Os debates presidenciais vão servir para alguma coisa em 2022?

Nesta altura do campeonato, muitos assessores de Lula e de Bolsonaro acreditam que os debates podem trazer resultados negativos
Debate eleitoral de 1989 (YouTube/Reprodução)
Debate eleitoral de 1989 (YouTube/Reprodução)
Por Money Report – Aluizio Falcão FilhoPublicado em 30/05/2022 11:49 | Última atualização em 30/05/2022 11:49Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Aluizio Falcão Filho

O Brasil passa por mais uma campanha eleitoral polarizada. A diferença, em relação a 2018, é que o número de indecisos, neste ano, é muito menor. Segundo um estudo do site Jota, a média de eleitores indecisos em 2022, até maio, é de 5 % sobre o total. Nos cinco primeiros meses de 2018, no entanto, esse mesmo indicador era de 26,5 %.

Isso quer dizer que chegaremos à reta final dessas eleições com o eleitorado cada vez mais dividido e decidido. A única questão é: Luiz Inácio Lula da Silva irá ampliar sua vantagem nas sondagens ou Jair Bolsonaro conseguirá se recuperar?

Até 2018, os debates presidenciais eram vistos pelos candidatos como cruciais em suas estratégias. Essas seriam ocasiões perfeitas para que pontos importantes dos programas de governo fossem apresentados para conquistar um bom contingente de hesitantes. No entanto, desde o pleito passado, quando o candidato Jair Bolsonaro não participou de todos os embates, os efeitos práticos dos debates são questionados pelos analistas – especialmente em relação aos eleitores mais jovens.

Além da polarização, há um outro fator que interfere diretamente na escolha de um candidato – o cenário econômico. Neste caso, o panorama prejudica o presidente Bolsonaro, que sofre com uma economia debilitada pela inflação e pelo alto número de desempregados. Curiosamente, tal situação poderia abrir discussões econômicas produtivas. Mas dificilmente vamos ver os economistas de Lula em campo para discutir eventuais fragilidades macroeconômicas com a equipe de Paulo Guedes.

Os coordenadores da campanha petistas preferem jogar em cima da rejeição pessoal de Bolsonaro e deixar de lado debates econômicos que possam criar problemas para seu candidato. Assim, Lula vai investir na nostalgia do eleitor, sempre reforçando que, em seu mandato, a economia esteve melhor (a explicação de que o boom das commodities, que propiciou o crescimento nos anos 2000, não foi fruto de uma política petista será estrategicamente deixada de lado).

Neste cenário, os programas de governo devem ser condenados ao esquecimento e os debates podem ser esvaziados irremediavelmente, especialmente se um dos principais candidatos resolver não participar.

Nesta altura do campeonato, muitos assessores de Lula e de Bolsonaro acreditam que os debates podem trazer resultados negativos. Para o comitê de reeleição do presidente, inclusive, as redes sociais podem gerar o mesmo tipo de discussão, dentro de um ambiente em que a militância pode fazer grande diferença.

Dessa forma, os debates televisivos, que já tinham um formato cada vez mais engessado ao longo dos anos, podem perder importância definitiva a partir deste ano. A fórmula de uma hora e meia, com réplicas e tréplicas, foi criada em uma época na qual a internet não existia ou apenas engatinhava. Talvez não consiga mais prender a atenção de quem fica freneticamente surfando redes sociais e portais de notícias.

Mas nem sempre foi assim. Somente depois dos anos 1990 é que os debates foram tolhidos por regras que evitam diálogos ou uma maior interação entre os postulantes.

O primeiro debate ocorrido em 1982, por exemplo, reuniu os presidentes estaduais (seção São Paulo) dos maiores partidos da época: Mario Covas (PMDB) e Armando Pinheiro (PDS), sob a mediação do jornalista Joaquim Ferreira Netto. Covas começou a discussão levantando um prejuízo gigantesco que as estatais paulistas tinham dado no governo de Paulo Maluf. Pinheiro retrucou, bem ao estilo dos tempos hiperinflacionários: “E desde quando estatal tem que dar lucro?”. A temperatura foi subindo e, ao final de uma hora, uma sucessão de gritos fez Ferreira Netto encerrar a peleja.

Entre os candidatos a governador, o ex-prefeito de São Paulo, Reynaldo de Barros, questionou o senador Franco Montoro sobre cinco aposentadorias que o parlamentar acumulava. Durante a resposta de Montoro, Reynaldo ficava repetindo, feito um disco riscado: “Cinco aposentadorias… cinco aposentadorias… cinco aposentadorias…”. Depois da quarta vez, o senador gritou: “Cale a boca”. O ex-prefeito ficou, finalmente, quieto. Mais à frente, outro candidato, Rogê Ferreira (PDT), disse, fazendo trocadilho, que Reynaldo era o representante da “má lufada que se abateu sobre São Paulo”. A plateia riu tanto que o ex-prefeito não conseguiu ser ouvido em sua réplica.

Por fim, em outra ocasião, Montoro quis saber de Jânio Quadros se ele confirmava o que fora escrito a seu respeito em um livro de história. O ex-presidente perguntou quem era o autor daquele trecho em particular. O então senador respondeu que o depoimento era de Carlos Lacerda, antigo inimigo de Jânio. “Está dispensado da citação porque o senhor acaba de querer citar as escrituras valendo-se de Asmodeus ou de Satanás. Não quero ouvi-la”, alfinetou Jânio. Todos riram, incluindo Montoro.

Detalhe: Lula era candidato ao governo de São Paulo em 1982. Mas não protagonizou nenhuma cena memorável nestes embates da TV. Quarenta anos atrás, ninguém imaginaria que ele chegaria à presidência em duas décadas. E que, em 2022, ainda estaria disputando o Palácio do Planalto.

Se os debates atuais contassem com esses personagens, a audiência seria altíssima. E essas respostas sarcásticas virariam lacres que seriam imortalizados nas redes sociais.