(Divulgação)
Publicado em 30 de março de 2026 às 16h17.
Por Lucas Goulart*
Empresas brasileiras operam hoje em um ambiente cada vez mais globalizado. Exportam, acessam financiamento internacional, utilizam instrumentos de hedge e precificam parte relevante de suas receitas em moedas fortes. Ainda assim, quando o tema é a gestão do patrimônio familiar, grande parte desse capital permanece concentrada no mercado doméstico.
Essa assimetria torna-se particularmente visível em setores altamente integrados ao comércio internacional, como o agronegócio. No campo, a transição geracional adiciona um elemento de urgência ao debate sucessório. A sucessão rural envolve não apenas a transferência patrimonial, mas a continuidade de operações produtivas complexas, que exigem capital intensivo, conhecimento técnico e gestão sofisticada de risco.
A literatura especializada mostra que apenas uma parcela da nova geração se dispõe a assumir diretamente a condução da atividade agropecuária, enquanto cresce o número de herdeiros que preferem manter uma relação predominantemente patrimonial com a propriedade rural.
Esse movimento, embora particularmente visível no campo, reflete um desafio mais amplo enfrentado por muitas famílias empresárias brasileiras: a necessidade de organizar estruturas patrimoniais capazes de acompanhar a crescente complexidade dos negócios e da sucessão.
Parte da nova geração, muitas vezes com formação técnica ou experiência internacional, já compreende que a internacionalização patrimonial não se confunde com evasão, mas integra uma arquitetura prudente de governança.
Mercados desenvolvidos oferecem um ambiente financeiro mais amplo e diversificado, com acesso a diferentes classes de ativos, setores econômicos e moedas. Para famílias empresárias brasileiras, investimentos internacionais ampliam as alternativas de alocação e reduzem a dependência exclusiva do ciclo econômico doméstico.
Manter parte do patrimônio em moedas fortes, como dólar ou euro, deixa de ser uma aposta cambial e passa a cumprir um papel de proteção. Em economias emergentes, ciclos de volatilidade cambial, mudanças regulatórias e choques macroeconômicos podem afetar simultaneamente empresas, ativos financeiros e a própria moeda local.
Por essa razão, para muitas famílias empresárias uma alocação internacional entre 20% e 40% do patrimônio funciona como uma espécie de seguro contra eventos extremos. Não se trata de substituir investimentos no Brasil, mas de criar uma camada adicional de estabilidade diante de cenários menos previsíveis, como restrições cambiais, mudanças regulatórias abruptas ou períodos de instabilidade institucional.
A internacionalização patrimonial, contudo, também traz desafios técnicos relevantes. Estruturas internacionais como holdings, trusts ou PIC (private investment company) exigem acompanhamento constante de profissionais capazes de interpretar mudanças regulatórias, coordenar obrigações fiscais entre diferentes jurisdições e garantir que as estratégias adotadas permaneçam alinhadas às normas regulatórias no Brasil e exterior.
Nesse cenário, consultorias independentes e assessorias de investimentos voltadas ao público de alta renda têm ampliado sua atuação, oferecendo soluções mais integradas. Essas estruturas combinam consultoria de investimentos, planejamento financeiro e sucessório, exercendo um papel central nas discussões empresariais e familiares contribuindo para simplificar temas naturalmente complexos.
Além da estrutura jurídica, surge um segundo desafio igualmente relevante: a criação de mecanismos de governança capazes de sustentar essas estruturas ao longo do tempo. Conselhos consultivos ou familiares tornam-se fundamentais para organizar a tomada de decisões e equilibrar interesses entre sócios, herdeiros e gestores.
Como uma reflexão final: parte significativa das empresas brasileiras ainda encontram-se na segunda geração de seus controladores, consequência da formação recente de grande parte do empresariado nacional. Os desafios enfrentados pela geração atual, no entanto, são distintos daqueles vividos pelos fundadores. Se no passado a prioridade era construir e expandir os negócios, hoje torna-se igualmente necessário organizar a preservação e a governança do patrimônio acumulado ao longo desse processo.
Nesse contexto, a internacionalização, deixa de ser uma iniciativa isolada e passa a integrar um conjunto mais amplo de instrumentos voltados à preservação patrimonial, à organização da sucessão e à construção de estratégias de longo prazo capazes de atravessar gerações.
* Lucas Goulart é formado pela ESPM-SP, cofundador do Grupo Rio Negro, onde atua desde 2019 na estruturação patrimonial e na gestão de investimentos para famílias empresárias e produtores rurais. Integra também a Santa Clara Agronegócio, empresa familiar com atuação no setor agropecuário há mais de 50 anos. Anteriormente, foi cofundador da Bravo Açaí e acumulou experiências em marketing, operações, estratégia e comercial na Monsanto/Bayer, onde atuou por seis anos.