Pensar efluentes e reuso de água é essencial frente às mudanças climáticas

Os investimentos em grandes projetos de reuso permanecem à margem dos bilhões estimados a meta de universalização do saneamento básico até 2030
 (Foto/Reprodução)
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Por OpiniãoPublicado em 03/06/2022 15:00 | Última atualização em 07/06/2022 11:07Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Por Diogo Taranto*

Comemorado no dia 5 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, na Suécia. A data foi escolhida para coincidir com o dia da conferência,  que teve como objetivo primordial chamar a atenção de todas as esferas sociais e governamentais para os problemas ambientais e a importância da preservação dos recursos naturais, que até então eram considerados, por muitos, inesgotáveis.

Evidentemente que temas como a oferta mundial de água potável no mundo, a acidez e o aquecimento dos oceanos, o nível de poluição de mares, rios e mananciais são debatidos e estão nos holofotes de pesquisadores e de entidades ambientalistas em todo o planeta. Mas não há metas claras sobre o tamanho da ampliação de ações que promovam o reúso em grandes centros urbanos e/ou regiões com elevada escassez hídrica, como a cidade de São Paulo, por exemplo.

Há nos Estados Unidos ao menos um norte. Segundo a Bluefield Research, a capacidade de reúso no país deve aumentar 37% até 2027. O maior projeto do mundo de reúso, o GWRS - Groundwater Replenishment System, pode produzir até 379 mil m³ de água de alta qualidade todos os dias. Isso é água suficiente para atender às necessidades de quase 850 mil pessoas!
Já no Brasil temos estimativas, mas sem metas evidentes. De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 2018, estimava-se que no país havia uma capacidade instalada de reutilização de água oriunda do efluente sanitário de aproximadamente 2 m³/s (equivalente ao abastecimento de 800 mil habitantes).

Não podemos desconsiderar as graves crises hídricas, que afetaram as várias regiões do Brasil, em 2014, e seguem atualmente nos afetando. A tendência é que o quadro se agrave cada vez mais. O desenvolvimento correto e eficiente da reutilização de efluentes sanitários tratados é uma destas ações potenciais, assim como a conservação da água e redução de perdas. Juntamente com novas tecnologias, como a dessalinização da água do mar, ele se encaixa com a necessidade de melhorar a disponibilidade hídrica, principalmente no Nordeste do país e em grandes centros urbanos, e traz oportunidades de sinergia para fortalecer os setores hídricos e de saneamento no Brasil.

Os investimentos em grandes projetos de reúso ainda são exceção e permanecem à margem dos vultosos números, quando comparamos as centenas de bilhões estimados para o atingimento da meta de universalização do saneamento básico no Brasil até 2030. O grande desafio, portanto, é avançar com a integração da reutilização no portfólio nacional de abastecimento de água e no estímulo às indústrias, centros comerciais e em condomínios. Este é próprio ao saneamento básico, que muitos não veem como tal, mas é fundamental para a saúde da população.

O Novo Marco Legal do Saneamento, no Brasil, por exemplo, traz uma transformação positiva. Embora se refira especificamente aos serviços de tratamento de água e efluentes no setor público, ele impulsiona os investimentos também do setor privado, com reflexos positivos para economia, meio ambiente e sociedade. Aqui temos uma meta definida: que até 2033, 99% da população terá acesso a água potável e 90% a tratamento e coleta de esgoto. Ter no radar esses percentuais já é uma conquista. Agora teremos, como sociedade, a missão de cobrar, ao longo dos anos, o avanço desses investimentos.

Esses aspectos se interligam trazendo um olhar mais acurado dos setores público e privado para a gestão da água. É preciso encarar com seriedade o assunto, principalmente, quando se trata do descarte de efluentes que, infelizmente, ainda é feito em grande escala de maneira irregular e com pouca divulgação de dados para que se possa agir de maneira efetiva contra essa prática.

Quando o tópico é descarte ilegal de efluentes, não há no país um levantamento de dados que demonstre os principais responsáveis, as regiões mais críticas e nem quando essa prática será banida em nosso país.

Há metas para reduzirmos o desmatamento ilegal e a emissão de dióxido de carbono a zero em quase todos os países. A Alemanha, por exemplo, anunciou que pretende atingir ‘net zero emissions’ em 2045. A sociedade pressiona, a cada dia, pela urgência na transformação da matriz energética global, e a pressão é positiva e precisa ser cada vez mais forte. Mas e a gestão da água em meio a uma crise climática que pode causar danos sem precedentes ao planeta? Pouco se fala; insuficientes são as manchetes nos jornais!

O Dia do Meio Ambiente serve como alerta para tentarmos acordar a sociedade para que ela pressione governantes a fazerem muito mais por todos os biomas e ecossistemas. A gestão correta dos recursos hídricos precisa dividir o holofote com outros graves problemas que temos que enfrentar, como a alta emissão de CO2 e a desflorestação. O reúso e o correto descarte de efluentes tratados precisam ser uma bandeira global e fazer parte da agenda de todos os governos. Afinal, se estamos em uma luta pela vida na Terra, preservar a água é a essência desse imenso desafio que temos pela frente.

* Diogo Taranto é Diretor de Desenvolvimento de Negócios no Grupo Opersan, especializado em soluções ambientais para o tratamento de águas e efluentes. O executivo é engenheiro, formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com MBA em Gestão Empresarial, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), além de ter formação em Gestão e Tecnologias Ambientais, pela Universidade de São Paulo (USP)