Desautorizado por Guedes, o “PAC” da Casa Civil ressuscita propostas antigas

O ministro da Infraestrutura apresentou o Programa Pró-Brasil em 2019, mas a proposta só agora tem apoio militar
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Sérgio PraçaPublicado em 28/04/2020 às 19:16.

Em novembro de 2019, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, estava empolgado com o resultado de conversas com investidores estrangeiras. O governo passava por um bom momento. Com a Reforma da Previdência aprovada, outras ideias para fazer o país crescer germinavam no Executivo – especialmente, é claro, no Ministério da Economia. Mas Paulo Guedes subestimou, por exemplo, a dificuldade de aprovar uma Reforma Tributária a seu gosto. Demorou a perceber que perderia a batalha com parlamentares. Deixou seu secretário para o assunto, Marcos Cintra, à deriva.

Tarcísio aproveitou o momento para oferecer um rumo ao governo. Segundo o jornalista Daniel Rittner, o ministro propôs, naquele mês, um plano com dois eixos: “ordem” e “progresso”. Tratar-se-ia de melhorar o ambiente regulatório na área de infraestrutura para atrair investimentos. Obras públicas inacabadas, como vários trechos da BR-163, seriam terminadas com ajuda do setor privado. Desenvolvimentismo à Dilma? Nem tanto. Haveria até um “tinder” das concessões, que poderia juntar investidores inocentes, sugar daddies, a burocratas interesseiros. Algo diferente seria inédito no país.

Freitas e Braga Netto, da Casa Civil, ressuscitaram as propostas de cinco meses atrás em um powerpoint de sete slides – um deles é a capa.

O plano tem um inimigo poderoso: Paulo Guedes. Após a saída de Sergio Moro, Guedes é o único ministro que tem legitimidade fora do bolsonarismo. A perspectiva de ele abandonar o governo é tida como desastrosa no mercado financeiro.

Mas, em tempos de crise, como notou o cientista político John Kingdon em seu clássico “Agendas, Alternatives, and Public Policies”, ideias antes vistas como impossíveis acabam ganhando espaço. As propostas de Paulo Guedes perderam relevância por causa da pandemia e porque o ministro passou os dois primeiros meses de 2020 entrando em encrencas desnecessárias.

Agora sua importância para o governo volta a ter destaque. Pode ser este o último suspiro.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)