Brasil respondeu por quase 60% dos dividendos pagos na América Latina no primeiro trimestre de 2026. (Imagem gerada com IA/Exame)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 16h20.
Última atualização em 4 de agosto de 2026 às 16h22.
O maior equívoco do debate econômico brasileiro talvez seja continuar procurando respostas sob a ótica de um mundo que já não existe. Durante boa parte do século XX, desenvolver um país significava, antes de tudo, encontrar capital: formar poupança doméstica, recorrer ao crédito internacional ou mobilizar recursos públicos para construir estradas, portos, usinas e fábricas. O dinheiro era escasso, caro e pouco móvel, e os países disputavam uma oferta limitada de financiamento.
Essa realidade começou a mudar na década de 1980 e ganhou velocidade depois da virada do século. A liberalização financeira, a internacionalização das empresas, a expansão das bolsas, dos fundos de pensão, das seguradoras, dos fundos soberanos e dos grandes gestores de ativos, somadas à revolução tecnológica, ampliaram extraordinariamente o balanço patrimonial do planeta.
Desde 2000, a riqueza mundial passou de cerca de US$ 200 trilhões para US$ 600 trilhões, enquanto o conjunto dos ativos globais chegou a US$ 1,7 quatrilhão e subiu de seis para aproximadamente 7,5 vezes o PIB mundial, hoje estimado em US$ 126 trilhões. Não se trata, evidentemente, de um cofre com US$ 1,7 quatrilhão disponível para saque, mas da demonstração de que jamais existiu tamanho estoque de patrimônio, poupança e capacidade financeira procurando segurança, rentabilidade e oportunidades de longo prazo. São dados da Consultoria McKinsey. Isso sem falar da China, que reinventou a economia da prosperidade.
Essa é a mudança de época que o Brasil ainda não incorporou ao modelo mental do seu debate público. A questão central do desenvolvimento deixou de ser onde encontrar dinheiro e passou a ser como construir um país capaz de merecê-lo, atraí-lo e transformá-lo em investimento produtivo. O capital tornou-se abundante; escassos são os ambientes institucionais, geopoliticamente confiáveis, os projetos consistentes e as economias capazes de converter riqueza financeira em infraestrutura, tecnologia, produtividade e empregos.
O Brasil, no entanto, entra em mais uma eleição discutindo quase exclusivamente a repartição de um orçamento público inevitavelmente limitado, como se a prosperidade pudesse nascer da expansão permanente do gasto. Não existe abundância fiscal. Quando o Estado gasta sem ampliar a capacidade produtiva, acumula dívida, pressiona a inflação, eleva os juros e estreita ainda mais o espaço para investir. Responsabilidade fiscal não é uma ideologia nem um fim em si mesma; é a condição para preservar a moeda, reduzir o custo do capital e recuperar a confiança. Recursos consumidos por juros não constroem portos, ferrovias, fábricas, redes digitais ou centros de pesquisa.
As grandes potências compreenderam essa diferença. A China passou quatro décadas combinando abertura, infraestrutura, produção, tecnologia e exportação para absorver capital e ampliar sua capacidade industrial. Os Estados Unidos voltaram a disputar agressivamente fábricas, semicondutores, inteligência artificial, energia e centros de pesquisa, usando sua política econômica para induzir investimentos privados em território americano. A Europa procura recuperar competitividade. Nenhuma dessas estratégias se apoia na fantasia de recursos públicos infinitos; todas reconhecem que a prosperidade depende da capacidade de mobilizar capital produtivo.
Poucos países têm tanto a oferecer quanto o Brasil. Água, alimentos, energia limpa, biocombustíveis, biodiversidade, minerais críticos, terras raras, mercado interno, base industrial e estabilidade geopolítica formam uma combinação rara. Esses ativos são úteis aos brasileiros, mas também a um planeta que procura segurança alimentar, transição energética e cadeias de suprimento mais resilientes. Nossa diplomacia, quando atua em sua melhor tradição, permite dialogar com Estados Unidos e China sem transformar parceria em submissão ou divergência em hostilidade. O Brasil não precisa escolher entre os dois; precisa ser discreto, confiável e relevante para ambos.
O paradoxo é que possuímos aquilo que o mundo procura, mas continuamos hostis ao investimento real. No último Doing Business publicado pelo Banco Mundial, o país ocupava a 124ª posição entre 190 economias. A burocracia, a insegurança jurídica, a complexidade tributária, o custo financeiro e a instabilidade regulatória dificultam justamente a formação de capital que poderia ampliar nossa capacidade de produzir. Quando uma nação detém vantagens extraordinárias, mas impede que elas se transformem em infraestrutura, inovação e produtividade, já não se trata apenas de desperdício: trata-se de autossabotagem à luz do dia.
A experiência recente mostra que isso pode mudar. Entre 2016 e 2018, a modernização das relações de trabalho, a Lei das Estatais, o teto de gastos, a reforma do ensino médio e a preparação da reforma da Previdência sinalizaram uma direção reformista; a inflação recuou, os juros caíram e a economia voltou a crescer. Pode-se discutir cada medida, mas não apagar a lição, pois, quando o Brasil melhora suas instituições e reduz a incerteza, a confiança responde. Reformas não criam riqueza por decreto, mas criam as condições para que a riqueza disponível escolha o país.
É esse o novo contexto mundial que deveria orientar a eleição brasileira. Continuaremos prometendo repartir uma escassez fiscal cada vez mais onerosa ou construiremos as condições para acessar a maior abundância de capital da história? Permanecer no primeiro caminho, apesar de todas as evidências, seria quase um voto útil para permanecermos na desigualdade e na pobreza, e contra o desenvolvimento.
O mundo já fez a bolha e acumulou a poupança. O Brasil já possui os ativos de sobra. Entre ambos faltam previsibilidade, segurança jurídica, produtividade e uma decisão nacional favorável ao investimento. O século XXI não pertencerá aos países que simplesmente gastarem mais, como o Brasil, que transforma o quinto maior superávit comercial do planeta em déficit fiscal, impostos e juros altos; mas, sim, aos que souberem transformar a abundância global de capital em infraestrutura, inovação, empregos e prosperidade. O Brasil sofre de escassez, pela falsa abundância do gasto público, na era da real abundância do capital global. O ambiente da próxima eleição deveria começar por esse realismo político.