Os excessos e correções do fator humano que impactam nos investimentos

Os investidores enfrentam dois grandes riscos: o de perder dinheiro e oportunidades
 (Getty/Getty Images)
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Panorama EconômicoPublicado em 19/09/2022 às 10:15.

Na medida em que a inflação assumiu o papel central, os mercados entraram em retração globalmente em todas as classes de ativos. A razão, para o aumento de aversão a risco, foi que os mercados passaram a reavaliar suas percepções quanto à extensão dos ciclos de altas de juros na maior parte do mundo.

No entanto, muito mais perguntas do que respostas aumentam a aversão à riscos por parte do investidor. Para colocar o risco em perspectiva, é melhor começar com uma definição de risco compreensiva e abrangente, ou seja, pensar nele como uma combinação de perigo (desvantagem) e oportunidade (vantagem). Os investidores enfrentam dois grandes riscos: o risco de perder dinheiro e o risco de perder oportunidades.

Em todas as classes de ativos, há uma variedade de alternativas de investimento, sendo algumas seguras e outras arriscadas. A fim de alcançar resultados superiores, um investidor deve ser racional e capaz para determinar o que é melhor – com alguma regularidade – encontrando assimetrias, isto é, instâncias em que o potencial de alta supera o risco de perda permanente.

A perda permanente é muito diferente de volatilidade ou flutuação dos preços dos ativos. O preço de um ativo é baseado em fundamentos e como as pessoas veem esses fundamentos.   Dessa maneira, a mudança no preço de um ativo é baseada em uma mudança nos fundamentos ou em como as pessoas veem isso.

Uma perda permanente pode ocorrer por um dos dois motivos:

  • Uma queda temporária é interrompida quando o investidor vende durante uma queda - seja por causa de uma perda de convicção, alteração do seu horizonte de investimento, exigência financeira ou pressões emocionais;
  • O próprio investimento é incapaz de se recuperar por razões fundamentais. Podemos superar a volatilidade, mas nunca desfazer uma perda permanente.

Desse modo, certas categorias de investimento são reguladas pela expectativa média dos investidores que negociam entre si, tal como o preço das ações, em vez de expectativas genuínas do negócio. Todavia, as reavaliações diárias da bolsa de valores, embora se destinem, principalmente, a facilitar a transferência de investimentos já realizados entre indivíduos, exercem, inevitavelmente, uma influência decisiva sobre os investimentos correntes.

Assim, os investimentos que são “fixos” e representam negócios tornam-se “líquidos” para o indivíduo.

É como se um agricultor, tendo examinado seu barômetro após o café da manhã, retirasse seu capital da atividade agrícola entre as dez e as onze da manhã, para reconsiderar se deveria investi-lo mais tarde, durante a semana por exemplo.

Logo, não são apenas os aspectos fundamentais que determinam os preços de mercado. É também o comportamento em massa, que vem em ondas de tempos em tempos, que leva a ciclos de mercado que se mostram excessivos. As pessoas ficam muito otimistas, depois ficam muito pessimistas. Elas ficam muito gananciosas e por consequência, ficam com muito medo. Tornam-se crédulos demais, depois se tornam céticos demais, e assim por diante. Elas tornam-se muito tolerantes ao risco e, em seguida, tornam-se muito avessos ao risco.

Portanto, a grande questão que todos nós enfrentamos é se a atual correção dos excessos é temporária conjuntural ou de longo prazo estrutural. Caso seja temporária, há esperança não apenas de recuperação, mas de uma forte recuperação nos preços dos ativos de risco. Por outro lado, se for de longo prazo, os mercados podem se estabilizar, mas os ativos mais arriscados terão preços deprimidos por mais tempo. As quedas de preços geram mais pessimismo, e esse processo ocasiona oportunidades assimétricas - um erro de precificação em relação aos fundamentos dos ativos.

*Ronan Botelho Bonnemasou é sócio e gestor de recursos da Alphamar investimentos.