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Maricá: um destino para muito além do petróleo

Embalada pelo momento em que o Brasil volta ao radar do investimento internacional, a cidade pode transformar o turismo em uma nova vocação econômica

Comunidade pesqueira de Maricá, Rio de Janeiro  (Tânia Rego/Agência Brasil)

Comunidade pesqueira de Maricá, Rio de Janeiro (Tânia Rego/Agência Brasil)

Publicado em 16 de junho de 2026 às 08h00.

Por Emilio Izquierdo Merlo, CEO de MARAEY

 

Por muito tempo, Maricá foi conhecida pelo que tinha debaixo da terra. Agora, começa a merecer atenção pelo que tenta construir acima dela. E o desafio hoje já não é apenas administrar a abundância, mas usá-la para desenhar um futuro capaz de sobreviver ao ciclo inevitavelmente finito do petróleo.

O Brasil voltou ao radar global como uma plataforma concreta para o próximo ciclo de investimentos. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acaba de apontar o país como o 3º maior destino de investimento estrangeiro direto do mundo em 2025, atrás apenas de EUA e China. E o turismo, pela capacidade de mobilizar imagem, emprego, serviços e capital de longo prazo, passa a ocupar com mais nitidez esse mapa de oportunidades.

O que se vê hoje não é apenas um país tentando atrair recursos. É um país que volta a ser percebido, por parte relevante do capital internacional, como território de escala, potência natural e oportunidades ainda subexploradas. O desafio, como sempre, está em transformar vantagem estrutural em ambiente confiável de execução.

O momento ajuda. O Brasil encerrou 2025 com mais de 200 milhões de viagens domésticas e 9,3 milhões de turistas internacionais, consolidando o segundo ano consecutivo de forte crescimento do setor turístico. Dentro desse contexto, a cidade do Rio de Janeiro fechou o ano com um recorde de 2,2 milhões de turistas estrangeiros e 10,5 milhões de turistas nacionais, um crescimento aproximado de 45% em relação a 2024 e de 75% frente a 2019.

Em 2026, a trajetória de expansão continua. No primeiro trimestre, o Rio recebeu 884,5 mil visitantes internacionais, avançando 19% sobre o mesmo período do ano anterior. Segundo a Embratur, o Estado liderou os desembarques internacionais do país, concentrando quase 24% de todo o fluxo nacional.

O Rio está na moda. E cidades próximas, acessíveis e com atributos próprios deixam de disputar apenas fluxo e passam a disputar permanência. É aí que Maricá pode crescer.

Para começar, é chegar rápido e, ainda assim, sentir que se foi para longe. Maricá está a apenas 45 km da capital: perto o bastante para se beneficiar da força simbólica do Rio e distante o suficiente para oferecer outra experiência. Com praias longas, lagoas, restinga, serra e trilhas, a cidade tem uma geografia que dialoga bem com um turismo mais contemporâneo, em que o luxo que mais importa já não é o da ostentação.

O destino não oferece apenas beleza. Maricá vem organizando uma infraestrutura concreta de crescimento. Hoje, tem quase 19% de população A+B e figura entre os cinco municípios mais bem posicionados do Estado nesse indicador. Não por acaso, a cidade também registra o terceiro maior PIB per capita do Brasil, segundo os dados atualizados do IBGE.

Há também sinais de maturação urbana que importam tanto quanto a paisagem. Maricá vem consolidando indicadores de segurança e educação como legado de longo prazo: no primeiro trimestre de 2026, registrou o menor índice de roubo de veículos da Região Metropolitana entre cidades com mais de 100 mil habitantes e, em 2025, alcançou 68% de alfabetização ao final do 2º ano, acima da meta prevista.

O que torna Maricá um caso interessante e mais sofisticado do que parece é o fato de tentar deixar de ser uma cidade rica por circunstância para se tornar uma cidade desejada a longo prazo. É usar o presente construído pelo acaso geológico em visão de futuro planejado e sustentável.

Por isso, não basta crescer; é preciso decidir como crescer. Nesse horizonte de futuro, Maricá não quer apenas diversificar sua economia. Quer preparar mão de obra, fortalecer serviços, dar previsibilidade a uma economia menos vulnerável ao improviso. Destinos fortes dependem dessa capacidade de fazer uma riqueza finita financiar estruturas capazes de durar além dela. Isso também fala a língua da sustentabilidade.

Se acertar a mão, a cidade pode encontrar no turismo algo maior do que um plano B para o pós-petróleo, e escapar do risco mais conhecido do litoral brasileiro: ocupação desordenada, pressão urbana crescente e perda gradual de valor ambiental e econômico.

Pode, em vez disso, construir uma economia de imagem, permanência e valor agregado. Pode transformar paisagem em ativo e sofisticação em vocação. Porque cidades prontas para crescer não são apenas as que têm recursos. São as que começam a aprender, a tempo, o que fazer com eles.