Três regras para a pandemia Trump

A resposta dos EUA à ameaça do coronavírus foi tardia e inadequada de um jeito catastrófico
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Paul KrugmanPublicado em 09/04/2020 às 14:11.

Quer dizer que o presidente Trump está chamando a Covid-19 de “vírus chinês”? É claro que está: Racismo e culpar as outras pessoas pelos fracassos dele são as características que definem seu governo. Mas, se nós vamos dar um apelido para isso, me parece muito melhor nos referirmos ao vírus como a “Pandemia Trump”.

É verdade, o vírus não surgiu aqui. Porém, a resposta dos EUA à ameaça tem sido lenta e inadequada de um jeito catastrófico, e a culpa é toda de Trump, que minimizou a ameaça logo no início e até recentemente desencorajava que se tomasse qualquer atitude.

Compare-se, por exemplo, a gestão do coronavírus feita pela América com a da Coreia do Sul. Os dois países reportaram seu primeiro caso no dia 20 de janeiro. Mas a Coreia agiu depressa para implementar testes amplos; ela vem usando os dados dos testes para orientar o distanciamento social e outras medidas de contenção; e lá, a doença parece estar regredindo.

Nos Estados Unidos, por outro lado, os testes mal começaram – nós só examinamos uma fração da nossa população comparado às centenas de milhares da Coreia do Sul, ainda que nós tenhamos seis vezes a população daquele país e que o número de casos aqui pareça estar em disparada.

Os detalhes do nosso fracasso são complexos, mas eles todos convergem em última análise para a minimização que Trump fez da ameaça: Ele garantia que o Covid-19 não era pior que a gripe há coisa de algumas semanas (embora, fiel ao seu estilo, hoje ele esteja dizendo que sabia o tempo todo que uma pandemia estava a caminho).

Por que Trump e sua equipe negaram e enrolaram? Todas as evidências sugerem que ele não queria falar ou fazer nada que pudesse derrubar os preços das ações, que ele parece considerar a medida chave de seu sucesso presidencial. Por isso é que, presume-se, até o dia 25 de fevereiro Larry Kudlow, economista-chefe do governo, declarou que os Estados Unidos tinha “contido” o coronavírus, e que a economia estava “se segurando bem”.

Pense numa aposta ruim. De lá para cá, o mercado de ações vem perdendo todos os ganhos que teve durante a presidência de Trump. E mais importante, ficou claro que a economia está em queda livre. Ou seja, o que nós devemos fazer agora?

Vou deixar a política de saúde para os especialistas. Na questão da política econômica, eu sugeriria três princípios. Primeiro, focar nas dificuldades, e não no produto interno bruto. Segundo, parar de se preocupar com incentivos ao trabalho. Terceiro, não confiar em Trump.

Quando ao primeiro ponto: Muitas perdas de empregos que nós veremos ao longo dos próximos meses não serão somente inevitáveis, mas na verdade desejáveis. Nós queremos que os trabalhadores que estão doentes ou que podem estar fiquem em casa, para “achatar a curva” da propagação do vírus. Nós queremos fechar parcialmente ou totalmente grandes empresas, como fábricas de automóveis, que poderiam servir como uma fazenda de vírus para humanos. Queremos fechar restaurantes, bares e estabelecimentos comerciais não-essenciais.

Sem dúvida, vão haver perdas adicionais e desnecessárias de empregos causadas por uma queda nos gastos dos consumidores e das empresas, e é por isso que nós deveríamos nos comprometer com incentivos significativos generalizados. Mas a política econômica não pode e não deve impedir uma ampla perda de empregos temporária.

O que a política econômica pode fazer é reduzir a crise enfrentada por aqueles que estão temporariamente sem emprego. Isso significa que nós precisamos gastar muito mais em programas como o afastamento por doença remunerado, auxílio-desemprego, vales de comida e o Medicaid, que ajuda americanos em dificuldades, que precisam de muito mais ajuda do que vão obter com um simples derrame de dinheiro em todos os segmentos. Além disso, esse gasto ofereceria um incentivo, mas essa é uma preocupação secundária.

O que me traz ao meu segundo ponto. Os suspeitos de sempre já estão contra-argumentando que ajudar americanos em dificuldades diminui o incentivo para que eles trabalhem. Esse é um argumento fajuto até mesmo em tempos de prosperidade, mas diante de uma pandemia, ele é absurdo. E os governos estaduais que vêm tentando, com o incentivo do governo Trump, a reduzir a assistência pública impondo exigências trabalhistas deveriam suspendê-las imediatamente.

Por fim, sobre Trump: Ao longo da última semana a TV pública – digo, a Fox News – e os especialistas de direita vêm subitamente mudando de postura, de desconsiderar o Covid-19 como uma farsa liberal para passar a exigir o fim das críticas ao presidente neste momento de emergência nacional. Isso não deveria causar surpresa.

Mas é aqui que a história da Pandemia Trump – todas aquelas semanas perdidas em que não fizemos nada porque o presidente Trump não queria dar ouvidos a nada que pudesse prejudicá-lo politicamente – ganha relevância. Ela mostra que, mesmo quando vidas americanas estão em perigo, a política deste governo tem a ver somente com Trump, e com o que ele acha que vai fazer ele parecer bem, e deixem pra lá esse negócio de interesse nacional.

O que isso significa é que, à medida que o Congresso americano libera dinheiro para diminuir a dor econômica do Covid-19, ele não deveria dar a Trump autonomia alguma sobre como gastar esse dinheiro. Por exemplo, ainda que talvez seja necessário fornecer fundos para resgatar algumas empresas, o Congresso precisa especificar as regras sobre quem recebe estes fundos e em que condições. Do contrário, vocês sabem o que acontece: Trump vai abusar de qualquer poder para recompensar seus amigos e punir seus inimigos. É da natureza dele.

Lidar com o coronavírus já seria difícil no melhor dos cenários. Vai ser particularmente difícil quando nós sabemos que não podemos confiar nem no julgamento e nem nas motivações do homem que deveria estar liderando a resposta. Mas você enfrenta uma pandemia com o presidente que tem, não com o que queria ter.