CazéTV: Edgar Diniz, Sergio Lopes, Casimiro Miguel ( o Cazé) (Leandro Fonseca/Exame)
Colunista
Publicado em 9 de março de 2026 às 09h18.
Quando a CazéTV decidiu cobrir os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, a aposta soava contraintuitiva. Um canal nascido na internet brasileira, com DNA de verão e linguagem de rua, transmitindo 470 horas ao vivo de esportes na neve para um país tropical — em pleno Carnaval. O resultado: 76% de todas as citações sobre os Jogos de Inverno no Brasil ficaram associadas ao canal, segundo a Brandwatch. Mais de 1,5 bilhão de visualizações nas redes sociais. E o curling virou fantasia de bloco de rua.
Por trás desses números existe uma operação que revela, com nitidez, a arquitetura do que já se pode chamar de nova televisão brasileira — e o modelo de negócio que a sustenta.
A cobertura foi tratada como prioridade máxima pelas áreas de Conteúdo e Engenharia de Operações. Foram 470 horas de transmissão ao vivo — o equivalente a quase 20 dias ininterruptos de programação — sustentadas por um modelo híbrido: equipe presencial na Itália e uma base estruturada no Brasil controlando transmissão, qualidade técnica e distribuição simultânea em seis plataformas — YouTube, Disney+, SKY+, Prime Video, Samsung TV Plus e TCL Channel.
A distância entre Milão e Cortina d’Ampezzo, as duas cidades-sede, impôs um desafio logístico real. A solução foi descentralizar a operação no terreno, manter mobilidade da equipe in loco e reforçar o controle técnico a partir do Brasil. O objetivo era claro: garantir continuidade de transmissão independentemente da venue, sem inflar a estrutura com um exército de profissionais no campo.
Mas o diferencial da operação não estava no tamanho. Estava na integração. Editorial, engenharia e distribuição funcionavam como uma unidade, o que permitia decisões em tempo real — como abrir uma nova live quando a comunidade pedia. Esse tipo de agilidade seria impensável numa emissora tradicional, onde a grade é sagrada e cada alteração passa por camadas de aprovação.
Um exemplo emblemático dessa lógica foi o tratamento dado ao programa diário Lerigou — referência ao Frozen, da Disney. Transformar uma casa de verdade em estúdio exigiu que o time de Operações preservasse o tom intimista sem comprometer imagem, áudio e qualidade técnica. O resultado foi uma produção que parecia artesanal, mas tinha engenharia de broadcast por baixo.
Se a operação técnica é a infraestrutura, a comunidade é o produto. E aqui reside talvez a inovação mais radical da CazéTV em relação ao modelo televisivo convencional.
O chat das transmissões ao vivo não era um espaço decorativo. Era um instrumento editorial. Durante os Jogos, a comunidade recebeu e enviou quase 80 mensagens por minuto. Mais do que engajamento, o chat influenciou decisões de programação. O caso do hóquei é o mais ilustrativo: a partir da demanda dos fãs, a CazéTV abriu transmissões adicionais com som ambiente — sem narração — e essas lives superaram a audiência de concorrentes que transmitiam com narração tradicional.
A curadoria deixou de ser exclusivamente vertical. A audiência passou a funcionar como cocuradora da grade, num modelo participativo que não tem precedente relevante em coberturas esportivas no Brasil. Milhares de pessoas aprendiam juntas, torciam juntas, explicavam regras umas para as outras em tempo real. A transmissão se transformava em uma experiência coletiva de descoberta — não de consumo passivo.
Para uma geração que descobre que o Irã foi atacado pelo TikTok e não pela TV linear, essa lógica faz sentido intuitivo. A CazéTV entendeu algo que boa parte da mídia tradicional ainda resiste a aceitar: o primeiro contato dessa audiência com qualquer informação acontece nas redes sociais. Os cortes em tempo real, highlights e trechos adaptados para plataformas funcionaram como porta de entrada. Quem era impactado nos feeds migrava para a transmissão ao vivo. Era uma estratégia de descoberta, não de fragmentação.
Houve uma escolha editorial aparentemente simples, mas de consequências profundas: sempre que houvesse um atleta brasileiro competindo, haveria transmissão. Independentemente de chances de medalha. Independentemente de horário. Independentemente da modalidade.
Essa decisão criou vínculo. E o vínculo gerou momentos que extrapolaram o resultado esportivo. Lucas Pinheiro Braathen, depois de conquistar a histórica primeira medalha do Brasil — e da América Latina — em Jogos de Inverno, falou diretamente aos jovens sobre o poder de acreditar em si mesmo, celebrando ao vivo com Fernanda Gentil com a espontaneidade que se tornou assinatura do canal. Edson Bindilatti, veterano do bobsled, agradeceu publicamente à CazéTV por levar sua modalidade a todo o país. Nicole Silveira, após alcançar o melhor resultado brasileiro no skeleton feminino, anunciou o desejo de investir na formação de novos atletas.
A relação entre canal e atletas deixou de ser institucional e passou a ser afetiva. A repórter Bruna Dealtry, por exemplo, virou ritual de sorte da equipe brasileira de bobsled — encontrá-la na linha de chegada se tornou parte da superstição do time. E quando Dealtry fez uma cerimônia simbólica de entrega de Carteira de Identidade Brasileira para Kim Meylemans, atleta belga e esposa de Nicole Silveira, a brincadeira ganhou repercussão internacional: a imprensa belga retribuiu o gesto com a brasileira.
Esse tipo de narrativa não se produz com roteiro. Produz-se com presença, continuidade e uma decisão editorial que prioriza relevância humana sobre audiência provável.
Antes de lançar a CazéTV, seus fundadores imaginavam que o sucesso seria medido da forma convencional: audiência e receita comercial. A realidade reescreveu a tese.
"Rapidamente, descobrimos que o que entregamos vai muito além disso. Entregamos um impacto cultural em como o brasileiro se relaciona com esporte. É uma métrica de comunidade", diz Sergio Lopes, sócio e COO da CazéTV. "Isso passou a ser o que entregamos para nossos fãs, o que as entidades esportivas esperam e o que as marcas patrocinadoras medem."
A frase de Lopes não é retórica. É modelo de negócio. E os números dos Jogos de Inverno validam a tese com precisão: 80 mensagens por minuto nos chats das transmissões, 76% das citações sobre os Jogos associadas à CazéTV e 1,5 bilhão de visualizações do conteúdo olímpico nas redes sociais. Não são métricas de audiência no sentido clássico. São métricas de pertencimento.
Cerca de 70% da audiência tinha menos de 44 anos. Os jovens espectadores assistiram, em média, três horas de Jogos de Inverno. Num universo de atenção fragmentada, três horas de permanência são uma eternidade — e dizem mais sobre a qualidade do vínculo do que qualquer pico de audiência instantânea.
"Para nós, um dos maiores indicadores de engajamento e influência é quando o conteúdo ganha vida fora da tela", complementa Roberto Cabrini, Head de Negócios da CazéTV. "Quando isso acontece, o esporte deixa de ser distante e passa a fazer parte da cultura popular do dia a dia. Nosso objetivo é colocar as marcas presentes nessas conversas e nos momentos culturais de forma autêntica."
A tese de Lopes e Cabrini encontra evidência concreta. O curling — uma modalidade que a maioria dos brasileiros sequer conhecia — virou fantasia de Carnaval. Quando um esporte praticado no gelo entra em blocos de rua no verão tropical, o conteúdo transcendeu a tela e se tornou cultura. Para marcas como Caixa e Visa, patrocinadoras da cobertura, esse tipo de penetração cultural tem valor difícil de replicar em formatos publicitários convencionais.
A distribuição multiplataforma reforça a lógica. O YouTube funcionou como hub de comunidade e interação — o epicentro da conversa. Disney+, SKY+, Prime Video, Samsung TV Plus e TCL Channel garantiram expansão de alcance com sinal linear. A estratégia não foi fragmentar conteúdo, mas ampliar presença mantendo consistência editorial. É uma arquitetura de distribuição que a TV aberta levou décadas para tentar construir com afiliadas — e que a CazéTV montou nativamente em plataformas digitais.
A cobertura dos Jogos de Inverno pela CazéTV não é um caso isolado. É a consolidação de um modelo que vem sendo construído desde as Olimpíadas de Tóquio e que encontrou sua forma mais acabada em Milão-Cortina.
Esse modelo tem três pilares que desafiam a lógica da televisão tradicional. Primeiro, a integração entre operação técnica e decisão editorial em tempo real, eliminando a latência entre o que a audiência quer e o que a programação entrega. Segundo, o tratamento da comunidade não como espectadora, mas como coprodutora — uma inversão de poder que transforma o chat num instrumento de curadoria coletiva. Terceiro, uma estratégia de distribuição que trata cada plataforma como canal com função específica, sem diluir a identidade.
Para o mercado de mídia e entretenimento, a lição é clara: a disputa pela atenção qualificada não se vence com mais tecnologia ou mais telas. Vence-se com pertencimento. Quando 76% da conversa sobre um evento global de inverno passa por um canal brasileiro de internet — no verão —, o que está em jogo não é share de audiência. É relevância cultural.
A CazéTV não inventou a nova televisão. Mas está escrevendo, ao vivo e em tempo real, o manual de como se faz.