Colunista
Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 08h00.
O ano de 2026 começa com um sinal claro no mercado de trabalho brasileiro. Em meio ao hype permanente de inteligência artificial e automação, uma categoria volta ao centro do tabuleiro corporativo: profissionais de conformidade tributária, planejamento fiscal e consultoria regulatória.
Entre todas as especialidades jurídicas, a profissão de advogado tributarista é atualmente a que mais cresce e a mais buscada pelas empresas brasileiras. O desafio é que esses profissionais são extremamente difíceis de encontrar no mercado, criando um gap significativo entre oferta e demanda. Os advogados que militam na área tributária estão fazendo muito sucesso, surfando a onda de transformações complexas oriundas da reforma tributária.
Não é à toa que, pela primeira vez, o livro mais vendido de 2025 foi um livro jurídico — o primeiro best-seller jurídico da história do mercado editorial brasileiro, um livro sobre planejamento tributário inteligente, denominado "Direito Tributário Digital".
Esse movimento não é ocasional: reflete uma mudança estrutural no papel estratégico que a expertise fiscal passou a ocupar nas organizações.
Existe um ponto incômodo que o mercado costuma evitar, mas que aparece com clareza em falas de executivos. Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina, resumiu uma dinâmica comum: profissionais entram por habilidades técnicas e saem por falta de habilidades interpessoais.
A lista "Empregos em Alta 2026", do LinkedIn, ajuda a ilustrar esse movimento. O relatório analisou dados de 1º de janeiro de 2023 a 31 de julho de 2025, mapeando as 25 funções com crescimento mais acelerado no mercado de trabalho brasileiro. No ranking, funções ligadas a planejamento e controle de risco aparecem com força, incluindo planejador financeiro (3º), consultor de assuntos regulatórios (4º) e consultor de investimentos (9º). O dado relevante não é a curiosidade estatística, mas o que ela revela: empresas voltam a pagar caro por previsibilidade, governança e engenharia de conformidade em um ambiente regulatório que muda rápido.
Mais do que uma lista, isso funciona como um termômetro público de movimento real de mercado. O LinkedIn virou um dos lugares onde essa mudança aparece primeiro, porque ali a demanda se materializa em vagas, competências exigidas e migração de profissionais entre setores. O ponto não é "a plataforma". É o sinal.
A partir de 1º de janeiro de 2026, conforme estabelecido pela Emenda Constitucional 132/2023 e Lei Complementar 214/2025, a transição exige que documentos fiscais eletrônicos tragam o destaque de CBS e IBS, em uma fase de testes voltada à validação de fluxos de informação e ajuste de sistemas. Em termos práticos, o país entra em um período em que o "como fazer" passa a importar tanto quanto o "o que muda".
Essa etapa é frequentemente subestimada. Reformas tributárias não falham apenas por desenho de alíquota, falham por implantação mal calibrada, parametrização errada, integração defeituosa e governança confusa. E em um ambiente digital, qualquer erro não fica local: ele escala.
Pesquisas de mercado mostram um padrão recorrente: a maioria das empresas entende que será impactada, mas poucas iniciam a adaptação com profundidade. Um estudo da Systax apontou que mais de 60% das empresas preveem impacto direto, enquanto só uma minoria já atua de forma estruturada para se adequar. Esse descompasso cria um espaço de alto valor para quem consegue fazer a ponte entre jurídico, finanças e tecnologia.
O mercado não procura mais um intérprete da norma isolado em PDFs. Procura alguém que transforme norma em operação, e operação em segurança.
Exemplo prático: Uma empresa varejista com 200 lojas físicas e operação de e-commerce precisará revisar completamente sua parametrização de ERPs para que o sistema identifique automaticamente, em cada transação, qual tributação aplicar (regime atual ou regime de transição IBS/CBS), calcule corretamente os créditos permitidos na cadeia de suprimentos, e envie os dados fiscais nos formatos exigidos pelos diferentes entes federativos. Um erro em qualquer etapa dessa cadeia pode gerar indisponibilidade de créditos tributários da ordem de milhões de reais, comprometendo a margem operacional em categorias de baixa rentabilidade.
A modernização fiscal brasileira torna essa transição mais exigente do que parece. O fisco opera cada vez mais como uma infraestrutura de dados, com obrigações eletrônicas e validações automatizadas. Nesse contexto, compliance deixa de ser um checklist no fim do mês e vira parte do produto, do ERP e do fluxo de caixa.
Mecanismos como split payment entram no radar justamente porque empurram a tributação para o momento da transação, exigindo integração mais profunda entre sistemas de venda, pagamentos e escrituração. O recado estratégico é simples: erros de parametrização viram impacto financeiro, não apenas risco jurídico.
O profissional demandado agora não é o contador que apenas apura guias, nem o advogado que apenas interpreta. O perfil valorizado é híbrido e operacional: entende o suficiente de direito para mapear risco e estruturar a operação dentro dos limites da legalidade, o suficiente de finanças para estimar impacto e defender decisões de negócio, e o suficiente de tecnologia para conversar com times de sistemas e garantir que a tributação aconteça corretamente na realidade.
Existe um ponto incômodo que o mercado costuma evitar, mas que aparece com clareza em falas de executivos. Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina, resumiu uma dinâmica comum: profissionais entram por habilidades técnicas e saem por falta de habilidades interpessoais.
Isso ganha força em profissões fiscais e regulatórias porque o trabalho real raramente é "resolver tributo". É gerir incerteza. É explicar risco sem terrorismo. É negociar com auditoria. É liderar a mudança interna. É traduzir juridiquês em linguagem de decisão.
Exemplo prático: Uma empresa de tecnologia está avaliando uma aquisição estratégica de startup brasileira. O time executivo precisa decidir entre três estruturas societárias possíveis. O tributarista tradicional apresentaria um parecer técnico de 40 páginas sobre cada cenário. O tributarista estratégico, por outro lado, prepara uma apresentação executiva de 10 slides mostrando: (1) impacto fiscal total de cada estrutura em reais nos próximos 5 anos, (2) riscos regulatórios quantificados em probabilidade e impacto financeiro, (3) recomendação fundamentada com análise de trade-offs entre carga tributária, complexidade operacional e flexibilidade futura. Esta abordagem transforma compliance em vantagem competitiva.
O ponto não é disputar contra IA. É disputar por quem usa IA melhor. A expectativa de mudança acelerada nas competências do trabalho até 2030 reforça isso. Beck observa que 65% das habilidades necessárias vão mudar nesse período. "Ninguém vai perder o emprego para a inteligência artificial, mas sim para aqueles que sabem usar e trabalhar com ela", adverte.
Dados do LinkedIn indicam que 71% dos executivos preferem candidatos com habilidades em IA mesmo que tenham menos experiência em outras áreas. No universo tributário, isso se traduz em capacidade prática de automação, análise de dados, auditoria de processos e monitoramento de conformidade. E, principalmente, em maturidade para usar IA sem terceirizar responsabilidade.
O que está em jogo não é apenas aumento de demanda por profissionais fiscais. É mudança de paradigma sobre o papel dessas funções dentro das organizações. Historicamente, o tributário foi tratado como área burocrática focada em evitar multa. A transição tende a empurrar essa função para o centro da geração de valor — como diria o grande empresário Flávio Augusto — porque eficiência fiscal vira fator de sobrevivência em um mercado de margens pressionadas.
Nesse cenário, planejamento fiscal inteligente não é sobre "pagar menos". É sobre "pagar certo", operar com estrutura e evitar que o improviso vire passivo. Em uma economia algorítmica, o que não está bem estruturado não fica invisível por muito tempo.
Profissionais que conseguem explicar mudanças complexas com clareza, sem ruído e sem arrogância, constroem autoridade que transcende geografia e cargo. Plataformas profissionais como o LinkedIn amplificam esse processo ao transformar análise consistente em capital reputacional.
A transição até a implementação completa do novo modelo se estende por anos, o que sustenta um ciclo prolongado de valorização de competências fiscais e regulatórias. Ao mesmo tempo, camadas adicionais como internacionalização de empresas digitais brasileiras e debates globais de tributação aumentam a complexidade.
O padrão é claro: tecnologia não elimina profissões com forte componente humano. Ela muda a natureza delas. Funções que operam onde julgamento, comunicação e integração sistêmica importam seguem valorizadas, justamente porque são difíceis de automatizar por inteiro.
O recado do mercado é direto: quem domina apenas a legislação fica curto. O profissional que combina visão sistêmica, integração entre direito, tecnologia e negócios, e postura orientada à solução torna-se indispensável.
O Brasil precisa de uma nova geração de tributaristas e especialistas fiscais: arquitetos de compliance digital, estrategistas de risco e tradutores da complexidade normativa para o mundo operacional. Não porque a reforma "cria oportunidades" por magia, mas porque a economia real está mudando o que significa ser bom nesse jogo.
E tem um detalhe que o LinkedIn deixa visível para quem presta atenção: reputação virou ativo de carreira. Quem traduz complexidade em decisão, de forma consistente, não ganha só engajamento, vira Top Voice no LinkedIn. Ganha convite, posição e influência.