Colunistas

A Inteligência Artificial está fazendo seu próximo computador ser mais caro!

O governo federal chegou a propor o aumento da tarifa de importação de notebooks de 16% para 20% no início de 2026

 (Reprodução/Unsplash)

(Reprodução/Unsplash)

Samuel Barros
Samuel Barros

Colunista

Publicado em 19 de abril de 2026 às 08h45.

A explosão da inteligência artificial está redirecionando silenciosamente a produção global de memória DRAM e criando um superciclo de alta de preços que vai dos data centers de Seattle até o orçamento de TI de Belo Horizonte.

Imagine que seu departamento de TI aprovou um orçamento para renovar o parque de notebooks corporativos em 2026. Você pega as cotações do segundo semestre de 2024 como referência, faz uma projeção conservadora de inflação e apresenta o número ao CFO. Semanas depois, as propostas dos fornecedores chegam com 15% a 20% de reajuste. A Lenovo avisou seus parceiros de que todas as cotações expirariam em 1º de janeiro de 2026. A Dell, segundo o COO Jeff Clarke, nunca havia visto os custos de chips de memória subirem tão rápido na sua carreira. O culpado está no seu celular ou, mais precisamente, no modelo de linguagem que responde quando você toca no ícone do assistente.

O mercado global de memória DRAM, o tipo de memória volátil que equipa computadores, notebooks, smartphones e servidores, opera sob uma lógica conhecida pelos economistas como oligopólio de oferta inelástica. Três empresas controlam aproximadamente 93% da produção mundial, a saber, Samsung, SK Hynix e Micron. Não existem reservas de emergência. Não existe um segundo turno de fábricas esperando para ligar as máquinas. Cada wafer de silício disponível no planeta é disputado em tempo real, e o maior comprador do momento é a Nvidia ou, mais precisamente, a demanda insaciável dos data centers que compram as GPUs da Nvidia para treinar e rodar modelos de inteligência artificial. Num mercado com três fornecedores globais, a concorrência existe apenas não costuma aparecer no preço.

O mecanismo é brutal, porém extremamente simples. Os aceleradores de IA exigem um tipo especializado de memória chamado HBM (High Bandwidth Memory), ou Memória de Alta Largura de Banda. O HBM é empilhado em camadas tridimensionais diretamente sobre o chip de processamento, entregando velocidades que a RAM convencional jamais atingiria. O problema é que produzir 1 bit de HBM consome aproximadamente três vezes a capacidade fabril necessária para produzir 1 bit de DDR5, segundo análises da consultoria TechInsights. Como os fabricantes de memória preferem os contratos bilionários dos hyperscalers ao mercado fragmentado de consumo (e quem poderia culpar eles?), dado que as margens são incomparavelmente maiores, cada wafer alocado para um stack de HBM destinado a uma GPU da Nvidia é, por definição, um wafer negado ao pente de RAM do seu próximo laptop. Em termos simples, a era da inteligência artificial inaugurou uma curiosa novidade, quanto mais ‘virtual’ o software, mais físico e escasso se torna o silício.

A IDC, em relatório publicado em fevereiro de 2026, descreveu o fenômeno com precisão assustadora quando disse que não estamos diante de um ciclo ordinário de demanda, mas estamos vivendo uma realocação estratégica e permanente da capacidade produtiva mundial de silício.
Os números confirmam o diagnóstico. Segundo dados compilados por TechInsights e Z2Data, os preços de DRAM já haviam subido 88% em 2024 em relação ao vale do ano anterior.

No terceiro trimestre de 2025, a alta acumulada atingiu 172% na base anual. Módulos DDR5 de 32 GB, que custavam cerca de EUR 100 no início de 2025, algo em torno de R$ 620 ao câmbio da época, ultrapassavam facilmente os EUR 200 em novembro do mesmo ano, dobrando seu preço em menos de doze meses. Em um momento inédito na história da indústria, o preço do DDR4, tecnologia considerada obsoleta, equiparou-se ao DDR5, a geração atual. É como se o valor de um Fusca 1985 alcançasse o preço de um Civic 2024. Em um mercado racional e na normalidade, isso não acontece. Mas em um mercado onde Samsung e Micron simplesmente pararam de fabricar DDR4 em 2025 para concentrar linhas de produção em HBM e DDR5 de alto valor, o resultado é inevitável, afinal quem ainda depende da tecnologia legada passa a pagar preço de ponta.

Gráfico de variação do preço da memória

Fonte: Autor, baseado em dados do setor

 

Por trás dessa dinâmica está uma guerra de capital sem precedentes. Os cinco maiores hyperscalers do mundo (Amazon, Microsoft, Google, Meta e Oracle) comprometeram investimentos superiores a US$ 600 bilhões em infraestrutura de tecnologia para 2026, um crescimento de 36% sobre o ano anterior, segundo projeções do IEEE ComSoc Technology Blog. Desse total, cerca de 75%, ou US$ 450 bilhões, está diretamente direcionado à infraestrutura de IA com servidores, GPUs, data centers e redes. Goldman Sachs projeta que apenas entre 2025 e 2027 os hyperscalers desembolsarão US$ 1,15 trilhão, bem mais que o dobro de tudo que investiram nos três anos anteriores.

Para financiar esse ritmo, que em muitos casos supera o fluxo de caixa operacional das próprias empresas, as big techs emitiram cerca de US$ 108 bilhões em dívida corporativa em 2025, com Morgan Stanley e JP Morgan projetando até US$ 1,5 trilhão em novas emissões nos próximos anos. Larry Page, cofundador do Google, teria dito internamente que estaria disposto a ir à falência antes de perder a corrida da IA. O mercado de crédito já começou a precificar esse risco, isso pode ser observado nos credit default swaps de Oracle que triplicaram desde setembro de 2025.

O efeito cascata chega ao consumidor por vias que os economistas reconheceriam como transmissão de choques de oferta. A memória representa entre 15% e 18% do custo total de um PC, segundo dados reportados por executivos da HP. Com a alta de 70% acumulada no DDR5 em 2025, os fabricantes não puderam absorver a pressão, com isso, a Dell comunicou aumentos de preço de 15% a 20% aos distribuidores, e a Lenovo seguiu caminho similar. A consultoria Gartner projetou, em relatório de março de 2026, que os preços de memória DRAM poderiam subir 130% no ano, encarecendo a fabricação de PCs em 17% e de smartphones em 13%, com redução estimada de 10,4% nas remessas globais de computadores. A TrendForce, que em novembro de 2024 ainda previa crescimento de 1,7% nas vendas de notebooks em 2026, revisou sua projeção para retração de 2,4%. O segmento de PCs de entrada, aquele que serve estudantes, pequenas empresas e o funcionalismo público, pode encolher muito até 2028, segundo a Gartner. Não por falta de demanda, mas por inviabilidade econômica de produção.

No Brasil, infelizmente, o choque chega amplificado. O país importa praticamente a totalidade de sua base de hardware, e qualquer alta em dólares nos componentes se converte em preço ao consumidor pela combinação entre taxa de câmbio e a estrutura tributária sobre importados. No início de 2024, um módulo de 16 GB DDR4 era encontrado no varejo nacional entre R$ 220 e R$ 280. Em meados de 2025, esse valor já havia dobrado em boa parte dos distribuidores. Universidades, empresas de médio porte e gestores de TI que costumavam renovar equipamentos em ciclos de três anos agora enfrentam orçamentos insuficientes sem que nenhuma variável macroeconômica interna justifique a alta.

O governo federal chegou a propor o aumento da tarifa de importação de notebooks de 16% para 20% no início de 2026, recuando depois de pressão setorial, mas o episódio evidenciou a fragilidade estrutural de um mercado que não produz chips e não tem hedge contra esse tipo de superciclo.

O que estamos observando não é um choque de demanda clássico, do tipo que a política monetária resolve. É uma decisão estratégica e coordenada de alocação de capacidade produtiva, tomada por três empresas privadas que operam em regime de oligopólio global, em resposta a um fluxo de capital que rivaliza com os grandes projetos de infraestrutura do século XX, e que está sendo financiado, em parte significativa, com dívida.

Para os gestores financeiros, a mensagem prática é que a memória RAM não é mais uma commodity estável que pode ser orçada com base em preços históricos, e isso tem ficado cada vez mais evidente. Tornando-se um ativo volátil, sensível a decisões de alocação de wafers tomadas em Seul e Santa Clara, e sujeito a superciclos de alta que podem durar anos. A democratização da inteligência artificial tem um custo e ele está sendo cobrado, de forma silenciosa e progressiva, de quem ainda precisa comprar hardware convencional para funcionar.