A Terceira Via vai se aglutinar em torno de Lula?

Vamos imaginar que Lula chegue ao segundo turno contra Bolsonaro. Como ficarão os eleitores que rejeitam os dois candidatos?
Luiz Inácio Lula da Silva (Buda Mendes/Getty Images)
Luiz Inácio Lula da Silva (Buda Mendes/Getty Images)
Por Money Report – Aluizio Falcão FilhoPublicado em 31/05/2022 12:47 | Última atualização em 31/05/2022 12:47Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Aluizio Falcão Filho

A pesquisa divulgada ontem pelo BTG Pactual mostra que, neste momento, o principal beneficiado pelo esvaziamento da Terceira Via é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de um crescimento de Jair Bolsonaro em abril. Em março, a soma dos índices dos nomes alternativos ao Planalto chegava a 24 %. Com a saída de Sergio Moro da disputa, este indicador caiu para 17 % no mês passado. Foi a vez de Jair Bolsonaro crescer, saindo de 29 % para 32 % (enquanto Lula caía de 43 % para 41 %). Mas, agora, após a retirada de João Doria do páreo, a Terceira Via diminuiu para 13 %. Neste mesmo período, Jair Bolsonaro ficou estagnado em 32 %, enquanto o ex-presidente saiu de 41 % para 46 % (estamos falando em números de escolha estimulada).

Evidentemente, o único responsável pelo crescimento de Lula não foi a renúncia do ex-governador de São Paulo. O desempenho da economia – em especial a inflação – tem uma interferência forte no panorama eleitoral. Uma pesquisa do Datafolha divulgada ontem mostra que 77 % dos entrevistados consideram que o cenário econômico tem influência na escolha do candidato.

Outra sondagem – da XP Investimentos – mostra que as dificuldades do governo em relação à economia não desaparecerão tão cedo. A enquete, realizada junto a 44 investidores institucionais na semana passada, mostra que a expectativa do mercado é de que o IPCA feche o ano de 2022 em 9,00% (ante 8,87% da última previsão).

A pesquisa do BTG também mostra a distribuição do eleitorado dos principais candidatos. Lula tem melhor desempenho que Bolsonaro junto aos católicos e às mulheres. Bolsonaro arregimenta a maioria dos evangélicos e tem mais eleitores masculinos que femininos.

Lula controla 52 % dos sufrágios católicos e 35 % dos pentecostais. Já Bolsonaro recebe 46 % dos votos evangélicos e 27 % dos seguidores da Igreja Apostólica Romana. O detalhe é que há mais católicos que evangélicos (50 % da população declaram a fé católica, contra 35 % de evangélicos) no Brasil.

O mesmo fenômeno ocorre na divisão de gêneros. Lula tem mais eleitoras que eleitores (51 % e 41 %, respectivamente, do universo total), enquanto Bolsonaro tem melhor desempenho entre os homens (40 % do total masculino e somente 25 % das mulheres). É preciso lembrar que o sexo feminino representa 52 % da população brasileira.

A polarização que se enxerga nas redes sociais pode ser vista no grau de firmeza de candidaturas alternativas aos dois principais nomes da campanha. Cerca de 55 % dos apoiadores de Ciro Gomes admitem que podem mudar o voto até outubro; com Simone Tebet, esse índice chega a 63 %. Ou seja, o fenômeno do voto útil ainda no primeiro turno é uma realidade concreta e pode esvaziar ainda mais os concorrentes de Lula e de Bolsonaro.

Vamos imaginar que Lula chegue ao segundo turno contra Bolsonaro. Como ficarão os eleitores que rejeitam os dois candidatos? Uma parte vai de branco ou de nulo. Mas como será a divisão do espólio do voto alternativo entre os líderes das pesquisas? Essa repartição de votos será crucial para definir o futuro do país.

Enquanto isso não ocorre, as pesquisas provocam discussões intermináveis dentro dos comandos partidários. O primeiro susto veio com os resultados da Datafolha divulgada na sexta-feira passada, cuja tendência pode ser vista tanto na enquete do BTG como na do Ipespe (nesses dois estudos, porém, a vantagem de Lula é menor).

O ceticismo que existe hoje entre os estrategistas de Bolsonaro é semelhante ao que se via no Partido Republicano na campanha de Donald Trump em 2020. As pesquisas mostravam um avanço rápido de Joe Biden. Mas os trumpistas preferiam dizer que as sondagens era manipuladas e que a vitória seria republicana. Um dos argumentos para essa conclusão era de que havia pouca gente nos comícios dos democratas (uma versão americana de “Lula não pode sair nas ruas”).

Como se sabe, Biden é o atual inquilino da Casa Branca. Ou seja, ao negar a realidade, o Partido Republicano perdeu uma chance de entender o que seu candidato havia feito de errado e corrigir a rota. Muito disso ocorreu porque Trump é um sujeito que dificilmente escuta os demais, um perfil muito parecido com o de Bolsonaro. Se o presidente não procurar entender o que está causando essa reabilitação de Lula e agir rapidamente para estancar o prejuízo pode ficar isolado em seu grupo mais fiel – e achar que a vitória está assegurada. Sem estar.