Secretário de Estado Marco Rubio fala a jornalistas em viagem no Aeroporto Internacional John C. Munro Hamilton, em Hamilton, Ontário (Getty Images)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 4 de março de 2026 às 18h08.
Há discursos que se dissolvem no instante em que terminam e há aqueles que trazem à tona a longa duração da história. A intervenção do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique inscreve-se na segunda categoria. Foi um dos mais articulados pronunciamentos recentes sobre o destino do Ocidente, tanto pela ambição intelectual quanto pela tentativa de recolocar a política internacional no plano da civilização e da memória compartilhada.
Sem a agressividade retórica que marcou a intervenção no ano passado por Pete Hegseth, Secretario da Guerra dos EUA, e que levou o Presidente do evento às lágrimas: Rubio adotou um tom mais reflexivo e mobilizador. Dirigiu-se à Europa como quem convoca um aliado histórico a reencontrar sua confiança civilizacional, lembrando suas conquistas institucionais, o legado do direito, a centralidade do cristianismo na formação de sua identidade pública e a responsabilidade estratégica acumulada ao longo do século XX. Ao afirmar que os Estados Unidos são “a child of Europe”, o que fez foi evocar o pertencimento mútuo e a continuidade histórica, numa linha que remete à longa duração de Fernand Braudel e às teses civilizacionais de Samuel Huntington.
A arquitetura do discurso foi cristalina. Justamente por isso, a lacuna que dele emerge torna-se mais evidente. Ainda que o público fosse europeu, a definição do que seja o Ocidente não poderia, reflito, se limitar apenas aquela sala de conferência. Ela é por definição fisicamente e culturalmente, muito maior.
Se o objetivo era reafirmar a comunidade histórica do Ocidente, surpreende a invisibilidade da América Latina. A região apareceu apenas como referência lateral à crise venezuelana, como se fosse periferia geopolítica e não parte constitutiva do mesmo universo cultural invocado em Munique.
A América Latina reúne cerca de 650 milhões de habitantes. É produto direto das matrizes europeias citadas por Rubio. O direito romano estrutura seus códigos; a tradição ibérica moldou suas instituições; o cristianismo deixou marca profunda em sua vida pública; a experiência republicana consolidou-se como horizonte dominante. O Brasil abriga dezenas de milhões de descendentes de italianos e de norte-europeus , além da base portuguesa que lhe deu forma estatal. Argentina e Uruguai são fortemente marcados pela herança hispano-italiana. Trata-se de um espaço demográfico e culturalmente vital, potencial, que contrasta com o envelhecimento europeu.
A ausência torna-se ainda mais significativa diante do acordo entre União Europeia e Mercosul, que avança lentamente em suas ratificações finais. Se o discurso pretendia fortalecer o eixo atlântico, a omissão desse movimento estratégico soa incongruente. A lentidão europeia em concluir o processo poderia ter sido objeto de crítica construtiva, sobretudo num momento em que se discute o futuro da ordem econômica internacional. Ignorar o tema sugere mais que um lapso; revela uma geografia mental ainda restrita ao Atlântico Norte.
Causa também estranheza o fato de Rubio ser de origem cubana, expressão da forte presença hispânica nos Estados Unidos. A influência latina foi decisiva na transformação da Flórida em um dos estados mais dinâmicos da federação, ao lado do Texas, igualmente marcado por essa presença. A vitalidade econômica e cultural desses estados demonstra que o universo atlântico não termina na fronteira anglo-saxônica.
Há ainda outra dimensão raramente mencionada quando se fala nos “filhos da Europa”. Estados Unidos e Brasil compartilham não apenas tradições institucionais europeias, mas também marcas profundas da escravidão e da relação violenta com populações autóctones. A diferença histórica não está na ausência dessas feridas, mas na forma como cada sociedade lidou com elas. A experiência latino-americana, em especial a brasileira, desenvolveu um processo amplo de miscigenação que, com todas as suas contradições, produziu uma síntese cultural singular. Reconhecer essa trajetória não é aderir a um progressismo ideológico, mas admitir um progresso civilizacional na capacidade de integração social, que de fato em ambos os casos deixa muito a desejar.
Se o Ocidente busca renovação, ela não poderá prescindir de sua dimensão latino-americana. A região concentra recursos estratégicos, juventude demográfica, ainda, afinidade cultural e possibilidade de expansão econômica pacífica. Sob uma releitura contemporânea do conceito de espaço vital — entendido não como expansão coercitiva, mas como campo de cooperação e projeção institucional — a América Latina constitui o principal espaço de continuidade histórica do Ocidente no século XXI.
O discurso de Munique foi consistente e ambicioso. Mas, exatamente por sua qualidade, a omissão da América Latina e do acordo Europa-Mercosul cria uma tensão interna na própria narrativa; trata-se aqui não apenas de reivindicação retórica, mas sim de abrangência coerência estratégica.
Toda grande visão civilizacional depende da amplitude do seu mapa mental. Se o Ocidente pretende renovar-se, precisará reconhecer que sua continuidade histórica não se encerra no Atlântico Norte. Ela se estende, demográfica e culturalmente, ao sul do hemisfério.
Sem a América Latina, o renascimento do Ocidente, destacado no discurso de Munique, será menor. Num mundo de expansão e renascimento cultural chines e de expansão islâmica, abrir mão do espaço da América Latina na fórmula de renascimento ocidental não faz sentido. Legitimar a América Latina neste renascimento será mais poderoso, mais amplo, mais jovem e mais coerente com a própria história que pretende preservar.