Doria desiste da candidatura. O PSDB está trocando seis por meia dúzia?

Como se sabe, a intenção do Politburo tucano é fechar uma frente única com o MDB e o Cidadania em torno do nome da senadora Simone Tebet
Em pouco tempo na vida política, João Doria já colecionou vários desafetos (Christopher Goodney/Bloomberg)
Em pouco tempo na vida política, João Doria já colecionou vários desafetos (Christopher Goodney/Bloomberg)
Por Money Report – Aluizio Falcão FilhoPublicado em 23/05/2022 13:23 | Última atualização em 23/05/2022 13:23Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Nesta manhã, os dirigentes do PSDB conseguiram demover o ex-governador João Doria de se lançar candidato à presidência da República pelo partido, conforme havia sido definido pelas prévias do ano passado. Por volta do meio-dia, com a voz embargada, o ex-governador anunciou: “Serenamente, entendo que não sou a escolha da cúpula do PSDB”.

Como se sabe, a intenção do Politburo tucano é fechar uma frente única com o MDB e o Cidadania em torno do nome da senadora Simone Tebet. O argumento usado é o de que Doria teria pouquíssimas chances de vitória e, assim, sua candidatura representaria um risco para a sigla.

O tucano, na última pesquisa Datafolha, aparece com 3 % das intenções de voto, enquanto Tebet registra 1%. Qual a lógica de trocar quem tem 3% por alguém que possui 1%? A resposta dos cartolas tucanos: a senadora teria menor rejeição, o que significaria maior potencial de crescimento.

De fato, Tebet registra índice menor de rejeição que Doria. Mas talvez esse resultado seja decorrente do fato de a senadora ser menos conhecida que o ex-governador. Mesmo assim, é preciso levar em consideração que Doria produziu uma forte onda de desaprovação quando se desentendeu com o padrinho político, Geraldo Alckmin, virou opositor do presidente Jair Bolsonaro (depois de ser eleito com o mote “Bolsodoria”) e fechou o comércio durante a pandemia (algo criticado fortemente pelos donos de estabelecimentos paulistas).

De qualquer forma, é preciso substância para crescer nas pesquisas. Estabelecer uma narrativa consistente durante a campanha. Assim, apesar da maior rejeição, o ex-governador tinha mais a contar do que a senadora — até porque comandou o maior estado do país. Fez uma administração elogiada por quem entende de contas públicas e foi o paladino da vacina contra a Covid-19 no país. Mesmo assim, não conseguiu despontar entre os preferidos do eleitorado.

Para Doria, a eleição de 2022 seria uma reedição dos pleitos que disputou anteriormente, nos quais largou lá atrás e conseguiu a vitória. A diferença é que, antes, ele havia disputado os votos dentro de seu próprio estado. No âmbito nacional, ele sofre rejeições que vão desde o estilo ajanotado até o gosto por ações agressivas de marketing.

Apesar de Doria contar com mais capital político que Tebet, teria chances escassas de vitória. A atual eleição tem a polarização política como sua principal característica. Dessa forma, o voto útil (seja em Luiz Inácio Lula da Silva ou em Bolsonaro) parece ser a alternativa da maioria dos eleitores que não enxergariam os candidatos do PT e do PL como primeiras opções.

Dias atrás, em uma carta endereçada à cúpula tucana, Doria falou em “golpe” para retirar seu nome da disputa. O uso dessa expressão gerou melindres entre os caciques peessedebistas. Mas, diga-se, essa é a melhor definição para o que está acontecendo. A Executiva do partido mudou as regras das prévias para prejudicar Doria, mas ele as ganhou assim mesmo. Depois, conspirou-se até dizer chega dentro do PSDB para afastar o ex-governador. Quando isso se tornou praticamente impossível, produziu-se a solução da frente com o MDB e o Cidadania.

Em pouco tempo na vida política, João Doria já colecionou vários desafetos. Um deles é o ex-governador Marcio França, a quem derrotou em 2018. Curiosamente, ele e João Doria estão em uma situação parecida. França era nome certo para a disputa do governo do Estado em outubro e só estava disposto a renunciar de suas intenções se fosse vice de Geraldo Alckmin. Como se sabe, Alckmin aceitou o convite de ser vice-presidente na chapa de Lula e deixou a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

Ocorre que o PSB, partido de França, se aliou ao PT de Lula – que não abre mão de lançar Fernando Haddad para o governo paulista. Ou seja, França quer ser candidato, mas enfrenta resistência do partido, que prefere não disputar um determinado leito em função de uma aliança maior.

Quem diria? Dois grandes inimigos passando por situações parecidíssimas em um mesmo ano eleitoral.

Sem a legenda, o que fará Doria? Uma opção seria o Senado, mas é um movimento arriscado. Um caminho seguro seria o de concorrer a uma cadeira na Câmara Federal. Uma eleição segura, que traria um palanque de quatro anos ao ex-governador. O problema é que parece pouco para as ambições do (ainda) tucano. Em seu discurso de desistência, ele disse ser um soldado do Brasil seja na esfera pública como na privada. Isso mostra que Doria ainda não decidiu o que vai fazer no futuro.

Mas essa decisão será tomada rapidamente. O ex-governador é daqueles que não demoram para se levantar.