Por que liberdade para mulheres representa avanços para toda a sociedade?

Brasil perdeu posições no relatório da Freedom House, chegando à posição 73 entre 210 países, avaliados de 2020 a 2021
"Extremismo, tanto da direita quanto da esquerda, leva ao controle da mulher" (Carlos Alberto d Alkmin/Getty Images)
"Extremismo, tanto da direita quanto da esquerda, leva ao controle da mulher" (Carlos Alberto d Alkmin/Getty Images)
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Nosso Olhar

Publicado em 16/08/2022 às 17:40.

Última atualização em 16/08/2022 às 17:49.

Yasmine McDougall Sterea

Em tempos de caos, a liberdade da mulher é a primeira a ser questionada. Por isso a importância dessa escrita, dessa coluna, e do meu retorno depois de uma breve pausa. A pausa foi necessária, pois nos últimos meses tive que focar todas as minhas energias para levar o Free Free, o ecossistema de impacto que sou fundadora e CEO, para outros países. Mas aqui estou, de volta, para dialogar, trocar e possivelmente inspirar você leitor e leitora a caminhar comigo nessa jornada de liberdade feminina.

Quando falo sobre liberdade feminina, falo da liberdade de aproximadamente metade da população mundial. Quando libertamos uma menina e uma mulher, também libertamos um menino e um homem. E por que ainda vemos a tentativa de controle do corpo, da voz, do emocional, das finanças femininas se isso afeta a todos e todas nós? A liberdade vira vilã quando o mundo vivencia uma das maiores recessões da história. A liberdade vira vilã quando aqueles que detêm o poder hoje temem sua queda.

A objetificação da mulher existe há milhares de anos porque tradicionalmente quando uma mulher é categorizada como um objeto ela necessariamente é inserida em um papel passivo na sociedade e o homem em um papel ativo (Joan Johnson-Freese). O papel ativo representa mais poder para o grupo dominante, mas isso não significa que seja melhor (próspero, seguro, estável) para a sociedade, ou mesmo para aqueles com sede de poder a qualquer custo.

O Brasil está com um índice de fome extremamente alto, com 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente, o que representa um retrocesso de três décadas.

O Brasil vive tempos de extrema violência, com oito mulheres que sofreram algum tipo de agressão a cada minuto na pandemia, além de um estupro a cada 10 minutos e um feminicídio a cada 7 horas em 2021, e os recentes casos do médico que estuprou uma mulher durante seu parto ou o debate se era legal ou não que uma menina grávida de 11 anos em decorrência de um estupro tivesse o direito ao aborto quando o mesmo é previsto em lei, o que só mostra que caminhamos passos para trás.

A queda de Roe x Wade nos Estados Unidos também indica que cada vez mais a liberdade da mulher está sendo usada como mecanismo de controle e fome de poder. Enquanto isso, a tirania vem tomando conta de países pelo mundo.

“Enquanto uma pandemia letal, insegurança econômica e física, e conflitos violentos devastavam o mundo, os defensores da democracia sofreram novas e pesadas perdas em sua luta contra inimigos autoritários, mudando o equilíbrio internacional em favor da tirania (Freedom House, 2021)”.

Enquanto o Brasil é considerado um país livre pelo relatório de 2021 da Freedom House, batendo o número 73 de 210 países, entre 2020 e 2021, o Brasil caiu de 1-2 pontos. Segundo a Freedom House, a pesquisa avalia o acesso das pessoas a direitos políticos e liberdades civis. As liberdades individuais, desde o direito ao voto à liberdade de expressão e igualdade perante a lei, podem ser afetadas por fatores do Estado e fatores não estatais.

O Brasil está ao lado dos Estados Unidos, Itália, Polônia, Israel, Hungria e Filipinas, países que começaram a se afastar da democracia em direção ao populismo na última década (Joan Johnson-Freese). O extremismo tanto da direita quanto da esquerda leva ao controle da mulher como é feito há milhares de anos.

Em tempos de eleições, é necessário voltar ao assunto de mais mulheres na política. Não só por uma questão de justiça social, e por termos apenas 15% de mulheres no Congresso, mas porque mulheres no poder são eficientes e primordiais para trazer um maior equilíbrio às decisões. Mulheres têm um maior compromisso com a colaboração que os homens quando não tentam replicar estratégias de lideranças tipicamente masculinas.

Mulheres já mostraram repetidamente em cenário global que quando trabalham juntas, mesmo com visões de mundo diferentes, conseguem encontrar soluções e consensos que beneficiam a todos e todas. Um bom exemplo desse tipo de colaboração foi quando mulheres católicas e protestantes no norte da Irlanda se uniram com o slogan "Diga adeus aos dinossauros" para acabar com a violência e trazer a paz em um cenário de guerra civil que dividiu e provocou violência e instabilidade por décadas.

Imagine o que mulheres brasileiras, de direita e de esquerda, podem fazer juntas pelo Brasil frente ao caos que vivemos? Não serão apenas as mulheres as únicas beneficiadas como muitos imaginam, muito pelo contrário, todas e todos nós, mulheres, homens, meninas e meninos viverão com mais harmonia, paz, segurança e prosperidade.

As velhas formas de poder não cabem mais, não funcionam mais. Vivemos tempos que clamam por colaboração, união e mais liberdade. Liberdade essa que vem com responsabilidade e empatia para criar um futuro onde meninas e meninos, mulheres e homens vivem com respeito e dignidade.