Jovens mais politizados. Isso é ótimo para o Brasil

O Brasil registrou cerca de 2 milhões de eleitores na faixa entre 16 e 18 anos. Esse avanço significa um crescimento de 47% da base deste eleitorado
 (Agência Brasil/Marcelo Camargo)
(Agência Brasil/Marcelo Camargo)
Por Money Report – Aluizio Falcão FilhoPublicado em 06/05/2022 09:30 | Última atualização em 06/05/2022 09:30Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Os jovens que viveram sua infância e adolescência sob o regime militar, como eu, se sentiam desestimulados a entrar no jogo político. Não importava o lado do espectro ideológico no qual estavam encaixados. Fazer política na época da ditadura simplesmente não era algo instigante. Uma minoria era ativista de esquerda e outro grupo, mais diminuto ainda, defendia a situação. Mas a grande maioria preferia distância do jogo político – seja na condição de candidatos ou de eleitores.

O primeiro sinal de mudança se deu nos anos 1990, quando o governo de Fernando Collor foi vaiado nas ruas. Na mesma época, passava na televisão a série “Anos Rebeldes”, cujo tema era a canção “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. Os estudantes, com seus rostos manchados de tinta, saíram as ruas para protestar e cantavam a música em todas as manifestações, em uma rebelião que ficou conhecida como o “Movimento dos Caras-Pintadas”.

De lá para cá, os jovens foram presentes em várias manifestações de rua. Mas, nesta semana, houve um outro movimento, silencioso, que pode interferir nos resultados da eleição que se realizará em outubro.

Entre janeiro e abril, o Brasil registrou cerca de 2 milhões de novos eleitores na faixa entre 16 e 18 anos. Esse avanço significa um crescimento de 47 % sobre a base deste eleitorado. Não foi exatamente uma diligência espontânea. Uma campanha tomou conta das redes sociais para que os adolescentes tirassem seus títulos eleitorais e foram usados até dois garotos-propaganda de Hollywood – Mark Rufallo, o Hulk do Universo Marvel, e Mark Hammil, o inesquecível Luke Skywalker da série de filmes Star Wars.

Lembremos, por um instante, o que motivou os caras-pintadas a ganharem as ruas naquele longínquo ano de 1992. Quando começaram os movimentos no Congresso pelo impeachment de Fernando Collor, o então presidente fez um apelo aos seus apoiadores e pediu que eles fizessem manifestações vestidos de verde e amarelo. Uma multidão de jovens, no entanto, fez protestos vestida de preto e pintou os rostos de diversas cores, incluindo as da bandeira nacional.

Ou seja, o tiro de Fernando Collor saiu pela culatra.

Neste caso, os jovens foram estimulados para tirar seus títulos para votar em Luiz Inácio Lula da Silva, seguindo o senso comum de que a juventude é esquerdista. Mas, como em 1992, pode-se mirar no que se vê e acertar no que não se enxerga.
Uma pesquisa do site Poder 360, divulgada no mês passado, mostra que a juventude de hoje não é mais tão esquerdista assim.

Segundo esse estudo, 24 % dos jovens entre 16 e 24 anos não sabem dizer se são de direita ou de esquerda. Aqueles que afirmam ser de centro somam18 %. Jovens esquerdistas formam um grupo de 23 %. Sabe qual o percentual de garotos e garotas que são de direita? 36 %, o maior grupo entre 16 e 24 anos de idade.

Até algum tempo atras, como uma espécie de resquício da ditadura, muitos brasileiros tinham vergonha de se declarar como apoiadores da direita. Isso foi diminuindo durante o desgaste de Dilma Rousseff em seu segundo mandato, que culminou com seu impeachment. Hoje, porém, a direita saiu do armário e encontrou reverberação nas redes sociais. A própria eleição de Bolsonaro se deve ao desgaste do PT e ao surgimento deste grupo.

Portanto, a pergunta que não quer calar é: entre esses 2 milhões de novos eleitores, quem é que vai votar em Lula e em Bolsonaro?

Uma pesquisa recente da revista EXAME mostra que é um cenário aberto. Este estudo ouviu 1.000 jovens entre 16 e 24 anos no início de abril. Dessa mostra, 27 % se disseram de esquerda; 22% de direita; 12 % afirmaram ser de centro. E 40 % afirmaram não ter uma agenda ideológica definida. Em tese, esses números deixam mais dúvidas do que certezas.

Quem terá uma militância jovem mais aguerrida e organizada? Saberemos essa resposta, pelo jeito, apenas em outubro.
Mas, no longo prazo, essa movimentação da juventude para votar é excepcional para o país. Precisamos urgentemente de renovação política e engajamento maior da sociedade. A única maneira de começar isso é com o interesse dessa garotada nas eleições.