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Busque de forma definitiva e estruturada a segurança e as oportunidades de crescimento que um portfólio internacional oferece
 (Ricardo Moraes/Reuters)
(Ricardo Moraes/Reuters)
Por Panorama EconômicoPublicado em 23/05/2022 15:47 | Última atualização em 23/05/2022 15:47Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Por Fabio Freitas, CFP®*

Ao longo dos anos vivenciamos os períodos próximos às eleições brasileiras como momentos de crescentes incertezas sobre o futuro da economia e de nossa sociedade como um todo. Mudanças de grupos de poder podem gerar intensas reviravoltas econômicas, fiscais e legais, a potencialização de ambientes corruptos e até mesmo ameaças à democracia. Neste contexto é muito comum vermos investidores em busca de proteção patrimonial. Quando o cenário se apresenta mais ameaçador, o medo toma conta dos investidores e uma das formas de defesa mais utilizadas acaba sendo o envio de patrimônio financeiro para o exterior.

Infelizmente, esses momentos de ameaças de rupturas são os grandes períodos de internacionalização de capital por parte dos brasileiros. As remessas cambiais são feitas desesperadamente, em grandes volumes e por qualquer cotação que esteja em vigor. Isso não deveria ser assim. Deveríamos ter uma meta de internacionalização de patrimônio como um dos produtos de um planejamento financeiro sólido, realizado de maneira organizada e disciplinada por todos os investidores ao longo de suas vidas.

Investir globalmente deveria ser considerado um projeto de vida, um objetivo pessoal e familiar para todos os investidores. Representa buscar, antes de qualquer coisa, a segurança e a diversificação necessárias para a preservação do patrimônio. Não existe pensar em rentabilidade (embora o exterior também possa ser muito rentável), antes de garantir a continuidade do estoque patrimonial. Caso exista a preocupação com a perpetuação do patrimônio e desejo por previsibilidade sobre o futuro, este deveria ser o caminho natural para a alocação. Um portfólio internacional é a possibilidade que os recursos sejam investidos em países mais desenvolvidos e maduros, com instituições mais fortes, leis mais claras e longevas, com sistemas financeiros sólidos, nas principais moedas do mundo, através de gestoras de recursos especializadas de porte incomparável, em empresas muito mais desenvolvidas, com mercados mais eficientes e com maior amplitude de alternativas e estratégias.

Em diversos momentos o Brasil apresentou problemas que preocuparam (ou que ainda preocupam) seus investidores. Não é apenas uma característica nossa. Países financeiramente mais frágeis e complicados politicamente, como México, Rússia, Argentina, Equador, Turquia e Grécia também apresentam, recorrentemente, ameaças ao patrimônio de seus cidadãos. As situações mais recentes e graves se materializaram ao longo dos últimos 40 anos em eventos de 1) calotes e renegociações da dívida pública, 2) bloqueios e feriados bancários proibindo saques por parte da população, 3) controles de capitais que proibiram, parcialmente ou totalmente, que os indivíduos enviassem recursos para fora de seus respectivos países ou 4) pesadas tarifas para que remessas de capitais fossem autorizadas.

Além destas drásticas rupturas, não podemos desprezar os eventos aparentemente menos impactantes, mas que na verdade também são de extrema relevância econômica, os chamados calotes lights. O calote light interno é aquele que uma consistente inflação elevada destrói o poder de compra de seus residentes, gerando empobrecimento contínuo e generalizado para a população. Um caso agressivo deste movimento foi a hiperinflação do Brasil na década de 1980. Desde 1982 superamos 100,00% ao ano e em 1989 alcançamos quase inimagináveis 2.000% de inflação anual. Já o calote light externo ocorre com grandes desvalorizações cambiais, diminuindo ou eliminando a possibilidade de que os moradores daquele país possam ter capacidade financeira e poder de consumo em outras localidades no mundo. A Argentina é um dos grandes exemplos recentes. Ao final de 2003, um Dólar era aproximadamente 3 Pesos. Atualmente em 2022, a cotação alcançou inacreditáveis 118 Pesos Argentinos por cada Dólar Americano.

Existe um mito que o processo de internacionalização patrimonial se justifique apenas por motivações defensivas e de proteção. Definitivamente isso não é verdadeiro. A imensa maioria das famílias com elevado patrimônio possui parcelas significativas de suas riquezas no exterior, com objetivos que vão além apenas da defesa contra possíveis rupturas do Brasil e do Real.

Inicialmente precisamos tangibilizar algo simples: o mundo é muito maior do que o Brasil. Essa óbvia afirmação se reproduz em métricas muito expressivas quando nos referimos às economias e aos mercados financeiros como um todo. Sem ter o objetivo da exatidão (pois estamos em um momento único de volatilidade global, com quedas generalizadas em praticamente todas as classes de ativos), o PIB e os tamanhos dos mercados de renda fixa e de ações no Brasil não chegam a representar 3,00% dos respectivos dimensionamentos do PIB e destes mercados no mundo. O que isso significa? Que mais de 97,00% das oportunidades de investimentos em renda fixa e em ações não está no Brasil, mas sim em outros países, representando oportunidades diretas de rentabilização e de crescimento para os recursos dos investidores.

Ao se diversificar globalmente, também se torna possível que as carteiras de investimentos surfem outros ciclos econômicos além do local, gerando mais oportunidades de ganhos e de redução de volatilidade para os portfólios como um todo em diversos cenários econômicos e de mercado. Motivações setoriais também são muito relevantes, pois simplesmente não temos (ou temos muito pouco) em nosso país o desenvolvimento de diversos segmentos de uma economia: tecnologia e suas ramificações (hardware, software, nuvem, inteligência artificial, robótica, games, 5G, internet das coisas, entre outros), laboratórios farmacêuticos e biotecnologia como um todo, o próprio setor petrolífero (com basicamente um player dominante no Brasil), empresas ligadas à economia verde, energia limpa, entre outras diversas alternativas praticamente inexistentes no mercado de capitais brasileiro. Em outras palavras, investir no exterior permite que um investidor aproveite para rentabilizar seu patrimônio com a fronteira de inovação e de desenvolvimento corporativo e tecnológico do mundo que definitivamente não se encontra no Brasil.

Em uma próxima oportunidade pretendo criar um conteúdo com foco mais operacional e menos conceitual, para contribuir, na prática, com o investidor que pretenda realizar seu projeto de internacionalização patrimonial.

*Fabio Freitas, CFP® é Economista formado pela Universidade Federal Fluminense, Consultor de Valores Mobiliários e Sócio Fundador da Progredir Investimentos responsável pela Estratégia e Alocação de Recursos. A Progredir Investimentos é um Multi Family Office fundado em 2010. Atua de forma independente e isenta de conflitos de interesses, integrando investimentos e planejamento financeiro e patrimonial de famílias com no mínimo R$ 1 milhão em liquidez.