fala um monte de merda”. (Mas usou a frase de Stein como epígrafe de “The Sun Also Rises”, seu livro de 1926.)

Após ler um pouco sobre a guerra e a Gripe Espanhola (1918-1919), parece-me que Hemingway errou. Ao menos 45 milhões morreram por causa das duas tragédias do período – 6 milhões na guerra, 39 milhões de gripe (2% da população mundial, equivalente a 150 milhões de pessoas em 2020). As consequências econômicas foram especialmente graves porque os trabalhadores em idade mais produtiva foram dizimados.

De acordo com um estudo dos economistas Sergio Correia, Stephan Luck e Emil Verner, cidades norte-americanas que adotaram intervenções a curto prazo ruins para os negócios durante a gripe espanhola – ou seja, pediram para que cidadãos ficassem em casa –, tiveram menor queda na atividade econômica e recuperaram-se com muito mais rapidez do que as que deixaram todos circularem tranquilos. (“Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu”)

Robert Barro e co-autores demonstram, em outro artigo publicado neste mês, que o efeito negativo médio do crescimento por causa da gripe de 1918-1919 em 43 países foi de 6% a 8% do PIB. Na série histórica analisada no texto, o maior decréscimo do PIB registrado foi de 74% entre 1944 e 1946 na Alemanha. Adolf Hitler suicidou-se com a esposa em abril de 1945. (“The Coronavirus and the Great Influenza Pandemic: Lessons from the ‘Spanish Flu’ for the Coronavirus’s Potential Effects on Mortality and Economic Activity”, José F. Ursúa e Joanna Weng)

Felizmente, a rara cooperação entre partidos políticos no Congresso Nacional e governadores como Eduardo Leite (PSDB, Rio Grande do Sul), João Doria (PSDB, São Paulo) e Wilson Witzel (PSC, Rio de Janeiro) pode dirimir as trágicas consequências do covid-19 no curto e médio prazo.