Sede do Banco Central (Leandro Fonseca/Exame)
Panorama Econômico
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 13h41.
A Selic perto de 14% ao ano costuma ser lida pela ótica do crédito, o quanto custa tomar dinheiro emprestado. É uma leitura incompleta. Antes de ser custo, o juro básico é uma régua. Ele define o retorno mínimo que qualquer capital passa a exigir para valer a pena, do grande grupo de capital aberto à empresa familiar de médio porte. A decisão que sobra na mesa do empresário é desconfortável: aplicar no título mais seguro do país e não fazer mais nada, ou trabalhar sete dias por semana no próprio negócio para talvez chegar a uma rentabilidade parecida.
Vencer a Selic significa gerar retorno sobre o capital investido acima do que o dono obteria deixando o dinheiro parado em um título público. A conta é simples e desconfortável. Um negócio que entrega 12% de retorno sobre o capital parece saudável, mas perde para uma aplicação sem risco que rende 14%. Se a empresa emprega capital e devolve menos que a taxa livre de risco, não está criando riqueza. Está destruindo, ainda que o balanço mostre lucro contábil. A régua não é invenção do momento. O clássico livro “Valuation”, da McKinsey, reduz a criação de valor a dois pilares. O primeiro é que retorno e crescimento andam juntos. Crescer multiplica valor quando o negócio rende mais do que custa o dinheiro que o financia, tanto o do sócio quanto o do banco, e multiplica destruição quando rende menos. O segundo é transformar esse retorno em caixa, porque lucro contábil que não vira dinheiro disponível não paga dívida nem remunera sócio. O conceito não é exclusivo de companhias listadas. O dono de uma empresa fechada tem o mesmo custo de oportunidade, mesmo quando não coloca isso em uma planilha.
E o juro alto não aparenta ser passageiro. A curva futura mostra taxas elevadas por anos. Em julho, o DI para janeiro de 2027 rodava perto de 14%, e o Boletim Focus coloca a Selic ao redor de 12% em 2027 e 10,5% em 2028. Descontada a inflação, o juro real segue entre os mais altos do mundo. A régua não vai baixar tão cedo, e planejar supondo alívio rápido é apostar contra o que o próprio mercado precifica.
Os números de quem não acompanha esse ritmo já apareceram. O Brasil fechou 2025 com o maior volume de recuperações judiciais da série da Serasa Experian, 2.466 empresas, alta de 13% sobre o ano anterior. Em janeiro de 2026 havia 8,7 milhões de CNPJs negativados. E o próprio instrumento tem funcionado menos. A parcela que vai à falência mesmo depois de entrar em recuperação subiu para cerca de 30% no segundo trimestre de 2025, ante patamares próximos de 20%.
Mais revelador que os totais é o comportamento por trás deles. As recuperações extrajudiciais, usadas para renegociar dívida fora dos tribunais, saltaram de 16 casos em 2021 para 84 no ano passado, segundo a Serasa Experian, e passaram a alcançar grandes grupos, como a Raízen, com cerca de R$ 65 bilhões neste ano, as Casas Bahia e o GPA, cada um na casa de R$4 bilhões. Tamanho não protege ninguém quando a estrutura de capital não fecha.
O outro lado do filtro aparece em quem sequer chega a testá-lo. A B3 está há mais de quatro anos sem um IPO, o último ainda em 2021. Não é falta de dinheiro. Em 2025 o mercado de capitais bateu recorde, R$ 838,8 bilhões, dos quais R$ 737 bilhões em renda fixa e R$ 492,9 bilhões só em debêntures. A renda variável ficou em dez follow-ons e R$15,5 bilhões, nenhum IPO. O capital existe e está sendo alocado em volume recorde, só que exige a régua e prefere o instrumento em que ela vem com prazo e garantia. E a porta fecha pelos dois lados. O comprador não paga caro por negócio que rende menos que a régua, e o dono não aceita vender pelo preço que o juro alto impõe às ações. Empresa vem à bolsa quando a taxa cede e o mercado volta a pagar mais, e é por isso que a fila de IPOs reabre junto com o ciclo de cortes, não quando os negócios melhoram.
O ponto comum entre as empresas que não atravessaram o ciclo não é falta de faturamento. É custo financeiro maior que a capacidade de gerar caixa. A janela de dinheiro barato foi curta, quase dois anos com a Selic abaixo de 5%, mas bastou para contratar dívida longa e aprovar projeto que só se pagava com aquele juro. A taxa foi embora, o compromisso ficou. Um trimestre bom qualquer empresa entrega. O que decide é repetir isso por anos, inclusive nos ruins. Essa durabilidade depende de uma vantagem difícil de copiar, o que a literatura de investimentos chama de fosso econômico, ou moat. Em “Why Moats Matter”, Heather Brilliant e Elizabeth Collins, da Morningstar, definem esse fosso como a barreira estrutural que protege da concorrência a rentabilidade de uma empresa e sustenta o retorno sobre o capital por muito tempo. A ideia é mais antiga que o vocabulário. Michael Porter, em “Competitive Advantage”, já organizava as barreiras à concorrência em acesso privilegiado a recursos, vantagem de custo por escala, força de marca e eficiência operacional. O moat da Morningstar é a tradução financeira de uma tese de estratégia dos anos 1980. Na prática, o fosso vem de quatro fatores concretos.
O primeiro é poder de precificação. Quem consegue repassar custo sem perder cliente defende a margem. O segundo é eficiência de capital. Negócios que vendem muito sem imobilizar muito ativo dependem menos de crédito. O terceiro é disciplina de alocação. Só faz sentido investir em projeto que renda acima do custo de capital, o que exige recusar o crescimento que não paga. O quarto é estrutura de capital. Dívida curta e cara consome o resultado antes que ele chegue ao empresário. A Petrobras de Roberto Castello Branco é o caso brasileiro dos dois últimos em execução: desinvestindo do que não gerava valor, elevando a geração de caixa e alongando vencimentos com crédito de melhor qualidade.
Há um lado menos comentado. O juro alto recompensa quem chega bem posicionado. Empresa com caixa líquido e pouca dívida enfrenta concorrentes frágeis, compra ativos descontados e ganha espaço enquanto os endividados recuam. A disciplina financeira, que em ciclos de dinheiro farto parecia conservadorismo excessivo, vira vantagem competitiva quando o crédito seca. Luis Stuhlberger resume isso no livro “Fora da Curva” quando diz que compra seguro para tempestade em dia de sol.
Nenhum desses fatores é novidade. A diferença é que, com dinheiro barato, dava para errar em vários deles e seguir de pé. Com juro alto há anos e sem previsão de queda relevante, a margem de erro some. Morgan Housel, em “A Psicologia Financeira”, insiste que o que separa quem fica de quem sai não é o retorno do melhor trimestre, é a capacidade de sobreviver aos piores. O juro alto não cria bons negócios, mas expõe rápido os que nunca foram. Para o empresário, a pergunta deixou de ser como financiar o crescimento. Passou a ser se o retorno do negócio ainda vence a régua.
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Marcus Prado é sócio e Diretor de Expansão do Clube do Valor. Administrador formado pela UFRGS, é gestor de carteiras credenciado pela CVM e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE).
O Clube do Valor é uma consultoria de investimentos e multi-family office com mais de R$ 6 bilhões sob custódia.