Colunistas

As diferenças de um Karmann-Ghia para um Nivus GTS em um rali de regularidade

Participamos do Campeonato Paulista Rally Clássico com dois modelos da Volkswagen totalmente distintos, mas o resultado foi o mesmo

Um exemplar preservado do Volkswagen Karmann-Ghia, exibindo placa de coleção e adesivos de participação em rali, parado à beira de uma estrada brasileira. (Divulgação)

Um exemplar preservado do Volkswagen Karmann-Ghia, exibindo placa de coleção e adesivos de participação em rali, parado à beira de uma estrada brasileira. (Divulgação)

Rodrigo Mora
Rodrigo Mora

Colunista

Publicado em 26 de abril de 2026 às 08h01.

Carro antigo, sabe como é: melhor não confiar no marcador de combustível e checar se há mesmo gasolina no tanque. Num Karmann-Ghia, basta abrir o capô, desrosquear a tampa do reservatório e dar aquela fungada — quanto mais forte o cheiro, mais gasolina tem. Tudo pronto então para a última etapa da temporada 2025 do Campeonato Paulista Rally Clássico.

Fechei a competição em grande estilo. Não por causa do meu desempenho, mas por ter como companheiro um dos mais de 500 carros do acervo do Carde. Ano 1972, o cupê marcava apenas 4.302 quilômetros no odômetro.

Nossa relação começou com trocas de gentilezas: sentei no banco delicadamente e fechei a porta com carinho; ele devolveu dando partida no motor prontamente e me oferecendo um câmbio de engates tranquilos. Porém, mal a prova havia começado e, chegando a uma cabine de pedágio, o freio simplesmente sumiu. Parecia o fim, mas, com algumas bombadas no pedal, foi possível segurar novamente os pouco mais de 800 kg do Karmann-Ghia.

Quando sua produção começou no Brasil, em 1962 (sete anos após a estreia na Alemanha), o modelo era equipado com motor 1.2, que em 1967 saltou para 1.5 e finalmente para 1.6 em 1970, mesmo ano da chegada dos freios dianteiros a disco.

Todos, contudo, traziam bobina e alternador, prováveis razões da segunda rebeldia do dia, e que me obrigaram a recorrer ao acostamento após o motor falhar.

Mas nem por isso brigamos. Aceitei como ensinamentos que só os clássicos são capazes de nos transmitir — a convivência com um carro antigo exige truques de mecânica, como “pegar no tranco” e desligar os faróis para não demandar mais da bateria.

Em relação à prova, quando se tem nas mãos um pedaço peculiar da indústria nacional, a planilha de navegação acaba sendo esquecida. O importante ali era a jornada.

E assim seguimos até a chegada, na Garagem Volkswagen, onde tivemos a confirmação da óbvia última colocação.

Vez do Nivus GTS

Nivus foi mais confiável, mas sem o charme de um clássico (Divulgação)

Como o novo regulamento do Campeonato Paulista Rally Clássico passou a aceitar novos e futuros clássicos, decidi começar a temporada 2026 com um Nivus GTS.

Se naquele Volkswagen dos anos 1970 o volante de aro fino tinha só uma buzina para oferecer, nesse SUV com roupagem esportiva há controles até para manter a velocidade constante. E aqui não há como duvidar do marcador de combustível.

A diferença de potência também demonstra a evolução do automóvel em 54 anos: dos 60 cv extraídos do motor boxer 1.6, passamos para 150 produzidos por um 1.4 turbo. Só não haveria muitos truques disponíveis numa eventual falha devido à complexidade dos sistemas e componentes que dominam os automóveis atuais.

Com central multimídia, ar-condicionado, bancos maiores e um painel digital no lugar de um analógico que trazia apenas velocímetro, a viagem certamente foi mais confortável e segura - embora menos charmosa.

O que não mudou de uma prova para a outra foi a falta de habilidade: último lugar, de novo.