(Divulgação)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 6 de maio de 2026 às 15h50.
A Global Conference do Milken Institute, realizada nesta semana em Beverly Hills, deixou uma percepção clara: o mundo saiu definitivamente da era da globalização previsível e entrou na era da competição estratégica.
O ambiente já não é mais o da integração automática dos mercados, da crença no comércio como estabilizador universal ou da ideia de que crescimento econômico e estabilidade geopolítica caminham naturalmente juntos. A nova realidade discutida na 28ª edição do encontro foi outra: fragmentação industrial, disputa tecnológica, reorganização das cadeias produtivas, pressão energética, inteligência artificial como infraestrutura de poder e um cenário internacional progressivamente mais instável.
Ao longo de quase três décadas, o fórum criado por Michael Milken transformou-se na principal plataforma global de formulação estratégica voltada a resultados, investimentos, inovação, saúde, tecnologia e políticas públicas. Diferentemente de muitos encontros internacionais protocolares, o Milken opera como uma combinação rara entre conferência de investimentos, centro de formulação intelectual e espaço de articulação prática entre capital privado, governos, universidades e empresas.
Seu ecossistema reúne algumas das maiores instituições financeiras do planeta, fundos soberanos, empresas de tecnologia, laboratórios e formuladores de políticas públicas, representando algo próximo de US$ 35 trilhões em ativos administrados. Mas talvez seu aspecto mais singular seja justamente a capacidade de conectar temas que normalmente aparecem separados. Ao mesmo tempo em que discute geopolítica, inteligência artificial e reorganização industrial, o instituto lidera iniciativas voltadas à pesquisa em câncer, obesidade, inovação biomédica, eficiência hospitalar, produtividade econômica e regulação inteligente. Programas como o FasterCures aproximam universidades, governos e capital privado para acelerar soluções práticas em saúde pública.
O clima da conferência não foi de euforia, mas de realismo estratégico. Houve uma percepção disseminada de que o mundo entrou em um período mais longo de tensão estrutural e competição entre grandes potências.
O historiador Niall Ferguson foi uma das vozes mais contundentes ao afirmar que o cenário atual guarda paralelos inquietantes com momentos anteriores às grandes rupturas geopolíticas do século 20, combinando rivalidade entre potências, guerra tecnológica, polarização política e fragmentação econômica.
Mesmo quando pouco citada diretamente, a China apareceu como pano de fundo de praticamente todas as discussões relevantes do encontro. Semicondutores, minerais críticos, inteligência artificial, defesa, energia, logística e comércio internacional hoje giram, direta ou indiretamente, em torno da reorganização da relação entre Estados Unidos e China.
Outro eixo central da conferência foi a percepção de que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma revolução tecnológica para tornar-se infraestrutura estratégica de poder econômico e geopolítico. Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do planeta, com cerca de US$ 14 trilhões sob administração, afirmou que o mercado ainda subestima a dimensão da demanda energética e de infraestrutura que será criada pela IA, especialmente em data centers, redes elétricas e capacidade computacional. Já Ken Griffin, fundador da Citadel, uma das maiores gestoras e empresas de hedge funds do mundo, alertou para os riscos de excesso de liquidez e valorização exagerada de ativos em meio à corrida global por tecnologia.
Ao mesmo tempo, representantes ligados ao Oriente Médio reforçaram a percepção de que o planeta pode caminhar para uma instabilidade estrutural mais duradoura. O embaixador dos Emirados Árabes Unidos em Washington mencionou a possibilidade de um estado contínuo de tensão em torno do estreito de Hormuz, rota vital para o abastecimento energético global. A preocupação já não é apenas uma guerra convencional, mas um ambiente persistente de instabilidade capaz de pressionar energia, inflação e cadeias produtivas durante muitos anos.
Para países como o Brasil, essa discussão possui consequências práticas evidentes. Segurança alimentar, fertilizantes, energia, mineração crítica, refino, logística e capacidade produtiva voltam a adquirir importância estratégica em um mundo menos previsível.
Foi nesse contexto que o Brasil apareceu de forma particularmente interessante.
A presença brasileira cresceu visivelmente nesta edição. Há poucos anos, o número de participantes ligados ao país era relativamente reduzido. Hoje, empresários, banqueiros, investidores e executivos brasileiros já formam um grupo relevante dentro do encontro. O BTG Pactual, liderado por André Esteves, teve novamente a maior representação nacional na conferência, refletindo o aumento gradual da relevância brasileira nos debates globais.
O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, chamou atenção para o potencial da inovação financeira e da “bancarização das oportunidades”, defendendo que novas tecnologias financeiras poderão ampliar acesso ao crédito, produtividade e inclusão econômica em larga escala.
Nas conversas com investidores internacionais, apresentei uma percepção que despertou bastante interesse: o Brasil talvez viva hoje um dos maiores descompassos econômicos do planeta.
O país é hoje o quinto maior superávit comercial do mundo e também um dos cinco maiores receptores globais de investimento externo direto. Mas não consegue transformar plenamente essa força econômica em crescimento sustentado, produtividade elevada e enriquecimento amplo da população.
Nas últimas décadas, o crescimento brasileiro permaneceu relativamente baixo para seu potencial, enquanto a produtividade avançou lentamente. A explicação aparece no próprio ambiente interno do país. O Brasil continua entre os lugares mais difíceis do mundo para empreender, investir e executar projetos, reflexo de excesso regulatório, burocracia, insegurança jurídica e desequilíbrio fiscal persistente. Somos o 124º lugar no ranking do Doing Business do Banco Mundial.
O país acaba consumido por déficits públicos elevados, juros estruturalmente altos e um ambiente econômico no qual grande parte da energia produtiva é drenada para compensar ineficiências do próprio sistema. O resultado é um modelo que frequentemente transforma potência econômica em baixo crescimento.
A percepção apresentada aos investidores era relativamente simples: os problemas brasileiros já estão amplamente precificados. O que ainda não está precificado é um Brasil capaz de resolver suas grandes travas estruturais, especialmente o déficit público e o ambiente de negócios, da mesma forma que resolveu a hiperinflação no passado.
Talvez por isso o país tenha começado a voltar ao radar estratégico global.
Em um mundo crescentemente instável, aumenta a demanda internacional por países capazes de oferecer alimentos, energia, escala territorial, mercado interno, recursos naturais e relativa estabilidade institucional. Poucos países possuem simultaneamente esses atributos como o Brasil.
Mas potencial não é destino.
O Brasil não será grande apenas porque o mundo precisa dele. Será grande se conseguir transformar comércio, investimentos e recursos estratégicos em produtividade, capital produtivo, empregos de maior renda e melhoria concreta da vida da população.
A nova era global abriu uma janela rara para países com escala e ativos estratégicos. O mundo procura segurança alimentar, energética, mineral, tecnológica e institucional. O Brasil possui praticamente tudo isso.
O risco Brasil já é conhecido e está amplamente precificado. O que o mundo ainda não precificou é o tamanho do Brasil caso consiga finalmente remover os bloqueios internos que o impedem de operar na dimensão do seu próprio potencial.