O caso de assédio na Caixa mostra que a sociedade ainda precisa evoluir muito

Há um número considerável de depoimentos que servem de base para a acusação de assédio sexual, com lamentáveis episódios de intimidade forçada
 (Roberto Vazquez/FuturaPress)
(Roberto Vazquez/FuturaPress)
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Money Report – Aluizio Falcão FilhoPublicado em 30/06/2022 às 13:24.

Vamos deixar bem claro: assédio sexual é uma deformação de caráter. Tem mais a ver com o exercício do poder do que com qualquer questão relacionada ao sexo. Aquele que assedia alguém sexualmente o faz para exercer sua autoridade em primeiro lugar. O caso do agora ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães (imagem), parece ser assim. Há um número considerável de depoimentos que servem de base para a acusação de assédio sexual, com lamentáveis episódios de constrangimento e intimidade forçada. “Ele passou a mão em mim. Foi um absurdo. Ele apertou minha bunda. Literalmente isso”, disse uma das funcionárias da Caixa ao site Metrópoles.

Guimarães pediu demissão diretamente ao presidente Jair Bolsonaro no final da tarde de ontem e sua substituta já foi escolhida: a secretária Daniella Marques, hoje a assessora mais influente de Paulo Guedes. As evidências contra ele são muito fortes, especialmente pelo número de casos que foram registrados pelo repórter Rodrigo Rangel, autor da matéria que revelou o lado B do executivo. Havia um modus operandi, como ocorre geralmente nestas circunstâncias: mulheres bonitas eram recrutadas para compor a comitiva de Guimarães em viagens e abordadas com pedidos diversos – pretextos para que elas fossem ao seu quarto de hotel (carregadores de celular, sal de fruta e remédios seriam alguns dos itens que o presidente da instituição requisitava às funcionárias).

Os depoimentos, se comprovados, mostram uma faceta lamentável de Guimarães, que é casado com Manuella Pinheiro Guimarães, filha de José Adelmário Pinheiro Filho. Para quem não está ligando o nome à pessoa: é o Léo Pinheiro, da empreiteira OAS, que ficou conhecido durante a Operação Lava-jato. O caso, por enquanto, é investigado pelo Ministério Público. Mas o quanto antes chegar na Justiça, melhor.

A prática do assédio sexual existiu desde quando as mulheres entraram no mercado de trabalho. Mas o termo em si só se popularizou nos anos 1990, quando a advogada Anita Hill acusou o então candidato à Suprema Corte, Clarence Thomas, de investidas sexuais inapropriadas e não solicitadas. O caso, ocorrido em 1991, acabou não vingando e Thomas teve sua nomeação confirmada. Mas, logo após este episódio, as denúncias junto à Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego, o órgão que fiscaliza esse tipo de abuso, cresceram 73 %. Em seguida, o livro “Assédio Sexual”, de Michael Crichton, virou um best-seller e se transformou em filme, estrelado por Michael Douglas e Demi Moore.

A partir daí, essas duas palavras passaram a fazer parte do dia a dia corporativo. Evidentemente, há acusações infundadas no meio das denúncias (não parece ser o caso na CEF). Mas, em função disso, o comportamento dos executivos mudou ao longo dos anos. Há multinacionais, por exemplo, em as paredes dos escritórios têm de ser obrigatoriamente de vidro e as portas jamais podem ser fechadas. Em determinadas companhias, inclusive, há executivos que não recebem mulheres desacompanhadas em suas salas – apenas em grupos.

Neste cenário, qualquer pessoa de bom senso se controlaria e não correria tantos riscos como aparentemente Guimarães correu. Esta situação reflete o mundo em que vivemos. Não há mais como esconder certas verdades indesejáveis. Sempre haverá alguém disposto a falar ou um celular a postos para gravar abordagens inapropriadas.

Mesmo que o assédio não seja comprovado, daqui para frente haverá uma mudança completa na forma pela qual a Caixa vai lidar com as viagens de seus executivos, especialmente no que diz respeito à composição das comitivas para deslocamentos por motivos profissionais. Os próximos presidentes e diretores da instituição estarão sob a análise dos mais de 85 000 funcionários da CEF, todos preparados para denunciar qualquer movimento indesejado.

Os avanços de Guimarães, de qualquer forma, mostram o quanto ainda estamos longe de um panorama ideal, no qual as mulheres estão livres deste tipo de prática. Precisamos ainda evoluir muito neste quesito se quisermos ver um ambiente de trabalho seguro e justo para nossas filhas e netas. A reação do núcleo duro do governo mostra que ainda estamos longe de chegar lá. “É preciso entender o que foi de fato assédio e o que foi abraço de amigo”, disse um dos integrantes deste grupo ao site O Antagonista.

Alto lá. “Abraço de amigo” é uma coisa. Mão na bunda de uma mulher, como se queixam pelo menos duas funcionárias da Caixa, é outra, completamente diferente. Mas, pelo jeito, as colaboradoras da CEF não foram as primeiras a experimentar o comportamento indesejável de Guimarães. Ontem à tarde, já pipocavam outros relatos semelhantes, relativos à passagem do executivo por outras instituições financeiras privadas.

“O PT vai se aproveitar disso”, lamentava um empresário que tem livre acesso ao Palácio do Planalto ontem pela manhã. Vai mesmo. Neste ano de eleições, viveremos um vale-tudo. Assim, fotos de Jair Bolsonaro confraternizando com Pedro Guimarães vão circular adoidado por aí — mesmo que o presidente não tenha nada a ver com o abuso eventualmente praticado pelo correligionário. Bolsonaro parece viver uma tempestade perfeita. Primeiro, a crise na Petrobras. Depois, a prisão do ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro. Agora, esse escândalo envolvendo o CEO da Caixa.