O corpo fala, mas se a mente não escuta, nada muda

A entrevistada nos ensina de forma leve o quanto vem transformando as suas dores físicas e emocionais através do autoconhecimento
 (Coluna o que te motiva/Divulgação)
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O que te motiva

11 de dezembro de 2022, 13h42

Por Adriana Jarva

De alguma forma todos nós experimentamos diferentes tipos de dores durante o percurso de nossas vidas, seja de caráter emocional, psicológico, mental, ou mesmo a dor física. Mas, à medida em que vamos evoluindo, podemos aprender, tanto a escutar nosso corpo, como também mergulhar na melhor das habilidades humanas que é o autoconhecimento. Com isso, passamos a nos desenvolver em busca do autodomínio e temos a possibilidade da conquista da nossa própria liberdade, uma vez que buscamos nos livrar do sofrimento.

Lembro aqui das palavras do sábio poeta Carlos Drummond de Andrade:

"A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional"

O perfil da próxima entrevistada desse projeto colaborativo (contamos mais no final da matéria) combina bem com a introdução acima: uma pessoa que nos ensina de forma leve e divertida o quanto vem transformando as suas dores físicas e emocionais através do autoconhecimento, práticas de yoga, alimentação, criatividade e meditação.

Rubia Garcia Lopes tem 48 anos, é mãe e esposa. Formada em Odontologia, pós-graduada em Ortodontia, Odontopediatria, Odontologia Intensivista, fez mestrado em Laser e trabalhou como cirurgiã dentista por 20 anos. É também a divertida Rubinete - personagem que criou enquanto cursava faculdade para atender crianças de um jeito criativo e alto astral. E para concluir, foi fundadora da marca Aatmasoul, empresa que nasceu em meio a pandemia do Covid-19, oferecendo experiências sensoriais em forma de presentes.

(Arquivo pessoal/Divulgação)

Nossa entrevistada teve uma longa história como profissional da odontologia, período em que afirma ter aprendido e se divertido muito. Foram muitos anos se reinventando em diferentes áreas como desenvolvendo pesquisa no tratamento de halitose, atendimento de gestantes em parceria com Ginecologistas e Obstetras, atendimento multidisciplinar em parceria com Otorrinolaringologista e Gastroenterologista para diagnóstico e combate à halitose e diminuição do risco de pneumonia aspirativa pós-cirúrgica, a isso conciliava ainda as aulas que ministrava em diferentes instituições e os atendimentos sociais à crianças carentes. Mas o tempo foi gerando uma insatisfação profissional, e nos últimos 5 anos da sua carreira Rúbia foi percebendo os sinais e se preparando para a transição e se redescobrir.

“Me diverti muito durante um longo período, desenvolvi amizades com meus pacientes e sempre gostei de criar e fazer uma odontologia diferente. Através da personagem Rubinete, eu brincava de arrancar o dente das crianças ‘pela orelha ou pelo nariz’, para tornar mais leve a atmosfera de uma cirurgia ou procedimentos complexos. Mas, como na odontologia a criatividade é limitada, afinal não se pode pintar o dente de um paciente de verde ou pink conforme a inspiração do dia, meu coração foi se esvaziando, e de repente, aquilo já não me preenchia mais. Mesmo assim, naquela época eu estava a mil por hora, trabalhando em três consultórios, terminando um mestrado e dando aulas.”

(Arquivo pessoal/Divulgação)

Na época, a saúde física da Rubia apontava diversos problemas, entre eles doenças autoimunes com as quais lutava desde os tempos da faculdade. E mesmo com o corpo pedindo urgentemente por uma pausa, ela decidiu aplicar para o doutorado. E não é que passou! E esse foi o comentário feito por sua filha assim que ficou sabendo do resultado: "Mãe, sua saúde não está legal e você vai continuar neste processo insano? Para que você quer fazer doutorado mesmo?".

Era exatamente essa a pergunta que a faria repensar nos rumos da sua vida: “Fez muito sentido escutar aquilo da minha filha naquele momento. Eu precisava parar, baixar a bola do ego, cuidar da minha saúde e sair da adrenalina viciante do ‘ter que fazer’, foi quando solicitei o cancelamento da minha vaga na universidade para dar atenção exclusiva ao meu tratamento. 

Decidiu mesmo encerrar esse ciclo, até para abrir lugar para aqueles que pudessem melhor aproveitar sua vaga. Em seguida decidiu investir em um curso de criatividade, buscando uma metodologia e um local onde pudesse expressar aquilo que considerava guardado dentro de si. Iniciou o curso pintando seu próprio corpo nú: “Pintei meu corpo com flores e foi uma experiência incrível. Ousei. Me senti livre. Me permiti vivenciar a própria arte livre dos julgamentos".

(Arquivo pessoal/Divulgação)

E esse libertar de alma a levaria ainda mais longe, talvez, de suas raízes e seu trabalho, mas rumo ao seu próprio “descobrimento”.

“Quando deixei a odontologia, comentei com alguns amigos que precisava me encontrar pois me sentia desconectada da minha essência. E eles me alertaram: ‘Rúbia, o que você procura não está fora, mas dentro de você!’. Foi aí que decidi ir para a Índia. Viajei com meu marido e com meu filho para me descobrir. Lá pude esvaziar a xícara. A gente vai colocando tantas informações dentro da gente que nem percebe quando extravasamos a ponto de não caber mais nada".

Em sua viagem, entre outras coisas, Rubia decidiu cortar todo o cabelo e raspar a cabeça. “Na Índia desapeguei de muitas crenças, até dos cabelos. Fiquei careca, foi uma sensação de libertação maravilhosa. Fui aprendendo a fluir e viver o presente. Me conscientizei de que precisamos de muito pouco para viver e sermos genuinamente felizes.”

(Arquivo pessoal/Divulgação)

Mas nem tudo são flores nessa história de transição de vida e autoconhecimento. Rubia foi diagnosticada com três diferentes tipos de doenças autoimunes em distintos períodos de sua vida, e conseguiu administrar escutando o seu corpo, mudando sua alimentação e exercitando uma série de técnicas que aprendeu e desenvolveu com as práticas de yoga e meditação.

Antes de avançarmos queremos explicar um pouco melhor sobre as doenças autoimunes. Esse é um termo utilizado para designar um grupo de doenças, onde o sistema imunológico ataca o próprio corpo. Por motivos variados e nem sempre esclarecidos, o nosso corpo começa a confundir suas próprias proteínas com agentes invasores, passando a atacá-las.

Portanto, uma doença autoimune é uma doença causada pelo nosso sistema imunológico, que passa a funcionar de forma inapropriada. Para aqueles interessados em mais informações, vamos compartilhar ao final da matéria.

E voltemos à nossa entrevistada...

No segundo ano da faculdade, Rubia desenvolveu a Psoríase - uma doença inflamatória não contagiosa da pele, onde o sistema de defesa do corpo ataca as células dermatológicas causando lesões.

Após 10 anos de formada, ela descobriu que estava com Retocolite Ulcerativa Intestinal (RCU) - uma doença inflamatória crônica não contagiosa que gera ulcerações no intestino grosso e no reto.

Já no início da pandemia da Covid-19 em 2020, 10 anos depois da RCU e da psoríase, Rubia foi diagnosticada com Artrite Psoriática - um tipo de artrite crônica que pode aparecer nas articulações de pessoas que têm psoríase.

Todas essas doenças citadas causam uma infinidade de sintomas, incômodos e dores. Entre os sintomas estão: inchaço, deformidade nas articulações, dor, dificuldade para movimentar as articulações, presença de manchas vermelhas na pele, coceira, descamação e alterações a nível ocular, cardíaco, pulmonar ou renal, entre outros pontos difíceis de lidar no dia a dia.

"Quando o corpo fala, mas não escutamos, o corpo simplesmente grita até a gente escutar." – nos contou Rubia. 

Diante dos quadros com os quais foi se deparando, Rubia sentiu a morte e o renascimento diversas vezes. Enfrentou alguns momentos com muita dor, outros menos, mas depois de assimilados, nascia a aceitação, o perdão e o acolhimento. Foi através da dor física que ela teve o seu despertar e se transformou em uma nova pessoa.

O autoconhecimento, a meditação, o yoga, muitos exercícios de paciência e boas doses de bom humor fizeram parte integrante desta jornada de autocura.

(Arquivo pessoal/Divulgação)

Aprendemos com ela que é preciso ter paciência quando optamos por um processo de cura pela mudança de estilo de vida, e assim alcançar a saúde física, mental e emocional. Na busca pela cura, o imediatismo não tem espaço, tudo leva um tempo, inclusive a renovação celular na incorporação de um novo padrão.

Rubia também precisou se tornar vegetariana, pois, diante de suas frequentes lutas contra as doenças autoimunes, descobriu que seu organismo rejeitava alimentos de origem animal. E aos poucos se tornou vegana.

Testando pratos para seu consumo, acabou se apaixonando pela gastronomia vegana plant based - à base de plantas e grãos germinados.

"Tomei gosto pela gastronomia vegana, fiz vários cursos e comecei a criar experiências diferentes diante da nova forma de me alimentar. Adoro cozinhar, para mim é pura criatividade. Não sigo receitas e vivo trocando ingredientes. Uma simples beterraba pode ser transformada em uma flor, e assim ela muda até o sabor. A magia da combinação dos alimentos em cor e sabor desperta os sentidos, aquece o coração e nutre muito mais do que o corpo, nutre a alma."

(Arquivo pessoal/Divulgação)

Depois de anos lidando com as adversidades do seu corpo, nossa entrevistada começou um profundo processo de autocura que se iniciou através de um diálogo atento com seu próprio organismo.

Fui para um retiro de 21 dias, onde fiz jejum de alimentos e de palavras. Fiquei sem comer e sem falar, apenas bebia água. Desconectei-me de tudo e busquei entender o que meu corpo precisava para se curar. Foi em silêncio, praticando meditação que comecei o processo de autocura. Parei com as medicações para limpar meu organismo. Li 8 livros nesse período, descansei, dormi e escrevi muito...  o mais importante foi limpar minhas células, meus órgãos e consequentemente, todo meu corpo físico, mental, emocional e energético.”

Rubia nos ensinou que com muita determinação e um olhar atento às falas de nosso próprio corpo, podemos alcançar certos milagres. A eterna vigilância é a prática daqueles que não querem retroceder.

Assumi um compromisso comigo. Acordo cedo para as minhas práticas de Ashtanga Yoga, não abro mão deste autocuidado. Essa prática tem me ajudado muito, traz conexão com a minha essência, e o silêncio ajuda na limpeza celular, melhorando a minha imunidade. Me alimento de forma amorosa, criativa e saudável, durmo cedo e acordo mais cedo ainda. A disciplina tem sido a minha liberdade e a minha conquista de saúde.”

Finalizou a entrevista dizendo: "Olhando para minha jornada e tudo o que aconteceu até o momento; tanto os pontos positivos, como os desafios, as dores e os medos, tudo contribuiu para as minhas constantes descobertas e transformações. Aprendi a pegar meus medos no colo e conversar com eles: ‘Aqui também tem coragem, vamos juntos e estará tudo bem’. Aprendi também a encerrar ciclos nos quais não me enquadro mais. É muito importante saber tomar essa decisão."

Assim terminamos nossa entrevista que começou no Brasil e terminou na Espanha. No momento, Rubia está junto de sua mãe visitando a irmã em Barcelona. E após se formar como Terapeuta Prânica e Consteladora Sistêmica, ela aproveita a pausa para planejar novos projetos, um deles é a Mentoria de Mudança de Estilo e Energia, o qual engloba saúde física, emocional e energética. Estamos na torcida para que ela possa transbordar todas as suas experiências e conhecimento adquirido em forma de ajuda ao próximo. E assim o círculo virtuoso se faz. Uma hora somos aprendizes, em seguida os mestres e vice-versa, talvez essa seja a real beleza da vida.


*Essa matéria faz parte de um projeto colaborativo de entrevistas com pessoas inspiradoras que nos encorajam a ampliar nossa visão de mundo.

As histórias trazem quebras de paradigmas e nos convidam a transcender nosso pensamento e observar através de uma nova janela: mais autêntica e cheia de singularidades.

Coletivo: Adriana Jarva, Renata Orrico e Luah Galvão - criadoras e entrevistadoras

DOENÇAS AUTOIMUNES – INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR

Nosso organismo possui um complexo sistema de defesa contra invasões de agentes externos, sejam eles: bactérias, vírus, fungos, parasitas, proteínas, ou qualquer outro ser ou substância que não seja natural do corpo. Este sistema de defesa é chamado de sistema imunológico.

O processo evolutivo criou um mecanismo de defesa capaz de reconhecer praticamente qualquer invasão ou agressão ao nosso corpo. A complexidade do sistema está exatamente em conseguir distinguir entre:

  1. O que é danoso ao organismo, como vírus e bactérias;
  2. O que faz parte do nosso próprio corpo, como células, tecidos e órgãos;
  3. O que não é naturalmente nosso, mas não causa danos, como, por exemplo, alimentos que entram no corpo pela boca.

Toda vez que o sistema imunológico se depara com alguma substância estranha, que ele interpreta como potencialmente danosa, passa a produzir células de defesa e anticorpos para combatê-la.

Apesar dos pacientes com doenças autoimunes poderem apresentar alguns sinais e sintomas inespecíficos, como cansaço, febre baixa, desânimo, emagrecimento e mal-estar geral, a verdade é que o quadro clínico de cada doença autoimune é muito diferente.

Não existe, portanto, um sintoma que seja específico das doenças autoimunes. Cada doença tem seu próprio quadro clínico. O diagnóstico das patologias autoimunes é habitualmente feito com base no quadro clínico e na pesquisa de autoanticorpos no sangue.

Fonte.: mdsaude.com