Crescimento sustentável do Brasil vai depender de reformas (Ricardo Stuckert/ Fotos Públicas)
Panorama Econômico
Publicado em 4 de maio de 2026 às 17h48.
O problema de se tomar analgésicos durante uma infecção, antes de diagnosticar e tratar a causa adequadamente, é que os sintomas melhoram e os pacientes indisciplinados podem achar que o problema foi resolvido. Confundir consequência com causa é um erro que custa muito caro na medicina, mas não só nela.
Na economia, a dinâmica não é diferente. A história está repleta de casos de países que, com intenção ou não, se apegaram às consequências de uma dinâmica e terminaram mal. Um exemplo típico intencional costuma ser o dos países onde políticos resolvem derrubar juros na canetada, enfrentando a consequência e ignorando a causa (déficit, falta de governança etc.). Já casos não intencionais costumam ocorrer em tempos de bonança externa, ou seja, quando o mundo vai bem e os políticos acreditam que eles são responsáveis pela melhora local.
Infelizmente, o Brasil produz os dois exemplos com frequência. Do lado intencional, já tivemos um Banco Central baixando artificialmente as taxas de juros – o que foi um dos inúmeros fatores da grande crise do governo Dilma. Do lado não intencional, o Estado brasileiro não aproveitou a bonança externa dos anos 2000.
Gráfico 1: evolução da produtividade de países selecionados

Reformas da Previdência, Trabalhista, Administrativa, DRU etc. Havia uma cesta de medidas já conhecidas para se pavimentar o caminho da prosperidade, através de aumentos na taxa de investimento e da eficiência pública e privada. A Reforma da Previdência, por exemplo, teve uma tentativa de aprovação em 1998, quando FHC perdeu por 1 voto no Congresso. O governo seguinte, Lula 1 e 2, gozava de popularidade para aprovar essa e outras inúmeras reformas, mas nada fez.
O aumento da produtividade nos anos 2000 ocorreu apesar do governo, não por causa dele
Enquanto o Brasil tem passado por “voos de galinha” em seus saltos de renda e produtividade, é possível reparar que países que fazem constantemente reformas têm apresentado uma trajetória menos volátil de aumento da produtividade. Por exemplo: no início dos anos 2000, a produtividade por hora trabalhada no Brasil equivalia a cinco vezes à indiana; já em 2023 esse número havia caído pela metade, para cerca de 2,5 vezes. Já em Taiwan, a hora trabalhada, que no início dos anos 1970 equivalia a 1,6 a hora brasileira, hoje equivale a cerca de 3 vezes. Seja um país pobre ou rico, quem fez reformas aumentou sua produtividade de forma consistente e mais rápida que o Brasil.
Não será surpreendente se nas próximas décadas a Índia empatar com o Brasil, mesmo com desafios imensamente maiores – a começar pela população de 1,4 bilhão de habitantes. Ora, famosa décadas atrás por suas condições sanitárias precárias, hoje a Índia já ultrapassou o Brasil em alguns indicadores de saneamento básico.
Índia fez não uma, mas inúmeras reformas
Nos últimos 50 anos, a Índia tem remado no sentido oposto do Brasil. No início dos anos 1990, o país fez uma abertura econômica de verdade, ao desmontar o “License Raj”, um marco regulatório protecionista que perdurou entre 1951 e 1991. Desde então, sua corrente de comércio saltou de cerca de 15% do PIB para 45% do PIB em 2024. Em 2016, o país fez sua Reforma Tributária, o “Goods and Services Tax”, por emenda constitucional. Também em 2016, aprovou o “Insolvency and Bankruptcy Code” para melhorar a execução de garantias em caso de calote, elevando as taxas de recuperação de crédito, entre outras reformas.
Sistema de proteção social grande demais impede crescimento da poupança?
Enquanto o Brasil passou a ter gastos sociais (benefícios, saúde e educação) similares aos europeus (acima de 20% do PIB, sendo mais de 10% apenas de proteção social), mesmo não tendo renda para isso, os governos indianos optaram por focar em investimentos. Em outras palavras, enquanto o Brasil enviava cheques e auxílios para sua população jovem, a Índia construía pontes, estradas, aeroportos e ferrovias. O gasto social indiano subiu, mas nem perto do brasileiro e segue na casa do um dígito do PIB. Em um mundo de fantasias, o ideal seria conseguir investir e distribuir ao mesmo tempo, mas é importante lembrar que os recursos são escassos – ciência econômica. Dito isto, o que é melhor quando se é um país ainda jovem e de baixa renda: investir no futuro ou expandir o assistencialismo?
Hoje o Brasil perdeu seu bônus demográfico e envelheceu sem infraestrutura, já a Índia segue investindo cerca de 30% do PIB (quase o dobro do Brasil) e pavimentando as fundações de um ciclo mais duradouro de crescimento.
Gráfico 2: taxa de investimento indiana, que era menor, superou a brasileira

Nas últimas semanas, observamos uma nova onda de euforia externa com o Brasil, que levou o dólar a cair para baixo de R$5,00 e o Ibovespa a um novo recorde histórico em reais (muito embora ainda longe de seu topo em dólares, em 2008). Há um “hype” no mercado de que o Brasil seja o emergente queridinho da vez, o “novo ouro” nas palavras do Bank of America. São motivos pouco endógenos, como neutralidade geopolítica, reservas naturais, mercado consumidor grande etc.
Para o observador mais atento, porém, é importante se perguntar: o que de fato o país está fazendo para mudar as estruturas de sua dinâmica econômica? Se a resposta for algo como “nada relevante”, assim que o fluxo externo cessar a realidade de sempre se imporá: a de um país incapaz de investir, endividado, que não consegue aumentar sua produtividade e cuja população pouco qualificada não experimenta ganhos de renda em dólares há mais de dez anos. O fato de a maré externa ditar tanto de nossos mercados é um indicador de que não fizemos a lição de casa, e não o oposto.
João Henrique da Fonseca: economista e sócio fundador da Azul Wealth Management (AWM), com mais de R$1,3 bilhão sob gestão.