Os últimos lances eleitorais: Lula cresce e Moro se candidata ao Senado

Lula cresce quando alguns assessores estavam se incomodando com as declarações mais à esquerda do candidato e recomendavam moderação
 (Montagem/Exame)
(Montagem/Exame)
Por Money Report – Aluizio Falcão FilhoPublicado em 27/05/2022 12:54 | Última atualização em 27/05/2022 12:54Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Aluizio Falcão Filho

Luiz Inácio Lula da Silva ganhou musculatura na última pesquisa Datafolha. Ele saltou cinco pontos e poderia vencer no Primeiro Turno, caso as eleições fossem realizadas hoje. Chama atenção também o salto do petista na enquete espontânea: ele pula de 30 %, registrados no final de março, para 38 %. Em tese, a atual enquete do Datafolha não pode ser comparada com a de março porque as duas estudaram cenários com candidatos diferentes. Mas o tamanho do crescimento de Lula é espantoso, causando estranheza entre muitos analistas e chacota junto aos governistas, que mais uma vez desfilaram descrédito em relação às sondagens eleitorais.

Uma pequena parte deste aumento de votos pode ser creditada à saída de João Doria do páreo. Mas, se essa tendência for confirmada por outras pesquisas, a grande razão está na economia, em especial a inflação e os altos índices de desemprego. Toda a insatisfação em torno dos preços de combustíveis também deve ter contribuído para este novo cenário – e o fato de o presidente Jair Bolsonaro ter trocado outra vez a presidência da Petrobras mostra que o tema é importante do ponto de vista político.

Lula cresce quando alguns assessores estavam se incomodando com as declarações mais à esquerda do candidato e recomendavam moderação. Essas advertências podem ficar no vazio com a aceleração do petista nessa última enquete.

Se houver mesmo uma nova onda lulista, como Bolsonaro deverá reagir? A reação mais plausível deve ser o endurecimento de seu discurso contra o esquerdismo, enaltecendo o valores conservadores e elevando a octanagem dos ataques contra a Alta Corte e o sistema eleitoral.

O salto de Lula, no entanto, não foi a única novidade política da semana.

Finalmente, o ex-ministro Sergio Moro admitiu o que todos desconfiavam: é pré-candidato ao Senado por São Paulo. Moro vem embolar uma disputa que conta com nomes fortes, como José Luiz Datena e Márcio França (alguém ainda acredita que o ex-governador possa contrariar o PT e se lançar ao Bandeirantes no lugar do ex-prefeito Fernando Haddad?).

Vamos dizer que Datena decida sair do páreo, como foi ventilado há alguns dias (o apresentador da Band teria ficado magoado com críticas feitas pelo Manda-Chuva do PL, Valdemar da Costa Neto, que já pediu desculpas). Neste caso, o banco de reservas da coligação conta com o ex-presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Em uma pesquisa divulgada nesta semana, Datena é o líder absoluto das intenções de voto, com 29 %, com Moro em segundo lugar (20 %), seguido de França (16 %). Caso o pré-candidato do PSC desista de disputar mais uma eleição (isso ocorre há pelo menos uma década), Skaf teria 14 % do eleitorado.

Moro conta com um eleitorado fiel, mas enfrenta rejeições violentas por parte do PT (uma vez que colocou Luiz Inácio Lula da Silva na cadeia) e dos governistas (rompeu com Jair Bolsonaro em meio a pesadas críticas ao presidente). A desaprovação desses dois grupos pode ser suficiente para melar seus planos eleitorais.

Uma saída mais previdente para o ex-juiz seria disputar uma cadeira na Câmara, que estaria garantida. Mas, aí, temos dois problemas. O primeiro: sua esposa, Rosângela, nutre há muito uma vontade de se eleger deputada federal por São Paulo. Teremos marido e mulher candidatos a um cargo semelhante? Algo difícil de acontecer, mas factível. O outro obstáculo estaria na vaidade do ex-ministro. Ele pode achar que ser deputado é pouco para sua exposição (e, de fato, é) e preferir se arriscar na corrida pelo Senado.

Datena parece liderar essa disputa com consistência, mas ele nunca concorreu a um cargo público antes, embora tenha sido cogitado para várias eleições ao longo dos últimos anos. Ao final de 2015, por exemplo, o Datafolha fez uma pesquisa e disse que a eleição para prefeito de São Paulo no ano seguinte ficaria entre o apresentador e Celso Russomano. Datena desistiu de concorrer e João Doria, como se sabe, foi eleito em primeiro turno.

A dúvida é: como Datena vai se comportar durante a campanha? Uma crítica bem leve de Valdemar (“ele tem coisa no passado”, disse o prócer do Centrão) o deixou melindrado, a ponto de fazê-lo cogitar o abandono da eleição. Imagine o que vai acontecer durante todo o processo. Ele terá cabeça fria para superar as provocações?

Moro aposta que Datena será uma espécie de Celso Russomano legislativo – vai largar forte e, aos poucos, perderá fôlego eleitoral. Isso até pode acontecer. Mas nada garante que o eleitor arrependido de Datena vá migrar sem escalas para o candidato da União Brasil.

Márcio França, caso resolva mesmo se lançar ao Senado, pode se dar bem e herdar eleitores de Datena, na hipótese de renúncia por parte do apresentador de TV. Mas uma parte desse capital eleitoral também pode ser transferido para Paulo Skaf, o substituto de Datena.

A disputa pode embolar de vez caso o ex-governador João Doria resolva se juntar a Datena & Cia. Mas, por conta da alta rejeição que amealhou nos últimos meses de governo, esse seria um movimento extremamente arriscado por conta de Doria (que se elegeria fácil como deputado).

Diante desse cenário, uma coisa é certa: a eleição para senador, que em 2022 escolhe apenas um parlamentar, está totalmente aberta. Qualquer um dos principais nomes pode ganhar e há inclusive espaço para que alguém novo cresça em termos de intenções de voto. Nos quatro cenários pesquisados pela Real Time Big Data e divulgada pela TV Record, os indecisos e nulos/brancos somados vão de 23 % a 38 %. É mais do que suficiente para provocar uma dança das cadeiras nos primeiros lugares nesta prova, na qual há apenas um vencedor.

O crescimento de Lula é uma má notícia para Moro, cujo nome é desaprovado pelos eleitores do petista. Mas o cenário está tão esquisito que muitos anti-bolsonaristas podem simpatizar com a candidatura do ex-juiz. É aquela história: o inimigo do meu inimigo acaba sendo meu amigo – mesmo que seja também meu inimigo.