Por que o mercado errou tanto nos últimos meses

Em setembro de 2016, o relatório Focus do BC trazia 5,36% como média das previsões para a inflação em 2017. No último Focus, o valor havia caído para 3,60%
 (Germano Luders/Exame)
(Germano Luders/Exame)
Por Luiz Carlos Mendonça de BarrosPublicado em 27/06/2017 12:26 | Última atualização em 26/09/2017 15:07Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Depois de um período sabático em que deixei de escrever minha coluna semanal na EXAME volto a este espaço procurando ainda fugir da terrível — e impossível — tarefa de ajudar o leitor a projetar o futuro de nosso difícil país nos próximos dois anos. As incertezas que rondam a sociedade brasileira são de tal ordem que, sem algumas informações sobre como vai evoluir a crise politica e institucional que vivemos, parece-me irresponsável traçar cenários alternativos. Nesse sentido creio que pouca falta fizeram minhas reflexões e palpites pois existem analistas mais afoitos para ocupar esse espaço na imprensa.

Volto hoje para comentar alguns fatos que escapam a esse cenário de incertezas e que, portanto, permitem uma reflexão do analista. Meu tema hoje é uma pergunta que precisa ser feita nesta metade do ano e que pode trazer alguma contribuição ao leitor: Por que os analistas de mercado têm errado tanto em suas previsões no espaço curto de 8 meses que se passaram após o inicio do processo de desinflação em outubro do ano passado no Brasil?.

Em setembro de 2016 o relatório Focus do Banco Central trazia como média das previsões para a inflação em 2017 o numero de 5,36%. No último Focus publicado o valor médio apresentado foi de 3,60% com alguns analistas cravando estimativas ainda mais baixas. O próprio Banco Central passou esta primeira metade do ano correndo atrás dos números realmente medidos da inflação ao consumidor.

Na minha opinião a principal causa desses erros está associada a uma nova metodologia de análise econômica que é hoje majoritária entre a nova geração de economistas. Trata-se de uma nova forma de entender o que se chama há muito tempo de expectativa racional dos agentes econômicos. Segundo essa forma de pensar, os agentes econômicos são capazes de intuir o cenário futuro em função de sua leitura da conjuntura econômica atual e de como está sendo conduzida a politica econômica do governo, com ênfase maior na política monetária perseguida pelo banco central de cada país.

Não são mais os dados correntes que fazem a cabeça dos mercados mas sim seu comportamento no futuro, em função das ações dos principais responsáveis pela execução da política econômica. Eu e a minha geração de economistas aqui no Brasil fomos treinados nesta metodologia, na qual a leitura do ciclo econômico que se vive é peça fundamental para a construção do futuro. É a partir dela que se julgam as ações dos agentes do governo na construção da política econômica

No soft mais moderno das expectativas econômicas racionais, o que realmente acontece na economia real em um dado momento do ciclo perde muito do seu caráter de protagonista e o futuro ainda incerto passa a ser o balizador principal das expectativas. Muito do erro citado acima na previsão da inflação no Brasil se deve a essa nova versão do racionalismo dos agente econômicos. Ao invés de dar o peso devido ao hiato do produto na quebra da inércia da inflação, foi a possibilidade de estarmos vivendo no Brasil o tal fenômeno da dominância fiscal — ainda muito pouco conhecido mesmo dos mais letrados nesta questão — que passou a dominar as previsões de muitos analistas.

Ora, mesmo em uma situação fiscal complicada como a nossa, é muita ingenuidade atribuir aos milhões de consumidores e empresários que formam o grosso do universo que toma decisões no dia a dia que, em uma situação de quase depressão, iriam pautar suas decisões a partir do medo de que já vivíamos uma situação de crise fiscal grave.

No final, prevaleceu uma leitura mais realista da economia por parte dos agentes econômicos e o peso da fragilidade da demanda agregada prevaleceu e provocou uma intensa e profunda desinflação tradicional.

Anexo a esta coluna um gráfico que trata de mais um erro gravíssimo de análise que tomou conta de um grande numero de economistas — aqui e no exterior — em relação à política monetária ultra expansionista do BCE. Mas isto fica para um próximo encontro.