Por que acertei a previsão de volta do crescimento

A publicação pelo IBGE do crescimento do PIB no segundo trimestre de 2017 provocou revisões para o restante do ano e para 2018.
Por Luiz Carlos Mendonça de BarrosPublicado em 05/09/2017 16:42 | Última atualização em 26/09/2017 15:11Tempo de Leitura: 4 min de leitura

A publicação pelo IBGE do crescimento do PIB no segundo trimestre de 2017 provocou verdadeira onda de revisões quantitativas e qualitativas para o restante do ano e para 2018. O motivo principal para estas mudanças foi o crescimento do consumo das famílias do lado da demanda e do setor de serviços do lado da oferta. A maioria dos analistas não acreditava que isto pudesse ocorrer com o desemprego ainda muito elevado, atingindo mais de 13 milhões de pessoas.

Eu sempre tive uma opinião diferente em relação a esta questão. Vejam trechos editados do que escrevi em março deste ano, quando os números do CAGED pela primeira vez ficaram positivos depois de 22 meses, em uma coluna para o jornal Valor. Volto ao final para concluir.

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Quem acompanha o comportamento do consumidor brasileiro, em vários momentos do passado, conhece o que podemos chamar da “Síndrome do Empregado Desempregado”. Desenvolvida principalmente pelos especialistas de mercado de trabalho no Brasil, ela corresponde ao pânico que o desemprego crescente acaba por criar entre os trabalhadores que continuam em seus empregos. Ao acompanhar a evolução do desemprego, seja pelas notícias da mídia seja pela proximidade com pessoas que foram demitidas e amargam o desemprego, o trabalhador pisa nos freios do consumo, aumenta sua poupança pessoal e contribui sem saber para o aprofundamento da crise econômica. É o que vem acontecendo no Brasil nos últimos meses.

A única forma de tirar estes brasileiros do limbo do consumo é reduzir seu pânico através de um aumento de sua confiança no futuro em função de informações mais otimistas sobre o mercado de trabalho. Mas isto leva tempo. O que acontece primeiro é uma redução nos sinais de mais pessoas perdendo o emprego e, por isto, este primeiro número positivo no CAGED é tão importante.

Foram criados apenas 35.000 postos de trabalho num universo de 34.000.000 de trabalhadores, parte de um conjunto maior de 90.000.000 de trabalhadores brasileiros. Mas vejo isso como um sinal de grande importância para o fortalecimento da recuperação cíclica que estamos vivendo. Com a mudança do humor dos trabalhadores já empregados teremos um aumento do consumo pois sua renda que está crescendo pela queda da inflação corrente e sua situação financeira certamente melhorou em função do aumento preventivo de sua poupança.

Com a retomada da confiança dos que já estão empregados, e que devem representar hoje cerca de 90 milhões de brasileiros, a importância da recuperação dos 3.000.000 de empregos formais, perdidos ao longo dos últimos dois anos, tem uma importância menor do que vem sendo atribuída. Em outras palavras, a recuperação do consumo será certamente mais intensa e mais rápida do que o consenso existente. E os números do CAGED continuarão a ser positivos nos próximos meses.

Se estiver certo nestas minhas previsões sobre o mercado de trabalho o crescimento do PIB no último trimestre do ano vai realmente surpreender a todos. Meu número é algo como 3,5 a 4,0, % quando comparado com o ultimo trimestre de 2016.

Outra questão que sempre defendi em minhas manifestações sobre o ciclo econômico que estamos vivendo foi o comportamento do investimento. Com a ociosidade que temos no tecido econômico e as inseguranças em relação ao futuro depois das eleições de 2018 não é razoável esperar o crescimento dos investimentos nos próximos anos. Portanto citar como fator negativo a queda nos investimentos reportados agora pelo IBGE revela ignorância sobre a natureza da recuperação cíclica que estamos vivendo.

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Junto com a leitura sobre a influência do desemprego ainda alto como inibidor do crescimento do consumo nos próximos meses, a crítica da falta de investimento revela um erro de analise grave sobre o metabolismo da economia brasileira neste final de governo Temer. A maioria dos analistas não entendeu o ciclo que se desenvolveu nos Estados Unidos e na Europa após o estouro da bolha de crédito que ocorreu nestas duas regiões. Perderam uma chance extraordinária de buscar na história recente de outros países uma fonte preciosa de ensinamentos. Uma pena…