De fake news a números fake

O fato de Trump pedir que agências meteorológicas falsifiquem dados sobre um furacão para proteger seu ego nos leva a questionar o que ele não faria se as agências do governo divulgassem notícias econômicas ruins
Por Paul KrugmanPublicado em 20/09/2019 14:28 | Última atualização em 20/09/2019 14:28Tempo de Leitura: 4 min de leitura

No começo o Canetagate foi engraçado, até onde o presidente dos Estados Unidos agindo feito doido pode ser engraçado. A essa altura do campeonato, porém, não está parecendo nada engraçado; é profundamente preocupante, na verdade, porque nós descobrimos que as principais autoridades do governo exigiram que o Serviço Nacional de Meteorologia – que qualquer um imaginaria que fosse a agência menos política de todas – fizesse afirmações falsas em nome do presidente Trump. E entre as pessoas mais preocupadas com essa história estão os economistas, que estão se perguntando o que isso pode significar para os setores do governo que produzem dados econômicos.

A história até aqui, caso você esteja de fora do que aconteceu nas últimas semanas por algum motivo: Primeiro, Trump declarou que o Furacão Dorian era uma ameaça ao Alabama, enquanto o Serviço Nacional de Meteorologia não previa nada do tipo. De fato, logo após este alerta, o escritório do serviço em Birmingham, temendo que o público entrasse em pânico sem necessidade, divulgou um comunicado garantindo que o Dorian, de fato, não representava ameaça alguma à região.

Na sequência Trump se recusou a admitir que estava errado, e apareceu na TV com um mapa meteorológico que parecia ter sido grosseiramente modificado com uma caneta marca-texto preta para incluir o Alabama na “bolha” que mostrava as áreas em risco.

Até aqui, é hilário. Só que aí a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, da qual o Serviço Meteorológico faz parte, divulgou um comunicado apócrifo afirmando que Trump estava certo. E, recentemente, repórteres do New York Times revelaram o bastidor por trás daquela declaração: Wilbur Ross, o secretário de comércio – cujo departamento inclui a AOAN – estava ameaçando demitir funcionários da agência a menos que eles apoiassem o chefe de Ross. E, ao que tudo indica, foi Mick Mulvaney, o chefe de gabinete interino da Casa Branca, quem disse a ele para fazer isso.

Esta foi uma violação inacreditável das regras de boa administração pública. E foi tudo em nome de algo trivial; isto é, nada além do ego de Trump estava em jogo. O que vai acontecer se e quando as agências do governo começarem a divulgar notícias econômicas ruins, que poderiam custar a eleição de Trump?

Neste momento os dados econômicos dos EUA não estão parecendo algo terrível, ainda que sejam um tanto fracos. O último relatório sobre o desemprego foi frustrante, ainda mais quando se leva em consideração que o emprego está sendo inflado pelas contratações para o censo de 2020. A produção parece estar ligeiramente encolhendo. O “nowcast” – uma previsão de qual será o produto interno bruto com base nos dados disponíveis hoje – do banco de Nova York do Federal Reserve estima um crescimento de 1,5% e caindo; não estamos no campo da recessão, mas é devagar o suficiente para que a taxa de desemprego comece a subir um pouco.

Esses não são os tipos de números que um presidente com forte rejeição em vários temas – mas que afirmou que a economia era seu ponto forte – vai querer ver em época de eleição. Eu não acho exagerado imaginar que, após uma sequência de relatórios decepcionantes, Wilbur Ross irá botar pressão sobre o Escritório de Análise Econômica – o braço do Departamento de Comércio que produz as estimativas do PIB – para apresentar números melhores, e que o Escritório de Estatísticas do Trabalho, que produz relatórios de emprego e estatísticas da inflação, irá ter de lidar com pressão semelhante.

Um motivo para se estar particularmente preocupado é que os republicanos em geral, e Trump em particular, já têm um histórico de se recusarem a aceitar dados econômicos dos quais eles não gostem. Alguém deve se lembrar de quando Trump minimizou os relatórios positivos de empregos do presidente Barack Obama, dizendo que eram fake. Fora isso, um número grande de conservadores, após prever que as políticas econômicas da era Obama produziriam uma inflação fora de controle, passaram anos insistindo que os números oficiais que mostravam uma inflação baixa estavam errados.

Ou seja, é muito fácil imaginar que, quando os números da economia começarem a aparecer com dados pobres ou no mínimo desanimadores, os trumpistas vão afirmar que são vítimas de sabotagem do deep state [nome dado por Trump a um suposto aparato do governo americano que seria desconhecido do público], e a colocar pressão nas agências de estatísticas para maquiar os números.