E se o governo fosse uma empresa

Na relação entre o governo e seus eleitores quem seria a empresa? E os clientes? Parece óbvio, mas não é.
 (Designed by Freepik.com/Creative Commons)
(Designed by Freepik.com/Creative Commons)
Por Relacionamento antes do MarketingPublicado em 27/01/2020 04:00 | Última atualização em 27/01/2020 05:00Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Parafraseando Seth Goding em seu livro This is Marketing, se você não está no ramo de venda de produtos básicos, você faz marketing.

Criador do termo - e livro de mesmo nome - Permission Marketing, Seth indica que se você vende algo diferente de água (unbranded) ou produtos básicos de consumo, o primeiro passo deveria ser identificar o seu segmento de clientes, trabalhar ferrenhamente com este grupo e ignorar todo o restante.

A assertiva faz muito sentido, principalmente se considerarmos que ele foi um dos grandes evangelistas do marketing direto nos Estados Unidos e no mundo.

E falando de mundo, a cada dia que passa, governo e grandes empresas se tornam mais parecidos. O impacto que estes dois atores têm tido até o presente momento no dia-a-dia do cidadão comum é indiscutível.

Este cenário, entretanto, está mudando. Em minha visão, aqui no Brasil, acho que esta mudança se mostrou mais clara na última eleição.

O desafio é que quando se fala de governo, em um país democrático, não deveria haver distinção ou segmentação de “clientes”, mas a realidade não é bem assim...

Há algumas semanas, acessei o site do governo do Paraná para consultar um determinado serviço de que necessitava. Fiquei positivamente impressionado com a quantidade de serviços e recursos públicos oferecidos através dos meios digitais.

Trabalhando com dados e comunicação, algo rapidamente me chamou a atenção: “Com tanta coisa a ser oferecida, como será que o governo do estado consegue comunicar correta e diretamente tudo isso para o cidadão comum?”

Voltando ao pensamento de Godin, como então segmentar a base de cidadãos? Será que isso faz sentido?

Moro em uma região da cidade de Curitiba de relativo padrão de vida. É comum que mais de uma vez por semana a equipe de limpeza da cidade passe pela região. Mesmo Curitiba sendo conhecida pela limpeza e cuidado públicos, sei que o cuidado que é dedicado na região em que moro não é a mesma em todos os locais da cidade.

Talvez o que eu escreva nas próximas linhas seja óbvio, ou talvez eu esteja redondamente enganado em minha linha de raciocínio mas, até o presente momento, a fórmula é mais ou menos assim:

  • Uma pessoa decide entrar para a política e concorrer a algum cargo de relevância;
  • Se ela não tem recursos próprios – o que me parece ser a maioria – esta pessoa necessitará de recursos para fazer sua campanha;
  • Naturalmente os recursos vem, ou do partido, ou de pessoas que se conectam com o discurso ou propostas. Isso significa que o apoio costuma vir das pessoas com mais recursos. Esse pequeno detalhe, que costuma passar quase despercebido, faz com que a balança dos interesses públicos pese naturalmente mais para um lado do que para o outro da sociedade;
  • Se a pessoa pensa em algum tipo de reeleição ela, provavelmente, irá devolver os favores que recebeu para aqueles que apoiaram sua candidatura;
  • Se esta roda der a primeira volta com alguns acertos, a pessoa é eleita, toma algumas decisões que sejam populares, cuida de quem apoiou sua candidatura, consegue dinheiro para a próxima eleição e assim a vida segue.

Pode até ser uma visão distorcida da minha parte mas, olhando para uma empresa, é natural que se dê maior atenção aos clientes de maior valor (LTV), com maior frequência de compra e que indicam a empresa para o maior número de pessoas.

Levando este mesmo pensamento para o poder público, é natural que haja uma distorção social.

Então será que há alguma alternativa?

Pessoalmente acredito que enquanto o nosso modelo social for baseado unicamente em um modelo capitalista, temos pouca chance de evoluir.

Felizmente o mundo tem mudado e continua a mudar enquanto coloco estes poucos pensamentos no computador. Parte do que começa a ser considerado como a economia dos países ao redor do mundo é a colaboração, a cocriação e modelos mais evoluídos de fund raising. Nem tudo precisa ou dará lucro (monetário). Outras métricas como qualidade de vida, felicidade e bem-estar começam a ser consideradas dentro e fora das empresas.

Este pensamento que deveria ser natural para o poder público tem sido cada vez mais forte dentro das empresas, o que faz com que um influencie o outro e vice-versa.

Voltando à ‘coisa pública’ entendo que é premente incluir práticas como governança, gestão e satisfação de “clientes” e ferramentas de Big Data também naquilo que, em   princípio, deveria ser igual para todos, o que na prática nunca será.