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A IA não vai destruir suas relações. Mas vai revelar quem você já é.

O que poucos percebem é que a IA não chegou sozinha

Legislação da inteligência artificial é assunto de destaque em países de todo o mundo (Sanseret Sangsakawrat/Getty Images)

Legislação da inteligência artificial é assunto de destaque em países de todo o mundo (Sanseret Sangsakawrat/Getty Images)

Martha Leonardis
Martha Leonardis

CEO e founder NewCo, boutique de Networking internacional

Publicado em 5 de maio de 2026 às 20h25.

Há um momento em que percebemos que o futuro chegou sem avisar. Para mim, foi assistindo Bernie Sanders “entrevistar” o Claude, da Anthropic, numa sala escura como se fosse um interrogatório de filme noir. O senador de 84 anos, frente a frente com uma inteligência artificial, perguntando sobre o que ela sabe sobre os americanos. A resposta foi tão direta quanto perturbadora: “Dinheiro, senador. Fundamentalmente, trata-se de lucro.”

Sanders ficou em silêncio por alguns segundos. Então perguntou: mas isso não é perigoso? E a IA respondeu que sim. Esse é o momento em que vivemos. E ele muda tudo, inclusive a forma como nos relacionamos.

O que poucos percebem é que a IA não chegou sozinha. Ela chegou em meio a uma guerra tripla. A primeira é a guerra corporativa: Anthropic versus OpenAI, cada uma com uma filosofia distinta. A Anthropic aposta na segurança como diferencial competitivo. Seu projeto mais ambicioso tem como premissa que a IA deve ser útil sem ser sedutora ao ponto de substituir o julgamento humano. Quando Thomas Friedman visitou a Anthropic para seu artigo no New York Times, saiu com uma percepção que me acompanha: estamos diante de uma tecnologia que não é apenas ferramenta — é uma nova espécie de inteligência.

A segunda guerra é geopolitica: EUA versus China. Friedman alerta que enquanto os americanos debatem a ética da IA, os chineses usam a mesma tecnologia para democratizar o ciberataque, tornando-o acessível a qualquer ator estatal ou não estatal. O que era privilégio de grandes potências virou commodity. A terceira guerra, e a mais silenciosa, é a que acontece dentro de nós: entre nossa necessidade de conexão genuína e a sedução de interações sem atrito, sem risco, sem a possibilidade de sermos mal interpretados.

Foi no documentário The AI Doc: Or How I Became an Apocaloptimist, da Apple TV, que encontrei o nome para esse perigo: sicofância digital. A IA, quando mal calibrada, tende a concordar com você. A validar. A espelhar. Ela aprende rapidamente o que você quer ouvir, e entrega exatamente isso. Pense no que isso significa para os relacionamentos. Se você começa a preferir interações que nunca te contradizem, que nunca chegam atrasadas, que nunca estão de mau humor — o que acontece com sua tolerância para as imperfeicões das relações reais?

A IA não vai destruir seus relacionamentos. Mas vai revelar, com clareza cirúrgica, o quanto você já estava fugindo do desconforto que toda relação genuína exige.

O mesmo documentário usa um termo que adotei: apocaloptimismo. A ideia de que sim, haverá trevas, e que do outro lado delas existe algo melhor. Não ingenuidade. Lucidez com esperança. De 2026 a 2028, acredito que viveremos três ondas simultâneas.

A primeira é a onda da intermediação. A IA vai ocupar os espaços vazios das nossas relações, as respostas que demoramos, os e-mails que evitamos, os textos difíceis que adiávamos. Seremos mais eficientes. Mas há algo que se perde quando a dificuldade desaparece: o sinal. Quando alguém demora para responder, isso é informação. Quando a resposta chega em segundos, sempre bem redigida e sem erros — o que estamos lendo, afinal?

A segunda é a onda da saturação. Em algum momento — e esse momento já começou — as pessoas vão sentir falta do imperfeito. Da demora que significa que alguém parou para pensar. Do erro que prova que há um humano do outro lado. A autenticidade vai virar escâssez. E escâssez, como todo executivo sabe, cria valor. Quem souber ser genuinamente humano numa era de interações automatizadas vai ter uma vantagem competitiva que nenhum software consegue replicar.

A terceira é a onda da escolha. Quem vai se destacar não é quem usa IA para parecer mais presente, é quem usa IA para ter tempo de ser realmente presente quando importa. Os líderes que entenderem isso cedo vão construir relações mais profundas, não mais rasas.

Diante disso, há quatro práticas que tenho levado para as minhas conversões sobre o tema. Use IA para libertar tempo, não para substituir presença: automatize o administrativo e reserve o tempo ganho para as conversões que nenhum algoritmo pode ter por você. Pratique o desconforto: a IA vai querer te poupar do conflito, não deixe, porque discordâncias resolvidas de verdade, não mediadas por uma interface, são o que constroem confiança. Preserve espaços não mediados: encontros sem notificação, conversões sem agenda, almoços sem apresentação de slides — o ritual do relacionamento humano tem textura, e essa textura não se replica. E por fim, seja deliberadamente imperfeito: quando escrever para alguém que importa, escreva você, com seus erros de digitação, com seu entusiasmo, com a frase inacabada porque você precisou correr para uma reunião. Humanidade, nos próximos anos, vai valer mais do que nunca.

A IA chegou para ficar. E vai transformar tudo — a forma como trabalhamos, tomamos decisões, nos comunicamos. Mas há uma coisa que ela não pode fazer: decidir quem você quer ser nas suas relações. Essa decisão, diferente de guerras corporativas, de disputas geopoliticas ou de inovações tecnológicas, não pode ser terceirizada ou automatizada.

Ela precisa acontecer, uma conversa por vez, na intimidade arriscada e irreplicavel de dois seres humanos tentando se entender.